Saúde do planeta: como o ambiente e os animais afetam nosso organismo?
- 03/11/2026 16:22
- Redação
Quando pensamos em cuidar da saúde, geralmente lembramos de consultas médicas, exames, vacinas, alimentação equilibrada e atividade física. Entretanto, existem fatores que influenciam diretamente nosso organismo e que estão muito além das escolhas individuais. A qualidade do ar, a água que consumimos, os alimentos que chegam à mesa e até as condições de vida dos animais podem determinar o aparecimento e a disseminação de doenças.
Essa relação é a base do conceito de Saúde Única, conhecido internacionalmente como One Health. Reconhecido pela Organização Mundial da Saúde (OMS), ele parte do princípio de que a saúde humana, a saúde animal e a saúde ambiental são interdependentes. No Brasil, a importância dessa abordagem ganhou reconhecimento oficial com a Lei nº 14.792/2024, que instituiu o Dia Nacional da Saúde Única, celebrado em 3 de novembro, mesma data da mobilização mundial.
O desmatamento, a expansão das cidades e a ocupação de áreas naturais modificam a relação entre seres humanos, animais silvestres e agentes infecciosos. Essas transformações podem aumentar as oportunidades de contato com microrganismos que antes circulavam predominantemente entre determinadas espécies.
Doenças transmitidas entre animais e pessoas são chamadas de zoonoses. Entre os exemplos estão a raiva e algumas formas de influenza. Segundo a OMS, mais de 60% das doenças infecciosas emergentes relatadas mundialmente têm origem animal. Um caso histórico dessa interdependência é a doença da vaca louca, identificada no Reino Unido na década de 1980. A epidemia foi disseminada pelo uso de rações produzidas com farinhas de carne e ossos contaminadas por príons, proteínas anormais capazes de provocar doenças neurodegenerativas.
O problema ultrapassou a saúde animal quando o consumo de produtos bovinos contaminados foi associado ao surgimento, em seres humanos, da variante da doença de Creutzfeldt-Jakob, uma enfermidade rara e fatal. Embora a origem exata do agente infeccioso ainda seja investigada, o episódio demonstrou como práticas inadequadas na produção animal podem desencadear graves consequências para a saúde pública, reforçando a necessidade de integrar vigilância veterinária, segurança alimentar e medicina humana.
Isso não significa que o contato com animais seja necessariamente perigoso. A convivência com animais domésticos pode trazer benefícios importantes, inclusive para o bem-estar emocional. O risco depende de fatores como condições sanitárias, vacinação, manejo adequado e exposição a agentes infecciosos.
A preocupação maior está nos desequilíbrios que favorecem a circulação de patógenos e criam oportunidades para sua transmissão. Proteger ecossistemas e acompanhar a saúde animal também são formas de prevenir problemas de saúde humana.
A Saúde Única não se limita ao surgimento de novas epidemias. Seus princípios ajudam a compreender problemas que já fazem parte do cotidiano brasileiro. A dengue é um exemplo. Sua transmissão depende do mosquito Aedes aegypti, cuja proliferação é favorecida por recipientes com água parada, condições urbanas inadequadas e fatores climáticos. Temperatura e chuvas influenciam o ciclo do mosquito, embora a ocorrência de surtos também dependa da circulação dos vírus e da imunidade da população.
Outro problema é a contaminação dos alimentos. Bactérias como Salmonella podem chegar às pessoas por produtos contaminados durante a produção, o processamento ou o preparo. A prevenção envolve fiscalização sanitária, cuidados na criação de animais, armazenamento adequado e higiene.
A resistência aos antimicrobianos também demonstra essa interdependência. O uso inadequado de antibióticos em pessoas e animais contribui para a seleção de microrganismos resistentes, que podem circular por diferentes ambientes.
Quando isso acontece, infecções antes tratáveis podem se tornar mais difíceis de combater. O problema exige ações coordenadas, incluindo prescrição responsável, vigilância microbiológica, saneamento e controle do uso desses medicamentos.
Ondas de calor, secas prolongadas, enchentes e alterações no regime de chuvas já representam desafios importantes para a saúde pública.
Temperaturas extremas podem provocar desidratação, exaustão pelo calor e agravamento de doenças cardiovasculares e respiratórias, especialmente entre idosos, crianças e pessoas com enfermidades crônicas.
Enchentes aumentam a exposição à água contaminada e podem favorecer doenças como a leptospirose. Já períodos de seca e queimadas comprometem a qualidade do ar, agravando quadros de asma e outras doenças respiratórias.
As mudanças climáticas também podem alterar a distribuição geográfica de vetores e influenciar a transmissão de determinadas infecções. Entretanto, esses efeitos variam conforme as características ambientais, sociais e sanitárias de cada região.
A medicina clínica continua sendo fundamental para diagnosticar e tratar doenças. Mas muitos problemas de saúde não podem ser enfrentados apenas dentro dos consultórios e hospitais.
Identificar precocemente uma infecção transmitida por animais, por exemplo, pode exigir informações compartilhadas entre médicos, veterinários e profissionais de vigilância epidemiológica. Da mesma forma, prevenir doenças relacionadas à água contaminada depende de saneamento, monitoramento ambiental e políticas públicas.
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A proposta da Saúde Única é justamente integrar esses conhecimentos. Médicos, veterinários, biólogos, pesquisadores e especialistas ambientais precisam trabalhar de maneira coordenada para reconhecer riscos antes que se transformem em crises sanitárias.
Para a população, essa visão também se traduz em atitudes concretas: manter a vacinação de pessoas e animais em dia, evitar a automedicação com antibióticos, eliminar criadouros de mosquitos, cuidar da higiene dos alimentos e contribuir para a preservação ambiental.
A principal mensagem da Saúde Única é que não existe uma separação absoluta entre o organismo humano e o ambiente em que vivemos. A prevenção de doenças começa com os cuidados individuais, mas depende também das condições coletivas que tornam a vida possível e saudável.
*Texto escrito pelo médico Dr. Alfredo Salim Helito, membro do corpo clínico do Hospital Sírio-Libanês e Head nacional de Clínica Médica da Brazil Health | CRM/SP 43163 | RQE 132808