Flávio e Lula convergem em infra e fertilizantes, mas divergem no crédito
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Flávio e Lula convergem em infra e fertilizantes, mas divergem no crédito

  • 23/10/2026 08:00
  • Redação

Os programas de governo de Flávio Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT)  incorporam demandas centrais do agronegócio, como ampliação do seguro rural, investimentos em infraestrutura e redução da dependência brasileira de fertilizantes importados. As propostas, porém, seguem caminhos diferentes para enfrentar os problemas de financiamento, endividamento e apoio à produção.

A comparação dos programas apresentados à Justiça Eleitoral, que foi detalhadas pela CNN Agro em diversos temas nas últimas duas semanas, mostra que os candidatos reconhecem parte dos principais gargalos do setor, mas nem todas as propostas vêm acompanhadas de metas, orçamento ou prazos de execução. A diferença está tanto nos instrumentos escolhidos quanto no grau de detalhamento das medidas.

Onde os candidatos convergem

A ampliação do seguro rural é um dos pontos em comum. Os dois candidatos prometem fortalecer a proteção financeira dos produtores diante de perdas na atividade agropecuária, especialmente em um cenário de maior exposição a eventos climáticos.

Lula prevê fortalecer a política de seguro, ampliar o acesso dos agricultores familiares e discutir mecanismos para enfrentar perdas catastróficas. Flávio propõe ampliar a cobertura como parte de uma agenda de previsibilidade financeira para o produtor. Nenhum dos dois programas, entretanto, define o orçamento destinado à política ou estabelece metas de expansão da área segurada.

A infraestrutura também aparece nos dois planos, com propostas para melhorar o transporte da produção, ampliar a armazenagem e investir em irrigação. Lula prevê dar continuidade ao Novo PAC, ampliar concessões e integrar diferentes modais de transporte. Flávio propõe investimentos em corredores logísticos e maior participação da iniciativa privada, além de estabelecer uma meta geral de R$ 900 bilhões para infraestrutura de transportes em quatro anos. O programa não discrimina quanto desse valor seria destinado especificamente ao agronegócio.

Outro ponto de convergência é a redução da dependência externa de fertilizantes. Lula aposta na retomada da produção industrial, com participação da Petrobras, e no incentivo aos bioinsumos. Flávio prioriza o aproveitamento de reservas minerais brasileiras, como potássio e fosfato, e a expansão da infraestrutura de gás natural para estimular a fabricação de fertilizantes nitrogenados.

Crédito e dívidas concentram diferenças

No financiamento rural, Flávio destaca a reorganização das dívidas rurais por meio de instrumentos de securitização. A proposta busca dar mais previsibilidade financeira ao produtor, mas o programa não especifica quais dívidas seriam contempladas, as condições de pagamento ou a participação de recursos públicos.

Lula, por sua vez, propõe reformular o Plano Safra para um modelo plurianual, simplificar o acesso ao crédito e diversificar as fontes de recursos, incluindo o mercado de capitais e os títulos do agronegócio.

A diferença é relevante porque o crédito para financiar a produção e a renegociação de compromissos já assumidos são problemas distintos. Enquanto a proposta de Lula enfatiza a estrutura de financiamento, a de Flávio inclui uma medida expressa para reorganizar o endividamento. O programa petista não apresenta uma proposta específica de renegociação das dívidas rurais para o próximo mandato.

Agricultura familiar é outra diferença

A agricultura familiar ocupa espaço explícito no programa de Lula, que prevê ampliar o Pronaf, fortalecer a assistência técnica e expandir as compras públicas de alimentos. O plano também estabelece medidas de apoio à mecanização, ao seguro rural e à produção de alimentos da cesta básica.

No programa de Flávio, o combate ao custo elevado dos alimentos está mais associado à melhoria da logística e ao aumento da capacidade de armazenagem. O candidato também propõe ampliar a regularização e a titulação de pequenas propriedades, com o objetivo de facilitar o acesso ao crédito e dar segurança jurídica aos produtores.

O documento do PL não prevê medidas específicas de ampliação do Pronaf ou das compras públicas da agricultura familiar. A diferença aparece, portanto, na forma de apoiar os pequenos produtores: Lula apresenta uma agenda que combina financiamento, comercialização e políticas de segurança alimentar; Flávio enfatiza a regularização fundiária e os custos de produção e distribuição.

Tecnologia e comércio exterior

Na ciência agropecuária,  Lula propõe fortalecer a Embrapa, investir em biotecnologia, edição genômica e agricultura de precisão. O programa de Flávio defende pesquisa e desenvolvimento, mas apresenta menos detalhamento sobre medidas específicas para a inovação agropecuária.

No comércio exterior, os dois buscam ampliar a presença brasileira nos mercados internacionais. Flávio prioriza a atração de investimentos e a defesa dos interesses econômicos nacionais. Lula enfatiza a diversificação de parceiros e a diplomacia comercial.  As propostas se inserem em um cenário de barreiras comerciais, disputas geopolíticas e necessidade de manter o acesso aos principais compradores do agronegócio.

Sustentabilidade e biocombustíveis

Na agenda ambiental e energética, Lula e Flávio Bolsonaro defendem ampliar a produção e o uso de biocombustíveis, incluindo etanol, biodiesel, biogás e combustível sustentável de aviação (SAF). Lula propõe fortalecer o RenovaBio, ampliar o uso de matérias-primas agrícolas para a produção de energia e manter instrumentos de financiamento climático. O programa também estabelece a meta de desmatamento líquido zero até 2030 e reafirma o compromisso brasileiro de reduzir as emissões líquidas de gases de efeito estufa entre 59% e 67% até 2035, em relação a 2005.

Flávio, por sua vez, propõe ampliar o alcance do RenovaBio, facilitar o financiamento de projetos que transformem resíduos em energia e estimular a venda de créditos de carbono brasileiros no exterior. Na área florestal, estabelece a meta de zerar o desmatamento ilegal até 2029 e prevê remunerar produtores pela conservação ambiental. A principal diferença está no detalhamento dos compromissos climáticos: o programa de Flávio não apresenta uma meta nacional quantificada de redução de emissões, enquanto o de Lula reafirma objetivos climáticos e instrumentos de financiamento para alcançá-los.

  • Fonte: CNN Brasil
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