A incrível história dos grilos que abriram mão da voz para não virar janta: como a evolução criou o acasalamento silencioso na floresta
Curiosidade

A incrível história dos grilos que abriram mão da voz para não virar janta: como a evolução criou o acasalamento silencioso na floresta

  • 22/10/2026 15:05
  • Redação

O som característico do “cri-cri” entoado pelos grilos durante a noite é uma das assinaturas sonoras mais conhecidas da natureza, utilizado historicamente pelos machos para atrair as fêmeas para o acasalamento.

No entanto, uma pesquisa desenvolvida no Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (USP) revelou que, ao longo de milhões de anos de evolução, diversas linhagens desses insetos perderam a capacidade de emitir ou até mesmo de ouvir sons.

O estudo, publicado no periódico científico Journal of Systematics and Evolution, analisou a trajetória evolutiva de 107 espécies de grilos arborícolas da família Oecanthidae.

Conduzida pelo pesquisador Lucas Denadai de Campos, a investigação aponta que a pressão provocada por predadores e as constantes mudanças de habitat forçaram esses insetos a abandonarem a comunicação sonora tradicional, dando origem a variações surpreendentes na natureza, como os “ouvintes silenciosos” e os “cantores surdos”.

Entenda a mecânica biológica usada pelos insetos para produzir o som

Para compreender como o silêncio se instalou, os cientistas mapearam as estruturas físicas envolvidas na comunicação acústica dos grilos. O barulho do “cri-cri” não vem da boca do animal, mas do atrito entre as suas asas, onde uma estrutura parecida com um calo na asa esquerda raspa em uma fileira de microdentes na asa direita.

O som é amplificado por regiões chamadas harpa e espelho, enquanto os tímpanos, localizados incrivelmente nas pernas dianteiras dos insetos, servem para captar as vibrações do ambiente.

A perda irreversível da capacidade de cantar ao longo da evolução

Ao aplicar modelos matemáticos e analisar fósseis do grupo, os pesquisadores constataram que os ancestrais desses grilos possuíam o sistema acústico completo, mas a seleção natural fez com que várias linhagens perdessem o tímpano ou as veias modificadas das asas.

Curiosamente, a pesquisa revelou um caminho sem volta: enquanto o tímpano conseguiu se reestabelecer em algumas espécies ao longo das gerações, nenhuma linhagem de grilo que perdeu a capacidade de cantar voltou a emitir sons no decorrer de milhões de anos.

Linguagem corporal e batuques substituem o canto tradicional na reprodução

Sem a opção de cantar alto sem atrair predadores perigosos, esses insetos desenvolveram formas alternativas e sutis de interação, como a comunicação vibratória.

Durante os rituais de acasalamento e cortejo, em vez de recorrerem à melodia habitual, os machos de espécies silenciosas usam os palpos das estruturas bucais ou batem as pernas dianteiras sobre as folhas dos arbustos.

Esse “batuque” gera pequenas trepidações na vegetação que chegam diretamente à fêmea, garantindo a reprodução sem alardear a própria presença para os predadores ao redor.

  • Fonte: CNN Brasil
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