Irã se prepara para novas escaladas: “Mundo vai ficar impressionado”
Internacional

Irã se prepara para novas escaladas: “Mundo vai ficar impressionado”

  • 19/10/2026 17:10
  • Redação

O Irã sinalizou que está se preparando para uma nova rodada de conflito com os Estados Unidos e emitiu ameaças públicas contra Washington e seus aliados, em uma tentativa aparente de dissuadir o presidente americano, Donald Trump, de retomar o conflito atual.

No último mês, comandantes militares iranianos intensificaram uma série de declarações públicas, afirmando que o Irã acumulou grandes estoques de novas armas, prontas para serem lançadas contra alvos fora da região, caso os EUA retomem as hostilidades iniciadas em fevereiro.

Autoridades iranianas ameaçaram ampliar o escopo de seus alvos caso o conflito seja retomado, mencionando opções que incluem o corte de cabos submarinos de internet, ataques a centros de dados de inteligência artificial e investidas contra instalações de petróleo e gás na região.

“O mundo ficará impressionado”, disse Hossein Mohebbi, porta-voz da Guarda Revolucionária do Irã, no final do mês passado.

“Temos novos alvos que ainda não foram atacados”, acrescentou.

Quase nove meses após os EUA e Israel iniciarem sua guerra contra o Irã, o conflito estagnou em um impasse, deixando incertezas sobre qual seria o objetivo final de Trump, enquanto o mundo enfrenta instabilidade econômica. Ambos os lados reivindicaram vitória — Teerã aponta para sua própria sobrevivência, enquanto Washington destaca os danos causados ​​ao regime iraniano.

Paralelamente, a administração Trump continua testando novas medidas econômicas e militares para forçar a capitulação do Irã — algo a que Teerã tem resistido obstinadamente.

“A guerra não acabou”, afirmou Mohebbi.

“O Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica preparou-se para um conflito de longa duração”, disse.

Preparando-se para a guerra

Enquanto os comandantes iranianos demonstram força e prontidão, a população iraniana — há muito sobrecarregada pelo conflito e pela incerteza econômica — prepara-se, mais uma vez, para enfrentar a realidade da guerra no terreno.

“Todos os dias e todas as noites, ficamos à espera de que os bombardeios recomecem”, relatou à CNN, na semana passada, um morador de Teerã de 70 anos.

“Carreguei todas as minhas baterias portáteis, fiz um estoque de água e deixei tudo pronto, porque os ataques podem recomeçar a qualquer momento, em qualquer dia”, acrescentou,

Uma mãe de dois filhos descreveu à CNN o medo com o qual vive ao enviar seus filhos para a escola todas as manhãs, passando por ruas onde a Guarda Revolucionária está presente e bases militares permanecem ativas.

“Eu gostaria de saber exatamente o que mais os EUA planejam bombardear?”, disse ela.

“Eles nem sequer conseguiram eliminar (a liderança iraniana). Também não foi possível negociar. Então, qual é o sentido de começar mais uma guerra?”, afirmou.

Os iranianos estão “convencidos” de que a guerra vai recomeçar, disse à CNN outro morador de Teerã.

“É só disso que todo mundo fala… você fica o tempo todo com aquele pensamento na cabeça: será que é hoje à noite? Será amanhã? Acho que o fato de se falar tanto sobre isso torna tudo ainda pior; a gente não consegue nem ter um momento de trégua”, relatou o morador à CNN.

Os iranianos falaram com a CNN sob a condição de anonimato, para que pudessem expressar livremente seus receios quanto à possibilidade de uma nova guerra.

Alvos na Europa

Nas últimas semanas, assessores da Casa Branca realizaram reuniões para discutir diversas opções em relação ao Irã. Embora Trump tenha anunciado publicamente que não tomaria novas medidas antes das eleições de Meio de Mandato, vários assessores disseram à CNN, em caráter privado, que não sabiam se essa declaração era definitiva ou se poderia mudar antes do dia da eleição, em 3 de novembro.

Os militares dos EUA desenvolveram novos planos de ataque que incluem o uso potencial da chamada “mãe de todas as bombas” para atingir a infraestrutura energética e instalações nucleares iranianas, caso Trump ordene a retomada das operações de combate antes ou depois das eleições de meio de mandato, de acordo com vários oficiais americanos familiarizados com o assunto.

A GBU-43/B Massive Ordnance Air Blast Bomb, ou MOAB, é a maior bomba não nuclear do arsenal dos EUA e representaria uma escalada significativa.

“Essas são ferramentas de propaganda destinadas a intimidar o povo iraniano”, disse Alireza Sheikh, comandante do exército iraniano, no sábado (17).

“O povo iraniano é o pai de todas as bombas”, acrescentou,

O Irã sinalizou uma nova doutrina militar mais ofensiva, sugerindo que não esperará ser atacado e poderá até mesmo lançar ataques preventivos. Na semana passada, contas de mídia social da Guarda Revolucionária relataram que o Irã realizou exercícios militares em todo o país, incluindo o lançamento de 30 mísseis balísticos de uma só vez.

Farzin Nadimi, pesquisador sênior do think tank The Washington Institute, especializado em política externa dos EUA na região, afirmou que, se um Teerã fortalecido decidisse testar seus novos mísseis de longo alcance contra a Europa em um ataque, os alvos poderiam incluir forças americanas baseadas em bases aéreas na Inglaterra ou o centro logístico em Ramstein, na Alemanha, a maior instalação militar americana fora dos EUA.

“No entanto, o Irã provavelmente reservaria essa possibilidade para um nível muito alto de escalada”, disse Nadimi.

Os EUA transferiram todos os seus bombardeiros de longo alcance estacionados no Reino Unido de volta para suas bases americanas no início deste mês, após uma nova ameaça não especificada, disseram autoridades.

Dias antes da medida, o governo britânico prendeu vários indivíduos em conexão com um suposto plano iraniano para atacar a base aérea do Reino Unido onde os bombardeiros americanos estavam estacionados.

Para aumentar suas chances de atingir alvos, Nadimi afirmou que o Irã pode lançar enxames mais sofisticados e coordenados de drones com inteligência artificial, equipados com câmeras e links de dados que podem se comunicar entre si, ajustar trajetórias de voo e velocidade para evitar interferências e defesas aéreas.

“Eles ainda não demonstraram essas capacidades, mas discutiram o desenvolvimento dessas tecnologias no passado”, disse Nadimi.

O Irã também pode buscar aprimorar suas capacidades de mísseis de cruzeiro, incluindo propulsão supersônica para melhor evitar interceptação, e tentar interferir em satélites militares de comunicação e vigilância, acrescentou.

Região em preparação

Comandantes iranianos estão se preparando para o que consideram uma inevitável retomada das hostilidades, enquanto também tentam dissuadir Washington, destacando os custos de um ataque, disse Ali Vaez, vice-diretor de programas para o Oriente Médio e Norte da África do International Crisis Group, à CNN.

“Teerã quer deixar claro que a próxima rodada será travada em um campo de batalha muito mais amplo, com menos restrições e consequências potencialmente mais letais”, disse Váz.

“Mas o perigo é que o que o Irã pretende como dissuasão possa ser interpretado em Washington como provocação, tornando a própria guerra que Teerã espera evitar mais provável”, afirmou.

Quando os EUA e Israel lançaram a guerra contra o Irã em fevereiro, mataram o Líder Supremo da República Islâmica, Ali Khamenei, juntamente com comandantes militares iranianos, altos funcionários e civis, incluindo crianças em idade escolar. A retaliação do Irã concentrou-se principalmente em seus vizinhos árabes, que acusa de conluio com Washington.

O Irã bloqueou efetivamente o Estreito de Ormuz, a única via marítima usada pelas nações vizinhas para exportar petróleo, antes de atacar infraestruturas civis em cidades árabes.

Dubai, um importante destino turístico, foi alvo de ataques, estações de tratamento de água no Kuwait foram atingidas e ataques a centros de dados interromperam os serviços bancários em vários países da região.

O Irã disparou mais de 2.500 mísseis e drones contra os Emirados Árabes Unidos, mais do que contra qualquer outro país, incluindo Israel. Abu Dhabi interceptou quase todos os projéteis, segundo dados do Ministério da Defesa dos Emirados Árabes Unidos.

Na semana passada, o chefe do Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irã, Mohsen Rezaei, alertou que o Irã atacará alvos americanos na região, inclusive nos Emirados Árabes Unidos, em retaliação a quaisquer novos ataques.

“Se outra guerra eclodir, inúmeros cabos submarinos, centros de dados, instalações de inteligência artificial e outras infraestruturas em toda a região poderão ser destruídos”, disse Rezaei.

Um alto funcionário dos Emirados Árabes Unidos disse a jornalistas na quinta-feira que seu país está mais bem preparado caso os combates sejam retomados.

“Não queremos guerra”, afirmou Ali Al-Nuaimi, presidente do Comitê de Defesa, Assuntos Internos e Relações Exteriores do Conselho Nacional Federal dos Emirados Árabes Unidos.

“Mas, se uma guerra começar hoje, estamos preparados para lidar com qualquer ameaça que surja — de uma forma ainda melhor do que estávamos no dia 28 de fevereiro”, acrescentou Al-Nuaimi.

“Faremos tudo o que for necessário para proteger nossa segurança nacional, nossa soberania e nosso povo”, concluiu.

  • Fonte: CNN Brasil
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