Plano de estado dos anos 90 transformou a Coreia do Sul em uma superpotência pop com a regra de “apoiar sem interferir”
- 30/10/2026 14:49
- Redação
Imagina começar o dia cuidando da pele com uma máscara facial ao som de Blackpink, almoçar um saboroso bibimbap enquanto assiste a um filme de Bong Joon-ho e, à noite, fazer uma maratona da série de zumbis All of Us Are Dead acompanhada de frango frito picante e soju de morango.
Tudo isto é possível sem colocar os pés na Coreia do Sul. O movimento cultural conhecido como Hallyu, ou Onda Coreana, deixou de ser um nicho asiático para se transformar num autêntico terramoto pop global, conquistando milhões de fãs em todos os continentes e movimentando milhares de milhões de dólares.
O alcance desta expansão é impressionante e desafia qualquer barreira linguística. Músicas de grupos de K-pop como os BTS e as Twice conquistam rotineiramente o topo das tabelas nos Estados Unidos e no Reino Unido, enquanto produções como Squid Game batem recordes históricos de visualizações e o filme Parasite faz história ao vencer o Oscar de Melhor Filme.
O país, que há poucas décadas era reconhecido internacionalmente sobretudo pela sua indústria pesada, eletrónica e automóveis, reinventou a sua identidade e estabeleceu-se como uma superpotência criativa indispensável no cenário cultural contemporâneo.
Muitos analistas perguntam-se qual é a fórmula mágica por trás desta hegemonia, e a resposta reside numa combinação estratégica entre o dinamismo do setor privado e um apoio público inteligente. Desde o final dos anos 1990, com a presidência de Kim Dae-jung, o Estado sul-coreano passou a encarar a cultura como uma commodity de exportação, estabelecendo a diretriz de “apoiar sem interferir”.
Através de incentivos fiscais, linhas de crédito e investimento em escolas de artes e festivais renomados, como o Festival Internacional de Cinema de Busan, o governo financia as bases para que criadores e estúdios privados deem asas à sua imaginação com total liberdade artística.
O impacto do Hallyu ultrapassou rapidamente as telas e os fones de ouvido, transformando hábitos de consumo em todo o planeta. A indústria da cosmética, o famoso K-beauty, atrai multidões aos bairros comerciais de Seul e caminha para movimentar mais de 18 mil milhões de dólares até 2030, graças ao uso de ingredientes naturais.
Ao mesmo tempo, a gastronomia sul-coreana ganha o mundo: o tradicional kimchi tornou-se um item indispensável nas prateleiras internacionais pelos seus benefícios para a saúde, o gochujang tem lugar de destaque nas cozinhas de grandes chefs e snacks como o corn dog e a bebida soju viraram tendências globais.
Os números comprovam que a cultura se tornou uma das ferramentas econômicas mais poderosas da Coreia do Sul, superando os rendimentos de exportação de setores tradicionais como eletrodomésticos e veículos elétricos. Para ter uma ideia da magnitude deste impacto, estima-se que o grupo BTS sozinho seja responsável por gerar cerca de 3,67 mil milhões de dólares anuais para a economia do país através de consumo, turismo e exportações, sendo que o lançamento do single
Apesar dos holofotes, a indústria cultural sul-coreana também enfrenta desafios e debates sociais intensos. No passado, gestões governamentais conservadoras chegaram a criar “listas” para cortar financiamentos a artistas com posições políticas divergentes, incluindo diretores aclamados como Bong Joon-ho e Hwang Dong-hyuk. Além disso, o setor lida com controvérsias complexas sobre a saúde mental dos artistas, a pressão extrema na carreira, episódios de assédio e problemas estruturais revelados por escândalos nos bastidores da cultura pop.
A grande lição que o modelo sul-coreano deixa para o mundo é a sua capacidade contínua de inovação, resiliência e abertura global. O K-pop tornou-se uma operação verdadeiramente internacional, unindo compositores suecos, coreógrafos americanos e integrantes de diversas nacionalidades em grupos globais, ao mesmo tempo que desperta um interesse inédito pela aprendizagem da língua coreana em todo o mundo. Com a literatura sul-coreana a apontar como a próxima grande fronteira de sucesso internacional, a Coreia do Sul demonstra como a paixão pela narrativa e a valorização da cultura podem transformar uma nação numa referência global inabalável.