Mais do que compensação, curtailment exige novo desenho elétrico
- 20/10/2026 07:00
- Redação
O Brasil chegou a um ponto decisivo de sua transição energética. Enquanto as fontes eólica e solar avançaram rapidamente, o sistema elétrico passou a enfrentar um problema que revela os limites da infraestrutura atual: há momentos em que o País dispõe de energia limpa, mas não consegue aproveitá-la integralmente.
O chamado “curtailment”, a redução ou interrupção da geração de usinas que poderiam produzir energia, mas não conseguem injetá-la integralmente no sistema por restrições operativas, entra nesta conjuntura.
A publicação da Portaria Normativa MME nº 140/2026 foi um passo importante. A medida regulamentou a compensação por determinados cortes ocorridos entre setembro de 2023 e novembro de 2025. Na etapa de manifestação de interesse, 1.539 usinas eólicas e solares, somando cerca de 53 GW, aderiram ao processo, representando aproximadamente 91% da capacidade instalada de referência considerada para o mecanismo.
É uma resposta necessária para um passivo acumulado nos últimos anos, mas não encerra a discussão, pois o curtailment continua ocorrendo, e o desafio agora é construir uma solução para o futuro.
O problema debatido não é o Brasil ter energia renovável demais: o que existe é uma dificuldade de compatibilizar, em determinadas horas, a oferta de energia com a capacidade de transmissão, consumo, armazenamento e operação do sistema.
A geração solar concentra grande parte de sua produção durante o dia. Em algumas regiões, a geração eólica também apresenta elevada disponibilidade em períodos nos quais a demanda ou a capacidade de escoamento não acompanham a oferta. O resultado é paradoxal: ao mesmo tempo em que o país amplia sua capacidade de produzir energia limpa, parte dessa energia deixa de ser aproveitada.
O fenômeno não é exclusividade brasileira, já que sistemas elétricos de diferentes países convivem com cortes temporários de geração para preservar a segurança da operação. O problema surge quando uma ocorrência administrável passa a representar uma variável recorrente e pouco previsível para quem investe.
Para um investidor, a questão não é eliminar completamente o curtailment, já que o sistema tem crescente participação de fontes renováveis variáveis e esse objetivo não seria tecnicamente realista. A questão é saber como os cortes serão classificados, quais regras serão aplicadas, quem assumirá seus custos e qual será a previsibilidade do ambiente regulatório
Essa previsibilidade tem valor econômico. Em uma indústria intensiva em capital, com projetos que precisam operar por décadas, riscos recorrentes e difíceis de mensurar são incorporados às decisões de investimento e ao custo de capital. Assim, o “curtailment” não deve ser tratado apenas como uma questão de compensação financeira, mas como parte de uma agenda mais ampla de modernização do setor elétrico.
O Brasil mudou sua matriz elétrica mais rapidamente do que parte de sua infraestrutura e de seus mecanismos de operação conseguiu acompanhar. A resposta passa por aspectos como expansão e planejamento da transmissão, aprimoramento dos critérios operacionais, armazenamento de energia, maior flexibilidade do sistema e mecanismos de resposta da demanda
Também será necessário criar condições para consumir energia justamente nos momentos em que ela está mais disponível. Data centers, hidrogênio de baixo carbono e eletrificação industrial, dentre outras atividades intensivas em energia, podem criar cargas e aproximar oferta e demanda. Quando planejadas de maneira adequada, essas atividades podem aproveitar a disponibilidade de energia renovável e contribuir para reduzir os gargalos que levam aos cortes.
O debate, portanto, não deve ser apenas sobre como evitar o desperdício de energia, mas sim focar em como transformar a abundância de recursos renováveis em investimento, industrialização e crescimento econômico.
As projeções para 2026 reforçam a dimensão do desafio. A Aurora Energy Research estima que, em um cenário de forte influência do El Niño, o curtailment poderia alcançar 25% da geração renovável, com cortes de até 40% para a geração solar fotovoltaica e 21% para a geração eólica. O custo total poderia superar R$ 8 bilhões. Embora os dados sejam estimativas, podem ajudar a dimensionar a necessidade de um sistema mais flexível.
O caminho não é frear a expansão das fontes renováveis, mas fazer com que a infraestrutura acompanhe essa expansão, o que exige coordenação entre as políticas energética, industrial e de infraestrutura, com planejamento sobre onde estão os recursos, onde existe capacidade de transmissão e onde novas cargas podem ser instaladas.
O Brasil possui recursos naturais abundantes e uma matriz elétrica com elevada participação de fontes renováveis, além de uma cadeia produtiva capaz de ampliar essa capacidade. A virada de chave é transformar essa vantagem em valor econômico.
A Portaria nº 140 mostra que é possível avançar na construção de soluções quando governo e setor privado trabalham a partir de regras definidas, mas a compensação do passado não pode substituir a construção de uma solução para o futuro.
O Brasil não precisa prometer que nunca mais haverá curtailment, mas sim garantir que, quando ele ocorrer, haja regras claras para classificá-lo e administrá-lo de maneira transparente, eficiente e previsível.
O País já construiu, em grande medida, a capacidade de produzir a energia limpa necessária para uma economia de baixo carbono. O próximo passo é construir o sistema capaz de transportar, armazenar e consumir essa energia quando ela for necessária.
* Por Elbia Gannoum, presidente executiva da Associação Brasileira de Energia Eólica e Novas Tecnologias (Abeeólica)
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