IST: por que mesmo com tanta informação ainda há aumento de infecções?
Saúde

IST: por que mesmo com tanta informação ainda há aumento de infecções?

  • 02/11/2026 03:00
  • Redação

Quem acompanhou o início da epidemia de aids, nas décadas de 1980 e 1990, certamente se lembra do medo que cercava o diagnóstico de HIV. Naquela época, não existiam tratamentos capazes de controlar a infecção como os disponíveis atualmente, e receber o resultado positivo era frequentemente associado a uma sentença de morte.

Quatro décadas depois, a medicina transformou essa realidade. Com diagnóstico precoce e tratamento adequado, pessoas vivendo com HIV podem ter uma expectativa de vida próxima à da população geral. Além disso, quem mantém a carga viral indetectável não transmite o vírus por via sexual.

Os avanços, entretanto, trouxeram um novo desafio: como manter a percepção de risco diante de doenças que hoje podem ser tratadas ou controladas?

Segundo dados do Ministério da Saúde, em 2024, a maior taxa de detecção de HIV entre os homens brasileiros ocorreu na faixa dos 25 aos 29 anos. A sífilis também preocupa. Aproximadamente 256 mil casos adquiridos foram notificados naquele ano, com taxas elevadas entre adultos jovens.

Quando o avanço da medicina muda a percepção do risco

Seria simplista afirmar que os jovens deixaram de se preocupar com as infecções sexualmente transmissíveis. O comportamento sexual é influenciado por fatores culturais, emocionais e sociais, além do conhecimento sobre saúde. No entanto, a possibilidade de controlar o HIV com medicamentos e a existência de recursos preventivos altamente eficazes podem contribuir para uma percepção diferente das consequências de uma relação desprotegida.

A profilaxia pré-exposição, conhecida como PrEP, é um exemplo importante. Quando utilizada corretamente, oferece proteção altamente eficaz contra o HIV, mas não previne sífilis, gonorreia, clamídia ou HPV. Da mesma forma, o fato de uma infecção ter tratamento não significa que seja inofensiva. A sífilis, quando não diagnosticada e tratada, pode comprometer diferentes órgãos e sistemas, incluindo o sistema nervoso e o cardiovascular, além de provocar consequências graves durante a gestação.

Ter informação não significa adotar comportamentos seguros

Hoje, qualquer adolescente consegue encontrar rapidamente informações sobre transmissão, sintomas e prevenção das IST. Mas existe uma distância considerável entre conhecer uma recomendação médica e incorporá-la à vida cotidiana.

A sexualidade envolve desejo, confiança, vínculos afetivos e decisões que nem sempre são tomadas de maneira racional. O consumo de álcool, a dificuldade de negociar o uso do preservativo e a sensação de segurança em relacionamentos estáveis também podem influenciar o comportamento. Muitas pessoas

abandonam a proteção quando estabelecem uma relação duradoura, mesmo sem que os parceiros tenham realizado exames.

Outro problema é acreditar que a ausência de sintomas significa ausência de infecção. Clamídia, gonorreia e sífilis podem permanecer sem manifestações evidentes por determinados períodos. Uma pessoa pode sentir-se saudável e, ainda assim, transmitir uma IST. Por isso, esperar o aparecimento de feridas, corrimentos ou outros sinais para procurar atendimento não é uma estratégia segura.

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A prevenção também começa no consultório do clínico geral

A saúde sexual precisa ser compreendida como parte integrante da saúde geral. Assim como o médico investiga hábitos alimentares, atividade física, tabagismo e histórico familiar, conversar sobre sexualidade deveria fazer parte da avaliação clínica, especialmente entre adolescentes e adultos jovens.

Essa abordagem permite identificar situações de vulnerabilidade, esclarecer dúvidas e recomendar medidas preventivas individualizadas. Dependendo do histórico e das práticas sexuais, podem ser indicados exames periódicos, vacinação contra hepatite B e HPV, uso de preservativos e estratégias específicas de prevenção do HIV, como PrEP e profilaxia pós-exposição (PEP).

O atendimento também precisa oferecer um ambiente de confiança, privacidade e ausência de julgamentos. Vergonha, medo de exposição e dificuldade para conversar sobre sexo ainda afastam muitos jovens dos serviços de saúde. Quando o assunto é tratado com naturalidade durante uma consulta, aumentam as oportunidades de orientação e diagnóstico precoce.

A prevenção combinada, que reúne diferentes medidas de proteção, é atualmente uma das principais estratégias de enfrentamento das IST. Muitas dessas ferramentas estão disponíveis gratuitamente no Sistema Único de Saúde (SUS). O desafio é ampliar seu conhecimento e facilitar o acesso de quem precisa.

A medicina conseguiu transformar o HIV de uma infecção frequentemente fatal em uma condição crônica controlável. Essa conquista deve ser celebrada, mas não pode levar à banalização das infecções sexualmente transmissíveis.

Não precisamos recuperar o medo que marcou as gerações anteriores. Precisamos fortalecer a consciência de que cuidar da saúde sexual é tão importante quanto controlar a pressão arterial, manter a vacinação em dia ou realizar exames preventivos. O conhecimento existe, os recursos estão disponíveis e a prevenção funciona. O passo seguinte é fazer com que esses cuidados sejam incorporados à rotina, antes que uma infecção aconteça.

*Texto escrito por Dr. Alfredo Salim Helito, membro do corpo clínico do Hospital Sírio-Libanês e Head nacional de Clínica Médica da Brazil Health – CRM/SP 43163 | RQE 132808 Clínica Médica

  • Fonte: CNN Brasil
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