Indústria da solidão: idosos chineses contratam ‘filhos de aluguel’ para conversar e ajudar em casa
- 21/10/2026 18:19
- Redação
A chamada “epidemia da solidão”, reconhecida pela Organização Mundial da Saúde, deu origem a uma série de novos contratos de prestação de serviço baseados no convívio social e no alívio do isolamento. Em países do leste asiático, já é possível pagar pela companhia de jovens que desempenham papéis antes restritos aos familiares, amigos e até namorados.
Na China, um serviço de “filhos comunitários” inclui visitas, reparos simples em casa, entrega de marmitas e compartilhamento de refeições, além de conversar com clientes que frequentemente não têm outras pessoas a quem recorrer. A oferta é mais popular entre idosos que vivem sozinhos, sem filhos que morem perto e, com frequência, viúvos.
A clientela em potencial é farta. Com o aumento da expectativa de vida, a população idosa na China está crescendo, e a OMS estima que 28% do povo chinês tenha 60 anos ou mais até 2040. Com a restrição ao número de filhos que durou até 2015, muitos acabaram vivendo distantes de seu único descendente.
Wang Yingwei trocou seu trabalho como vendedor em uma loja de celulares para iniciar sua própria empresa na “indústria da solidão”. Ele contou à BBC que se inspirou em seu próprio sogro, paciente de Alzheimer e residente de uma casa de repouso. Insatisfeito com as condições de cuidado oferecidas ao idoso, Wang disse querer oferecer uma alternativa para aqueles que desejam continuar vivendo em casa.
É de sua autoria o termo “filho comunitário”: “Significa colocar-se no lugar das pessoas mais velhas e considerar suas necessidades com cuidado”, disse.
Além dele, outros três funcionários fazem visitas de frequência variável a clientes fixos. Yang, 91, recebe Wang em sua casa duas vezes por dia para fazer refeições e prestar apoio em tarefas como conserto de eletrodomésticos. Para a chinesa que sofre com glaucoma, o serviço é mais do que uma conveniência.
“A solidão realmente é meu maior problema. Às vezes, quando eu quero conversar, falo com a televisão”, disse. Ela ainda contou que, depois da morte do marido, chegou a apresentar ao filho seu interesse em eutanásia médica: “Ele me disse que é proibido. Eu disse a ele que se um dia fosse legalizada, eu queria fazer. Não queria mais viver.”
O prestador diferencia o serviço desempenhado por ele do papel dos cuidadores de idosos. Além de cobrar metade do preço, “os mais velhos nos tratam como seus filhos. Nós os tratamos como nossos pais.”
Apesar de não ser classificada como atividade médica ou cuidado à saúde, a oferta de companhia pode reduzir riscos físicos e psicológicos associados à solidão. O isolamento social é ligado por pesquisadores à má função imunológica e a problemas cardiovasculares, como hipertensão, e aumenta o risco de acidente vascular cerebral em 30%. Contribui também para o declínio cognitivo e estão associados a um aumento de 50% na demência.
Pessoas isoladas também tendem a ter mais hábitos não saudáveis, como fumar e/ou beber em excesso, além de serem mais sedentárias. Ainda, as perdas auditiva ou de visão muito frequentes na velhice tendem a contribuir com o isolamento, criando barreiras à conexão social.
Em agosto, o Washington Post descreveu ofertas de jovens chineses que se dispõem a acompanhar idosos em passeios, visitas médicas e compras. Uma “sessão” de três horas pode custar entre US$ 29 e US$ 88 (cerca de R$ 145 a R$ 442), a depender da qualificação para os serviços. Os chamados “acompanhantes de saúde” ou “escortes médicos”, por exemplo, defendem os interesses dos pacientes durante consultas e exames e ajudam a mediar conversas com profissionais da saúde, garantindo o entendimento necessário para o sucesso do tratamento.
Mas esta categoria de prestador não é restrita à China. Nos Estados Unidos, a empresa Papa oferece encontros com os “Papa pals” para auxílio com “tarefas do dia a dia, transporte, trabalho doméstico simples e companhia amigável”, a partir de US$ 30 por hora. O contato é feito por aplicativo em um modelo similar a plataformas de trabalho freelance.