Sem dinheiro para guardar 17 mil lápis, idosa usou garrafas do lixo para erguer vila com 15 prédios
- 16/10/2026 11:20
- Redação
Uma artista pouco convencional com uma história de vida conturbada criou, de garrafa em garrafa, um dos maiores monumentos da arte bruta nos Estados Unidos. Tressa Prisbey, conhecida como “Grandma” ou vovó Prisbey, construiu uma vila inteira com materiais reciclados, substituindo blocos de cimento e tijolos por recipientes de vidro e decorando com objetos que encontrava no lixo.
O projeto inteiro começou com uma preocupação também incomum: encontrar uma forma barata de construir um barraco para abrigar sua coleção de 17 mil lápis.
Aos 60 anos, Tressa estava morando em um trailer no Simi Valley, Califórnia, com seu terceiro marido. Ela precisava de uma maneira de armazenar seus objetos colecionados para liberar espaço no veícuelo. Começou a buscar blocos de cimento – muito usados no lugar de tijolos em casas nos Estados Unidos – mas surpreendeu-se com o valor do material muito além de seu orçamento.
Prisbey foi até um aterro próximo e começou a coletar garrafas de vidro. A cada camada de argamassa, ela posicionava uma fileira de garrafas, preenchia os espaços com mais armagassa e erguia aos poucos uma estrutura de visual quase alienígena. As paredes resultantes tinham uma face lisa, com os fundos das garrafas brilhando ao receberem a luz do sol, e uma face “espinhosa”, onde ficavam as bocas.
Começou em 1956 como um depósito para sua coleção de lápis comemorativos. Mas ao longo dos anos, ela acabou erguendo 15 prédios-esculturas, adornados com mosaicos, plantas, pinhas e outras obras criadas com o que Tressa encontrava no lixo. Em 1961, ela decidiu escrever sobre o projeto e divulgá-lo como “Vila de Garrafas da Vovó Prisbey” (Grandma Prisbey’s Bottle Village).
No início dos anos 1970, a vila passou a receber visitantes diariamente. Turistas de todo o país em visita à Califórnia avistavam as casinhas e santuários de longe, e Tressa cobrava alguns centavos para guiá-los em um tour pelo espaço.
Na época, ela já havia decorado o chão com cacos cerâmicos e placas de carro; montado um jardim com planteiros de argamassa e faróis automotivos, e criado uma casa de bonecas com brinquedos resgatados do lixo, desmontados e reorganizados para criar esculturas.
A americana casou-se aos 15 e teve sete filhos com o primeiro marido, num casamento que durou apenas 14 anos. Ao longo da vida, seis dos seus descendentes viriam a morrer por doenças ou acidentes; na velhice, as esculturas passaram a ajudá-la a honrar os falecidos e lidar com as perdas.
Uma das estruturas da vila, chamada de Casa das Conchas, foi erguida em apenas dois dias após a descoberta de uma grave doença que atingiu um de seus filhos. Um santuário em formato de coração homenageou outra das crianças perdidas, Velma.
Em 1981, a Vila das Garrafas foi tombada como patrimônio histórico do estado da Califórnia; um ano depois, já com a saúde comprometida, Tressa deixou a residência para morar com a única filha sobrevivente. A artista faleceu após um derrame em um hospital em São Francisco, em outubro de 1988.
Anos após a morte de Tressa Prisbey, um terremoto atingiu o Simi Valley e destruiu parte das estruturas da vila. O local já estava sob cuidados de uma organização sem fins lucrativos, a Preserve Bottle Village, quando campanhas começaram a arrecadar fundos para reparar os danos e restaurar as construções ao seu estado original.
Hoje, o espaço está vinculado ao programa de conservação de casas e estudos de grandes artistas dos Estados Unidos, afiliado ao National Trust for Historic Preservation. É possível agendar visitas de uma hora à vila pelo valor de US$ 20 (cerca de R$ 101) por pessoa, ou optar por uma experiência “VIP” de US$ 30 (que inclui limonada, cookies feitos com a receita de Tressa, e um presente de recordação.
No site oficial da vila, é possível ver fotos das condições atuais, o endereço e mais detalhes sobre a visitação.