Ajuste fiscal de Lula precisa ser socialmente justo, diz Sergio Firpo
- 02/11/2026 03:00
- Redação
O Brasil precisa construir um caminho para o equilíbrio das contas públicas que combine responsabilidade fiscal e justiça social. A avaliação é do economista Sergio Firpo, coordenador acadêmico do Observatório da Qualidade do Gasto Público do Insper, que participou do programa WW Especial, da CNN Brasil, dedicado a discutir os rumos do país após as eleições.
Para Firpo, que foi secretário de monitoramento e avaliação de políticas públicas do Ministério de Planejamento e Orçamento, o desafio está em apresentar um conjunto de medidas capaz de sinalizar, desde o início de um novo governo, o compromisso com o ajuste fiscal no médio e longo prazo. Ele pondera, porém, que as características do orçamento brasileiro impedem cortes expressivos de despesas com efeitos imediatos.
“O que precisa ser feito é pensar num pacote de medidas que afetem imediatamente a perspectiva de que, no médio e longo prazo, vá haver, sim, um ajuste no gasto primário”, afirmou.
Segundo o economista, o orçamento engessado dificulta mudanças rápidas. “Você não consegue hoje, com a forma como o orçamento é engessado, cortar gastos imediatamente com impacto já no primeiro ano. Isso não existe, nenhum governo conseguiria implementar algo tão draconiano assim.”
Na avaliação de Firpo, é possível estruturar um ajuste fiscal mesmo em um governo de esquerda, desde que as medidas transmitam confiança na capacidade de alcançar o equilíbrio das contas públicas ao longo de quatro anos. Para isso, entretanto, o pacote precisa considerar os impactos sociais das mudanças e evitar que o peso do ajuste recaia apenas sobre determinados grupos.
“A gente não consegue pensar em criar legitimidade para um pacote que seja fiscalmente duro e que seja, ao mesmo tempo, socialmente injusto”, destacou.
O economista chama a atenção para o crescimento das despesas obrigatórias, especialmente aquelas relacionadas aos benefícios previdenciários e assistenciais. Embora reconheça a necessidade de discutir esses gastos, Firpo defende que o debate também alcance os benefícios tributários concedidos a empresas e pessoas de maior renda.
Ele cita, entre outros exemplos, as isenções fiscais e as deduções do Imposto de Renda relacionadas a despesas com saúde e educação, que beneficiam parcelas da população que, segundo sua análise, acabam ficando de fora das discussões sobre o ajuste.
“Como é que você cria legitimidade social para que você consiga fazer um ajuste onde tem a maior parte do volume orçamentário, se você não fizer o mesmo tipo de procedimento sobre os mais ricos, ou sobre empresas que se beneficiam de gastos tributários, ou sobre uma classe média, que, na verdade, somos os ricos, que nos beneficiamos de uma série de isenções tributárias, de um imposto de renda, deduções com gastos com saúde e educação, e que a gente não é atingido?”, questionou.
Ainda de acordo com o economista, a concentração do debate fiscal nas despesas previdenciárias e assistenciais, sem uma revisão dos benefícios concedidos a outros segmentos, compromete a aceitação política das medidas. Ele ressalta que a construção de apoio social depende de um esforço coletivo, que distribua responsabilidades e permita discutir prioridades para o país.
“Se for pensar na forma como esses benefícios previdenciários e assistenciais são tratados ao longo do tempo, sempre entrando na pauta do ajuste, mas sempre se desprezando esse outro lado, a gente não vai conseguir implementar isso do ponto de vista político”, disse.
O economista defende, portanto, que a discussão sobre as contas públicas vá além da redução de despesas e envolva uma reflexão sobre o modelo de sociedade que o país pretende construir.
“Para se criar legitimidade, acho que tem que ter algo que seja abrangente e que envolva um esforço coletivo de se pensar o que a gente quer, que tipo de país a gente quer, um país socialmente justo, mas, ao mesmo tempo, com capacidade de fazer entregas do ponto de vista de política pública”, concluiu.
Apresentado por William Waack, o programa é exibido aos domingos, às 22h, em todas as plataformas da CNN Brasil.
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