Agro deve crescer 3% em 2026, mas perder força em 2027, prevê G5 Partners
- 05/11/2026 08:00
- Redação
Com a divulgação do PIB do terceiro trimestre prevista para 2 de dezembro, as projeções apontam para uma perda de fôlego da agropecuária após as surpresas positivas do primeiro semestre. Os riscos climáticos, os juros elevados e a volatilidade cambial também desafiam as perspectivas para 2027, embora G5 Partners e Rabobank tenham avaliações diferentes sobre a intensidade da desaceleração da economia brasileira.
Para Luis Otávio Leal, sócio e economista-chefe da G5 Partners, o desempenho de janeiro a junho deve sustentar uma expansão de aproximadamente 3% do PIB da agropecuária em 2026.
A instituição projeta crescimento entre 1,7% e 1,8% para a economia brasileira, próximo dos 1,8% estimados pelo Rabobank. Na avaliação de Leal, o setor agropecuário deve responder por cerca de um terço desse avanço.
Segundo o economista, a alta de 2,8% da agropecuária no segundo trimestre surpreendeu positivamente.
Os sinais para o terceiro, porém, são menos favoráveis. A leitura dos dados do IBC-Br, indicador de atividade econômica do Banco Central, sugere um resultado próximo da estabilidade ou uma retração do setor no período.
Leal calcula que, mesmo com estabilidade em setembro, o desempenho dos meses anteriores deixaria um efeito estatístico de queda de 1,12% para o trimestre. Ele ressalva, no entanto, que não espera necessariamente um recuo dessa magnitude.
Entre os pontos de atenção, o economista cita o arroz como uma possível contribuição negativa. Já o café representa uma incerteza: diante da expectativa de safra recorde e da importância da cultura no terceiro trimestre, Leal considera que os sinais de enfraquecimento merecem cautela.
“Pode ser que o IBC-Br dê um falso negativo e a gente tenha uma surpresa positiva”, afirma. Ainda assim, sua avaliação é de que a expansão anual da agropecuária será sustentada principalmente pelo primeiro semestre.
No Rabobank, os indicadores também apontam para uma desaceleração da economia, mas agropecuária e indústria extrativa aparecem como exceções à perda mais disseminada de dinamismo.
Segundo Renan Alves, analista de macroeconomia do banco, esses setores dependem menos das condições domésticas de crédito e consumo e têm maior exposição à demanda externa.
Os efeitos defasados dos juros elevados, por outro lado, já aparecem com mais clareza no consumo das famílias, na indústria e nos serviços. “É uma atividade econômica que já está mostrando sinais de desaceleração”, afirmou Alves durante coletiva de imprensa.
Projeções divergem para 2027
Embora as estimativas para 2026 sejam próximas, G5 Partners e Rabobank projetam ritmos diferentes para o próximo ano. Leal espera uma desaceleração do PIB brasileiro para cerca de 1,5%, com menor contribuição da agropecuária e maior dependência da indústria extrativa. O Rabobank prevê crescimento de 2,2%, mas reconhece riscos de revisão para baixo.
O cenário do banco holandês considera uma recuperação gradual da demanda doméstica, favorecida pela expectativa de retomada dos cortes de juros a partir de março.
A manutenção da Selic elevada por mais tempo, o menor estímulo fiscal e as incertezas sobre a política econômica, porém, devem limitar essa recuperação.
A instituição também aponta o baixo carrego estatístico — a parcela do crescimento do próximo ano herdada do desempenho ao fim de 2026 — como um obstáculo à expansão.
Na avaliação de Leal, há pressões adicionais que podem dificultar a redução dos juros. O El Niño está entre os principais riscos, tanto pelos possíveis efeitos sobre a produção agrícola quanto pelo impacto nos preços dos alimentos.
O economista também cita mudanças na jornada de trabalho, incertezas sobre alíquotas na implementação da reforma tributária e a desvalorização cambial.
Segundo ele, o dólar acumulou alta de aproximadamente 7% entre as duas últimas reuniões do Copom. Caso esse patamar persista, parte do impacto sobre os preços pode aparecer no início de 2027.
Esses fatores podem restringir o espaço para cortes da Selic e prolongar as dificuldades para investimentos e consumo. Leal alerta que, se o Banco Central não conseguir retomar a flexibilização até o fim de 2026, o crescimento da economia pode ficar próximo de zero na margem, na comparação entre períodos consecutivos.
A evolução do conflito no Oriente Médio e dos preços do petróleo acrescenta incerteza ao cenário, com efeitos sobre a inflação e as perspectivas da indústria extrativa.
Contas públicas limitam estímulos à atividade
Além dos juros e do clima, a política fiscal será determinante para o desempenho da economia em 2027. Para o Rabobank, o cumprimento das regras atuais deve resultar em um impulso fiscal levemente negativo, na ausência de novas medidas extraordinárias de gastos ou renúncias de receitas.
Embora o Projeto de Lei Orçamentária Anual de 2027 estabeleça meta de superávit primário de 0,5% do PIB, o resultado cairia para 0,1% após as exclusões de despesas e os abatimentos previstos nas regras fiscais. Na avaliação do banco, o ajuste será insuficiente para estabilizar a dívida pública.
A composição do orçamento dificulta mudanças. De acordo com Alves, aproximadamente 90% das despesas primárias do governo são obrigatórias, o que restringe a possibilidade de cortes sem alterações na legislação.
“Se a gente quiser fazer alguma mudança no gasto primário, tem que ser alguma reforma. O espaço para manobra de ajuste nos gastos acaba sendo bastante limitado”, afirmou.
O analista também destacou que propostas discutidas durante a campanha eleitoral ainda não estão integralmente contempladas no orçamento de 2027. Entre elas estão possíveis mudanças no Bolsa Família, medidas voltadas aos microempreendedores individuais e a oferta de transporte público gratuito.
O governo estima impacto de R$ 53,6 bilhões para as medidas anunciadas, dos quais cerca de R$ 20 bilhões deverão ser acomodados por remanejamentos orçamentários. Para o Rabobank, a incorporação dessas propostas exigirá uma nova discussão sobre as contas públicas.
O banco projeta que a dívida bruta do governo geral avance de 83,6% do PIB em 2026 para 87,2% em 2027. A definição da agenda fiscal será, portanto, decisiva para avaliar a trajetória do endividamento e o espaço para estímulos à economia.
Outro ponto de atenção é a implementação da reforma tributária, também citada por Leal entre os riscos para os preços. Segundo o Rabobank, a substituição de tributos federais pela CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços) e pelo Imposto Seletivo envolve arrecadação estimada em R$ 678,8 bilhões. A definição da alíquota da CBS será um dos elementos centrais para acompanhar os efeitos da transição.