Análise: Tensões entre Trump e Zelensky ameaçam apoio dos EUA à Ucrânia
Internacional

Análise: Tensões entre Trump e Zelensky ameaçam apoio dos EUA à Ucrânia

  • 20/10/2026 05:08
  • Redação

A relação entre a Ucrânia e os Estados Unidos enfrenta tensões crescentes em torno do compartilhamento de inteligência, das sanções, dos ataques ucranianos à infraestrutura energética russa e do caminho para a paz.

Também parece haver uma desconfiança mútua cada vez maior entre o presidente dos EUA, Donald Trump, e o líder ucraniano Volodymyr Zelensky.

Trump acusou Zelensky na segunda-feira (19) de não saber do que estava falando e sugeriu que era “hora de outra pessoa negociar em nome da Ucrânia”.

No fim de semana, Kiev lançou um dos maiores ataques de drones do ano contra a Rússia, atingindo um terminal de petróleo estratégico, em desafio à exigência de Trump de que a Ucrânia parasse de atacar refinarias russas.

A Casa Branca tenta aliviar a pressão sobre os preços do petróleo e do diesel nos EUA antes das cruciais Eleições de Meio de Mandato, já que os preços do diesel estão em um recorde histórico.

Na semana passada, Trump chamou os ataques de Kiev a refinarias de petróleo russas de “vergonha” e disse que Zelensky era mais difícil de lidar do que o líder russo Vladimir Putin.

Em uma entrevista no domingo, Zelensky revidou, dizendo que era “melhor ter parceiros muito abertos e claros do que ter aqueles que são assassinos, mesmo com um sorriso no rosto”, em uma aparente referência à relação de Trump com a Rússia.

Trump voltou a criticar Zelensky no domingo (18), afirmando em uma publicação no Truth Social que ele “não quer encerrar esta guerra, e provavelmente nunca quis”.

A relação parece estar agora no seu ponto mais baixo desde o encontro explosivo na Casa Branca há 18 meses.

Zelensky afirmou consistentemente que está aberto a negociações de paz, desde que a segurança da Ucrânia possa ser garantida.

O presidente ucraniano disse ter conversado com o enviado dos EUA, Steve Witkoff, e com o genro de Trump, Jared Kushner, no domingo, como parte de uma “comunicação ininterrupta” para trabalhar em prol do objetivo da paz. Zelensky acrescentou mais tarde que esperava se reunir com os dois “talvez na Noruega nos próximos dias”. A CNN entrou em contato com a Casa Branca para obter comentários sobre o encontro.

“Estamos fazendo tudo da nossa parte para que isso aconteça e para garantir que a posição da América seja forte e ajude a aproximar a paz”, publicou Zelensky no X.

“A Ucrânia nunca quis esta guerra, e recebemos literalmente TODAS as tentativas de nossos parceiros de encerrar esta guerra com dignidade”, acrescentou Zelensky na segunda-feira.

Zelensky também conversou com o papa Leão XIV na segunda-feira, de acordo com o Vaticano.

O papa falou com o presidente ucraniano poucos dias após uma ligação telefônica com Putin, na qual expressou sua preocupação com a “grave situação humanitária” na cidade ucraniana de Oleshky, ocupada pela Rússia, onde as autoridades ucranianas afirmam que cerca de 2.000 civis estão presos sem acesso a alimentos ou medicamentos básicos.

Trump defendeu recentes concessões à Rússia em matéria de sanções, que incluíram uma isenção para permitir exportações russas de diesel e outra que isenta a Rússia de amplas penalidades econômicas determinadas pelo Congresso dos EUA.

“Estou em processo de negociação da Paz na guerra entre a Rússia e a Ucrânia, e não quero fazer nada que afaste, de forma imprudente, a Rússia da mesa de negociações”, escreveu Trump em sua publicação de domingo.

Presidente dos EUA, Donald Trump • REUTERS

Em uma entrevista no domingo ao programa “Meet the Press”, da NBC, Zelensky disse que as isenções fortaleceram a guerra de Putin contra a Ucrânia enquanto Moscou fracassava no campo de batalha.

Cresce a ansiedade em Kiev e na Europa de que o governo Trump faça novas concessões a Moscou em um esforço para que Putin concorde com um acordo de paz.

Zelensky disse ao “Meet the Press” que os EUA se aliarem à Rússia seria um “erro histórico”. Ele afirmou querer confiar em Trump e esperava que ele mudasse sua atitude em relação a Putin.

Questionado se Trump era um aliado da Ucrânia, Zelensky respondeu: “Espero que sim.”

Na segunda-feira, Zelensky apelou diretamente ao Congresso dos EUA, realizando uma reunião online com um grupo de parlamentares dos dois partidos. Ele descreveu a situação atual como “a situação mais difícil desde o início desta guerra” e disse que parece como se “alguma decisão política tivesse sido tomada para desacelerar o apoio a nós”.

A Ucrânia também está perturbada com relatos de uma possível reunião tripartite envolvendo os EUA e a China no próximo mês para resolver o conflito — sem a participação ucraniana.

“Acho que houve conversas sobre uma reunião. Não sei se algo foi finalizado”, disse o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, durante uma visita ao Uzbequistão na segunda-feira.

Trump afirmou na segunda-feira que consideraria uma reunião trilateral com Putin e o líder chinês Xi Jinping — mas disse que o encontro se concentraria na desnuclearização, e não na guerra da Rússia com a Ucrânia.

Mas a Ucrânia criticou a ideia, argumentando que tal reunião não ajudaria a paz, mas “faria apenas o oposto: encorajar Putin a continuar esta guerra”, disse o ministro das Relações Exteriores ucraniano Andriy Sybiha na segunda-feira.

“Convidar Putin para tal reunião alimentaria seu apetite por autopromoção e lhe daria um status que ele não merece”, escreveu Sybiha no X.

O Kremlin afirmou na segunda-feira que “nenhuma proposta ou acordo concreto — nem sobre a reunião em si, nem sobre sua possível agenda e conteúdo — foi discutido ou apresentado por ninguém”.

Os ataques persistem

Imagens feitas por testemunhas mostram fogo e fumaça subindo na direção de um terminal de petróleo em São Petersburgo, após relatos de ataques com drones ucranianos • Reprodução/Redes Sociais via Reuters

Desafiando as exigências de Trump, a Ucrânia mantém ataques de longo alcance contra a Rússia. Um dos alvos no fim de semana foi o Terminal Petrolífero de São Petersburgo. O terminal tem capacidade para processar até 12,5 milhões de toneladas por ano. A empresa ucraniana Fire Point, que fabrica os drones utilizados no ataque, afirmou que houve um incêndio nas instalações do terminal após o ataque.

Um centro logístico em São Petersburgo também foi atacado, de acordo com a Ozon, uma empresa russa de distribuição, assim como um data center da plataforma de mídia social russa VKontakte.

Uma pessoa morreu e cinco ficaram feridas nos ataques, com residências também danificadas, segundo as autoridades locais.

Uma semana atrás, Trump disse que a Rússia e a Ucrânia haviam concordado em parar de atacar a infraestrutura energética uma da outra.

Nem Kiev nem Moscou reconheceram tal acordo. A Ucrânia interrompeu brevemente esses ataques, mas a Rússia nunca parou de bombardear as usinas de energia e as cidades ucranianas.

“Desde que o presidente americano anunciou o cessar-fogo energético há uma semana, a Rússia atacou deliberadamente os setores de energia, petróleo e gás da Ucrânia 76 vezes”, escreveu Zelensky no X no domingo.

Na segunda-feira, Zelensky afirmou que um ataque de drone russo na região de Kharkiv matou seis pessoas, incluindo três crianças. Compartilhando uma fotografia desfocada de uma das vítimas — uma criança pequena em um carrinho de bebê —, Zelensky disse que a imagem horrível mostrava “a verdade sobre esta guerra”.

“Vidas precisam ser protegidas. A Ucrânia precisa de defesa aérea. Não dá para pensar em ganhar dinheiro com a Rússia enquanto ela continua sua guerra idiota”, disse ele no X.

Acusações também surgiram em torno dos cortes na inteligência de satélite dos EUA fornecida às forças militares ucranianas.

Zelensky repetiu no domingo que mudanças no sistema Starlink, de propriedade do bilionário Elon Musk, estavam limitando a velocidade de seus drones de curto alcance e de campo de batalha, descrevendo isso como uma “mensagem do governo americano”.

Musk afirmou na semana passada que os sistemas são de propriedade e controlados pelo governo dos EUA, o que significa que somente o governo poderia decidir impor limites à sua velocidade ou uso.

O governo Trump negou ter ordenado a restrição do serviço. Na segunda-feira, Trump disse que não sabia quem havia feito a restrição, mas que gostaria de “descobrir”.

Da mesma forma, o governo Trump rebateu as acusações de Kiev de que informações de inteligência sobre mísseis balísticos em aproximação não estavam sendo compartilhadas.

Zelensky afirmou na segunda-feira que Kiev não recebeu nenhum aviso prévio sobre ataques de mísseis balísticos na noite de domingo — algo que ele alega ter ocorrido várias vezes na última semana.

“Outro ataque russo com mísseis balísticos chegou em várias ondas durante a madrugada e, mais uma vez, não houve alerta antecipado de nossos parceiros.”

As redes de satélites dos EUA são fundamentais para fornecer ao Exército ucraniano alertas sobre mísseis em aproximação. Os ataques russos com mísseis balísticos têm como objetivo paralisar a vida civil e destruir infraestruturas essenciais.

“Não sei de onde ele está tirando essas informações nem por que está dizendo essas coisas à imprensa”, disse Rubio a repórteres na segunda-feira. “Voltem e perguntem a ele. Não houve nenhuma pausa.”

“No que ele deveria se concentrar, e no que queremos nos concentrar, é em pôr fim a esta guerra. É nisso que ele deveria se concentrar”, disse Rubio sobre Zelensky.

Kiev e Washington enxergam caminhos muito diferentes para alcançar esse objetivo.

 

  • Fonte: CNN Brasil
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