O livro que ninguém consegue ler: manuscrito medieval desafia até a inteligência artificial
- 16/10/2026 19:20
- Redação
Ler um livro escrito em outra língua é uma tarefa que, atualmente, pode ser realizada com o auxílio de tradutores online e do conhecimento compartilhado por outras pessoas. No entanto, um manuscrito produzido entre os séculos XV e XVI, redigido em uma língua desconhecida e de autoria incerta, representa um desafio que ainda intriga estudiosos até os dias de hoje.
Desgastado, amarelado e em estado frágil, o chamado Manuscrito Voynich encontra-se atualmente guardado no porão da Biblioteca de Livros Raros e Manuscritos Beinecke da Universidade de Yale. Desde que veio à tona há mais de 100 anos, muitos tentaram, sem sucesso, decifrar o texto – desde criptógrafos do Exército dos EUA até cidadãos comuns que formulam teorias online.
Seu autor e título original são desconhecidos, e o livro recebeu o nome do colecionador e livreiro Wilfrid Voynich, que o adquiriu em 1912. Alguns acreditam que o documento possa ter sido escrito por Leonardo da Vinci ou talvez até por um monge, enquanto outros acham que pode ser simplesmente uma brincadeira elaborada.
Lisa Fagin Davis, diretora executiva da Academia Medieval da América e estudiosa de longa data do Manuscrito Voynich, afirma que o primeiro registro foi feito após o Sacro Imperador Romano Rodolfo II comprá-lo no final do século XVI. Segundo as pesquisas, Rodolfo acreditava que o documento havia sido escrito pelo filósofo e alquimista britânico do século XIII, Roger Bacon.
O manuscrito então viajou pela Europa, desaparecendo por 250 anos, antes de finalmente ser adquirido por Voynich. Embora o livreiro nunca tenha revelado onde o obteve, Davis afirma que sua esposa revelou, após a morte, que ele o havia comprado de jesuítas nos arredores de Roma.
Em 2011, testes com carbono revelaram que o pergaminho data do início do século XV, entre os anos de 1404 e 1438. A análise da tinta confirmou que era compatível com a utilizada nesse período.
Essa datação descarta alguns dos nomes considerados para autores do manuscrito, como Bacon, Da Vinci e o próprio Voynich. Mas, além desses fatos, o manuscrito levanta mais perguntas do que respostas.
Embora a mídia relate regularmente que alguém finalmente decifrou o código, nenhuma dessas alegações resistiu a uma análise rigorosa até o momento.
Uma teoria recente que desencadeou um ciclo inteiro de notícias foi a afirmação de um professor e um aluno de pós-graduação da Universidade de Alberta, no Canadá, de que a inteligência artificial finalmente havia decifrado o código.
Greg Kondrak e Bradley Hauer pegaram a Declaração Universal dos Direitos Humanos das Nações Unidas e a traduziram para 380 idiomas. Usando uma série de procedimentos e algoritmos estatísticos complexos, eles conseguiram que um computador identificasse o idioma correto em até 97% dos casos.
Eles alegaram que o texto foi originalmente escrito em hebraico, e que, segundo algorítimos de computador, a primeira frase completa era “Ela fez recomendações ao padre, ao chefe da casa, a mim e a outras pessoas.”
Mas Davis e outros contestaram a ideia de uma tradução precisa.
Davis afirmou que, em última análise, para que uma teoria se sustente, ela deve ser avaliada, ser replicável por outros estudiosos e resultar em algo que faça sentido.
Ahmet Ardic – engenheiro eletricista de profissão, cuja paixão de longa data tem sido pesquisar línguas turcas, linguística e raízes etimológicas – encontrou por acaso uma cópia do manuscrito Voynich online há quatro anos.
Como muitos outros, ele ficou intrigado e começou a trabalhar nisso sozinho durante um ano. Depois, pediu ajuda aos seus dois filhos.
A família Ardic publicou um vídeo no YouTube explicando sua teoria. Eles afirmam ter certeza de que o manuscrito está escrito em um tipo de dialeto turco antigo ou em uma combinação de dialetos – em sua maioria escrito em ortografia fonêmica, ou seja, a linguagem escrita como é falada.
Um dos filhos disse que sua família já decifrou pelo menos 300 palavras e está confiante de que agora possui vocabulário suficiente para ler pelo menos 30% do manuscrito.
Dizem que o manuscrito contém receitas, detalhes de pomadas e até mesmo informações sobre aborto, como realizar uma cesariana corretamente e desmistificando concepções errôneas comuns da época, como a de que comer mais ajudaria a ter um filho homem.
Davis afirma que as alegações deles se sustentam muito bem até o momento, embora ela esteja ansiosa para ouvir a opinião de um especialista em línguas turcas antigas que possa avaliar o trabalho da família.
*com informações da CNN Internacional.