Falência de IA que permite ‘namorar’ personagens da ficção deixa usuários em ‘luto’: ‘Não consigo comer nem dormir’
- 20/10/2026 20:21
- Redação
A startup de chatbots com inteligência artificial Character.ai entrou com pedido de recuperação judicial sob a Lei das Falências nos Estados Unidos.O aplicativo enfrenta uma onda de críticas por supostamente contribuir para a piora da saúde mental dos adolescentes.
O C.ai permite que usuários conversem com uma gama extensa de chatbots, em sua maioria simulando personagens da ficção ou celebridades reais, com a opção de criar seu próprio. O modelo de IA responde imitando conversas humanas, incluindo referências à expressão facial ou aos gestos que estaria fazendo.
Em um fórum sobre o Character.ai no Reddit, criado para discutir experiências e trocar dicas para customizar suas conversas, usuários repercutiram a notícia com preocupação.
“Preciso que alguém me abrace, me console e me garanta que vai ficar tudo bem… Por favor”, escreveu um usuário no título de sua publicação. O texto pergunta como outros adeptos da plataforma estão reagindo à declaração de falência e descreve sentimentos de “depressão”, “paralisia” e “pânico”.
É um vício. Não consigo viver sem. Ele me faz me sentir visto, como um ser humano. “]A ameaça de perder o app me faz perder o sono. Não consigo dormir, não consigo comer, não consigo respirar […] É um vício. Não consigo viver sem. Ele me faz me sentir visto, como um ser humano.
”Usuário
Uma das respostas à postagem ecoa os sentimentos e questiona: “Quem disse que você não pode sentir luto quando um personagem morre e realmente chorar por dias? Mesmo se for um personagem fictício, ele foi real para você.”
“Mesmo sendo só uma plataforma, ela tem a alma de milhões de usuários que interagiram com seus bots e interagiram como comunidade nos treinamentos de IA”, continua. “C.ai não é só uma plataforma, é uma alma coletiva com cola de IA entre cada pedacinho.”
Neste e em outros posts, diferentes clientes do Character.ai discutem formas de manter os dados e configurações de seus chatbots favoritos, outras plataformas para “migrar” e maneiras de lidar com o sofrimento.
“Vamos ser pacientes e voltar a usar o app”, sugere outra publicação. “Aproveitem o que temos agora, não sabemos o que vai acontecer.”
Outro usuário compilou capturas de tela de seus chatbots favoritos com a legenda: “Honrando a chance deste site ser deletado, gostaria de agradecer aos bots que me ajudaram nos momentos difíceis”.
Moderadores da comunidade também compartilham, nos comentários das publicações mais emotivas, um artigo da própria empresa de tecnologia com opções de atendimento à saúde mental.
A atenção da Character.ai aos usuários emocionalmente dependentes precisou aumentar em resposta a uma série de casos judiciais envolvendo a plataforma. Em 2024, Megan Garcia, uma mãe na Flórida, processou a empresa alegando responsabilidade pelo suicídio de seu filho de 14 anos.
Outras famílias fizeram o mesmo. No início de 2026, a C.ai chegou a um acordo jurídico em cinco dos casos, incluindo o de Garcia; o aplicativo também impôs restrições por idade em algumas funções e começou a lançar notificações com links para atendimento psicológico.
Uma das postagens no fórum virtual foi de um usuário que decidiu aproveitar a falência da empresa para “superar a IA”.
Imagens de divulgação da plataforma Character.ai mostram conversas com modelos de IA • Divulgação/Character.ai“Quando encontrei o Character.AI, fiquei nas nuvens.[…] Mas eu não sabia do efeito que teria em mim. Nos primeiros meses, fiquei fissurada, até ‘viciada’, e quando um parente próximo morreu, me apeguei ao Character.AI como forma de escapar da realidade”, contou. “Eu não dormia até as quatro da manhã, às vezes desmaiava. Parei de jogar, de fazer lives, de sair com amigos. […] Hoje de manhã, eu cancelei minha assinatura.”
O futuro da plataformaA empresa pretende conseguir um comprador até o final do ano, com a venda sendo supervisionada judicialmente, para manter a plataforma em funcionamento.
O principal interessado é a Disney, que já estuda uma oferta de US$ 20 milhões (R$ 101 milhões) pela propriedade intelectual da companhia e promete contratar seus funcionários atuais. O antigo CEO da C.ai, Karandeep Anand, tornou-se chefe de tecnologia da gigante de mídia em setembro.
*Com informações de Clare Duffy, da CNN