Eleições de Israel: Como a guerra em Gaza pode impactar na votação?
- 17/10/2026 06:00
- Redação
Israel realizará, em 27 de outubro, a primeira eleição para o Knesset, o Parlamento, desde o ataque do Hamas de 2023. A ofensiva matou mais de 1.200 israelenses, terminou com centenas de sequestrados e desencadeou uma guerra que devastou a Faixa de Gaza.
Desde então, o Oriente Médio mergulhou em uma cadeia de conflitos que duram anos, que também englobaram o Líbano e o Irã, afetando diretamente a população nesses países e redimensionando o apoio a Israel na comunidade internacional.
Até agora, não há acordos definitivos para encerrar essas guerras, incluindo a batalha contra o Hamas, grupo radical palestino que domina Gaza.
Israel exige que o Hamas se desarme, enquanto o grupo pede que as tropas israelenses deixem o território palestino. Atualmente, os militares controlam cerca de 60% de Gaza.
Com isso, os conflitos são parte central na campanha eleitoral e na avaliação dos eleitores sobre a atuação do trabalho do atual governo e do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu.
O ataque do Hamas foi um dos principais acontecimentos relacionados à segurança de Israel no século XXI e deixou marcas profundas na população.
Apesar de a retaliação israelense ter tido apoio amplo em meio aos cidadãos, também houve muitas críticas contra as autoridades, especialmente Benjamin Netanyahu.
Milhares de pessoas chegaram a protestar pelas ruas do país pedindo que o governo chegasse a um acordo com o Hamas para a libertação dos reféns que ainda estavam em cativeiro.
Além disso, parte da população critica os governantes de Israel por falharem na prevenção do ataque do grupo palestino e exige a criação de um comitê de investigação independente para apurar as responsabilidades.
Integrantes do Hamas invadem kibbutz de Be’Eri, em Israel • South First RespondersNotícias recentes também pressionam cada vez mais Netanyahu. Uma reportagem do início de setembro afirmou que o presidente dos Emirados Árabes Unidos o havia alertado sobre uma grande operação do Hamas.
O premiê e seus aliados culpam os chefes de segurança por não o terem acordado na noite anterior ao ataque, rejeitando a alegação de que foram avisados com antecedência.
Samuel Feldberg, doutor em Ciências Políticas pela USP e pesquisador da Universidade de Tel Aviv, avalia que a votação de 27 de outubro é praticamente um plebiscito sobre a aprovação ou reprovação do atual governo.
“Sem dúvida nenhuma, um dos elementos dessa campanha tem a ver com a percepção da responsabilidade que o Netanyahu assume ou não assume em relação aos eventos do 7 de outubro [de 2023]”, destaca.
Palestina caminha ao lado de prédios residenciais destruídos na Cidade de Gaza • 14 de dezembro de 2025 REUTERS/Dawoud Abu AlkasO especialista ressalta que a oposição tenta mostrar que o premiê seria responsável pelo fracasso de inteligência que não previu a ofensiva mortal.
“[Já] a situação está alegando que o Netanyahu tinha tanta informação quanto os elementos do serviço de inteligência e que, se ele não teve uma atitude diferente, foi porque a informação recebida ou a análise da informação recebida não foi suficiente para que ele tomasse uma decisão diferente”, explica.
Ao mesmo tempo, a situação atual em Gaza e a inexistência de um pacto para o fim definitivo da guerra também são pontos importantes da campanha eleitoral e da avaliação sobre o fracasso ou não das ações israelenses.
João Miragaya, assessor do Instituto Brasil-Israel e mestre em História pela Universidade de Tel Aviv, pontua que a oposição critica a administração federal afirmando que Netanyahu não cumpriu a promessa de destruir o Hamas e que o grupo palestino continua no poder em Gaza.
“O governo se defende dizendo que eles têm hoje em dia o Exército garantindo a segurança dos israelenses, porque ocupa 60% da Faixa de Gaza, e que vai continuar assim, enquanto estiverem no poder”, comenta.
De toda forma, o especialista avalia que o conflito afeta as eleições, mas, sem novos acontecimentos de extrema relevância, não altera mais o panorama eleitoral.
“Não houve grandes acontecimentos que tivessem mudado o equilíbrio de forças entre a oposição e a coalizão atuais desde o ano passado”, pondera.
Mas a guerra da Faixa de Gaza também impacta diretamente os próprios candidatos, visto que alguns deles estão ligados à ala militar do país ou perderam familiares no conflito.
Esse é o caso de Gadi Eisenkot, principal rival de Netanyahu neste pleito. Ele perdeu o filho, Gal Eisenkot, de 25 anos, e dois sobrinhos, o sargento Maor Cohen Eisenkot e o capitão Yogev Pazy, durante os combates.
Gadi Eisenkot abraça familiares e amigos durante o funeral do Primeiro-Sargento-Major Gal Meir Eisenkot, no cemitério de Herzliya, em 8 de dezembro de 2023, em Herzliya, Israel • Foto de Alexi J. Rosenfeld/Getty ImagesMonique Sochaczewski, professora de Relações Internacionais do IDP e doutora em História, Política e Bens Culturais, analisa que o panorama político de Israel está voltado à direita atualmente, sendo Eisenkot um dos postulantes deste campo.
“E eu acho que uma alternativa ao Netanyahu não seria, por exemplo, alguém da esquerda, embora a esquerda esteja tentando se reconstruir”, adiciona.
Por fim, Samuel Feldberg destaca que também há uma disputa pelo controle da narrativa sobre o que autoridades classificam como sucesso nas operações militares.
Segundo o especialista, o governo afirma que, além de enfraquecer o Hamas e manter presença constante em Gaza, conseguiu um bom resultado contendo os ataques do Irã e reagindo às ofensivas que vieram do Líbano.
A oposição, por sua vez, alega que isso foi fruto de um trabalho que foi feito por um escalão profissional “que não obrigatoriamente reflete o que esse governo fez ou não fez”, pontua Feldberg.
De toda forma, os analistas ponderam que a eleição não deve alterar os rumos das negociações na região nem gerar esperanças pela criação de um Estado palestino e a resolução definitiva do conflito.
“As eleições não vão trazer negociações para a criação de um Estado palestino, porque as forças políticas hoje em Israel, que vão ser eleitas para o Parlamento, a maioria desses grupos não apoia essa ideia, porque a maioria da população israelense hoje está distante de apoiar essa ideia”, ressalta João Miragaya.
“Desde o 7 de outubro, a pequena maioria que era favorável aos dois Estados passou a ser uma minoria de um quarto a um terço da população”, adiciona.
Ainda assim, o especialista comenta que a votação pode proporcionar a possibilidade de uma releitura sobre a posição de Israel com relação à Faixa de Gaza e implementar de “maneira mais intensa, mais incisiva” o acordo com os Estados Unidos.
“Uma solução de fato para a questão palestina, passando por Gaza e passando, em particular, pela Cisjordânia, me parece essencial para que haja paz, mas não me parece que seja um item importante do panorama eleitoral agora”, avalia a professora Monique Sochaczewski.