Democrata Abdul El-Sayed será o primeiro senador muçulmano dos EUA
- 04/11/2026 04:17
- Redação
O democrata Abdul El-Sayed derrotará o republicano Mike Rogers na disputa por uma vaga no Senado pelo estado americano do Michigan, segundo projeções da CNN. Assim, se tornará o primeiro muçulmano de origem árabe na Casa quando tomar posse, em janeiro.
El-Sayed foi eleito após as Eleições de Meio de Mandato, realizadas nesta terça-feira (3) nos Estados Unidos, em que um “tsunami” democrata levou o partido ao controle do Congresso.
A vitória no estado-pêndulo representa uma conquista para a ala progressista do Partido Democrata.
Com a vitória de El-Sayed, a cadeira do senador Gary Peters, que está se aposentando, permanecerá nas mãos dos democratas.
El-Sayed, que médico, tem um perfil diferente do de políticos tradicionais. Aos 42 anos, costuma usar camisetas justas com decote em V, relógio de mergulho com pulseira de borracha, jeans e tênis escuros.
Sua vitória ocorre apesar das dificuldades para unificar os democratas após uma acirrada prévia em agosto, na qual enfrentou a deputada moderada Haley Stevens. El-Sayed venceu a disputa por uma margem inferior a um ponto percentual.
Stevens provocou uma reviravolta nos últimos dias da campanha ao anunciar, no domingo, que apoiaria Rogers e ao aparecer ao lado dele em uma igreja em Detroit. A decisão surpreendente enfureceu lideranças democratas em âmbito nacional e em Michigan — e levou o partido a se unir em torno de El-Sayed, que passou meses tentando conquistar o apoio de eleitores negros e judeus que haviam apoiado Stevens nas prévias.
Nas eleições deste ano, ele tinha como slogan “Dinheiro fora da política, dinheiro no seu bolso, Medicare para todos”.
El-Sayed conduziu a campanha para as primárias defendendo o acesso gratuito à saúde pública, o fim do ICE (Serviço de Imigração e Fiscalização Aduaneira) e do apoio dos Estados Unidos a Israel. Ele também defende a taxação de grandes fortunas, mas se distanciou da ala socialista do partido: “Eu não sou socialista. Eu acredito no capitalismo, mas acredito que o capitalismo tem que ser regulado. […] Eu acredito que os bilionários deveriam pagar sua parte para que nossas crianças possam ir para boas escolas. Não é tão radical”, afirmou em entrevista à CNN.
O progressista recebeu o apoio do “Squad”, o grupo informal de congressistas de esquerda na Câmara que inclui a deputada Alexandria Ocasio-Cortez. Por outro lado, foi taxado de “socialista radical de esquerda” e de “ameaça direta à América” pelo presidente Donald Trump e seus aliados.
El-Sayed ganhou destaque pela retórica assertiva e pela presença nas redes sociais. Ele frequentemente publica vídeos treinando na academia e diz que as publicações proporcionam uma conexão com homens jovens que não se identificam com o Partido Democrata: “Parte do problema que enfrentamos é que as pessoas não se veem representadas na nossa política”, disse ele à CNN. “Quero derrubar essa barreira artificial: trazer a política para dentro da academia e levar a academia para dentro da política.”
Em contrapartida, as falas do democrata também viraram motivo de debate. Em entrevistas antigas, ele defendeu, por exemplo, redirecionar o financiamento da polícia a iniciativas de saúde mental e contra a pobreza.
Uma investigação da CNN revelou mais de 100 vídeos publicados em seu canal do Youtube e privados antes do lançamento da campanha. Em um dos vídeos, ele sugere substituir a Segunda Emenda da Constituição americana, que garante o direito de portar armas, pelo direito constitucional ao sistema de saúde pública. Em outro, criticou os fogos de artifício usados nas celebrações de 4 de Julho. A campanha de El-Sayed respondeu que os vídeos antigos “não refletem seus valores de hoje”.
Um dos maiores pontos de atrito que dividiram os democratas durante a campanha às primárias foi a posição de Abdul El-Sayed em relação a Israel. O candidato afirma que Israel cometeu genocídio durante a guerra na Faixa de Gaza e se opõe ao envio de ajuda militar dos Estados Unidos.
“Eu acredito em direitos iguais à paz, dignidade e autodeterminação tanto para judeus israelenses quanto para palestinos. Mas acho que a nossa responsabilidade, acima de tudo, é de usar o dinheiro dos nossos impostos aqui no Michigan, para proporcionar saúde, escolas e estradas, ao invés de enviá-lo a um governo estrangeiro que pode usá-lo em forma de bombas e tanques para destruir infraestrutura, escolas e hospitais lá”, ele disse em entrevista à CNN na semana passada.
No entanto, em uma entrevista anterior à âncora da CNN Kasie Hunt, ele afirmou: “Toda definição de um Estado judaico acaba resultando em alguma articulação de valores antiliberais, absolutamente todas”. Quando questionado se ele acredita que Israel tem o direito de existir, respondeu: “A questão da existência de Israel não é uma dúvida. Não vou entrar nesse jogo de armadilha sobre se o país tem ou não o direito de existir. A questão, em última análise, é se queremos ou não uma política que valorize a igualdade de direitos”.
O democrata também fez duras críticas à oponente Haley Stevens, cuja campanha foi fortemente apoiada pelo AIPAC (Comitê de Assuntos Públicos Americano-Israelense), um grupo de lobby pró-Israel. O AIPAC gastou mais de US$30 milhões na campanha contra o progressista.
El-Sayed ainda foi criticado por participar de eventos de campanha ao lado do streamer Hasan Piker, que em 2019 gerou revolta ao dizer que a “América mereceu o 11 de setembro”. Em resposta às críticas, Sayed disse que a fala de Piker foi obviamente “idiota”, mas disse que o comentário foi feito anos atrás, tirado de contexto pela “cultura do cancelamento”.
Filho de um imigrante egípcio, Abdulrahman Mohamed El-Sayed nasceu em Rochester Hills em 1984 e se define como um “legítimo cidadão nascido e criado no Michigan”. Foi alfabetizado em árabe e inglês, se formou médico na Universidade Columbia e passou a se dedicar às políticas públicas na área da saúde, servindo como diretor executivo do Departamento de Saúde de Detroit.
Em 2018, tentou concorrer para governador, mas foi derrotado nas primárias pela democrata Gretchen Whitmer, que venceu as eleições gerais e agora cumpre o segundo mandato.
Com informações de Eric Bradner, da CNN, e Mariana Catacci, da CNN Brasil