Transparência não é alarmismo: comunicar o nuclear exige clareza e rigor
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Transparência não é alarmismo: comunicar o nuclear exige clareza e rigor

  • 16/10/2026 07:00
  • Redação

Em situações de ocorrência, informar com simplicidade é essencial. Mas linguagem acessível não pode ser confundida com omissão, imprecisão técnica ou tentativa de controlar a informação.

Poucos setores dependem tanto da confiança pública quanto o nuclear. E essa confiança é testada justamente quando algo sai da rotina e a sociedade quer saber o que aconteceu, quais são os riscos, o que está sendo feito e quem acompanha a situação.

Não por acaso, a transparência é princípio recorrente nas orientações da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) para a comunicação nuclear. Em situações de emergência nuclear ou radiológica, a Agência recomenda informações tempestivas, verdadeiras, claras e apropriadas ao público, além de coordenação entre as instituições envolvidas.

Há outro ponto igualmente importante: comunicar uma ocorrência exige situá-la em sua real dimensão. Isso implica informar com clareza o que aconteceu, o que já se sabe, o que ainda está sendo apurado e quais medidas estão em curso, sem minimizar os fatos nem lhes atribuir uma gravidade que as evidências não sustentam.

A comunicação de risco deve oferecer ao público elementos para compreender a situação. A experiência internacional mostra que a comunicação de risco deve oferecer ao público elementos suficientes para compreender a situação e avaliá-la com clareza. A credibilidade institucional também se constrói a partir desse equilíbrio entre transparência, precisão e proporcionalidade.

É nesse ponto que surge um equilíbrio nem sempre simples: como comunicar de maneira acessível sem perder precisão? A resposta não está em escolher palavras menos incômodas. Está em comunicar melhor.

Linguagem simples não significa linguagem imprecisa. Muito menos substituir uma descrição tecnicamente correta por outra mais familiar, mas que altere a compreensão do objeto, do material ou da situação. O desafio do comunicador é reformular o conteúdo técnico, não suprimi-lo.

Se determinado termo pode gerar dúvida, cabe explicá-lo ou contextualizá-lo. Simplificar é tornar compreensível o que é complexo; não tornar conveniente o que é desconfortável.

Tenho acompanhado, em diferentes fóruns técnicos da AIEA dedicados à comunicação em segurança nuclear, discussões que vão de ocorrências operacionais a cenários de emergência nuclear e radiológica. A orientação recorrente é clara: comunicar com precisão, transparência, tempestividade e linguagem adequada ao público.

Isso ajuda a distinguir tecnicismo de rigor técnico.

Tecnicismo é escrever para especialistas quando o destinatário é a sociedade. Rigor técnico é não dizer algo diferente do que de fato existe apenas para tornar a mensagem aparentemente mais simples. É perfeitamente possível e necessário explicar conceitos complexos em linguagem clara sem descaracterizá-los.

Há ainda um risco menos evidente. Em determinadas situações, a discussão começa a se deslocar do fato que precisa ser esclarecido para questões periféricas: se determinada palavra poderia soar desta ou daquela maneira, se seria mais confortável utilizar outra expressão ou se seria preferível não mencionar determinado aspecto.

Quando isso acontece, vale perguntar se ainda estamos discutindo como tornar a informação mais clara ou se passamos a discutir quanto da realidade deve chegar ao público.

Esse deslocamento é particularmente problemático quando parte de quem está sujeito à própria fiscalização ou avaliação técnica. O papel da comunicação de uma instituição reguladora independente não é proteger a imagem do regulado, assim como não é produzir alarmismo. É oferecer informação tecnicamente correta, proporcional à ocorrência e coerente com aquilo que está sendo constatado pelas áreas responsáveis.

Coordenação entre instituições é desejável. Consistência de informações também. Mas coordenação não significa subordinação editorial.

Muito menos pode servir para retirar da comunicação do regulador uma informação tecnicamente correta apenas porque ela pode ser considerada inconveniente ou desconfortável para outra instituição.

No setor nuclear, a confiança pública é um ativo de segurança. Ela não se constrói escolhendo apenas as informações fáceis de comunicar. Constrói-se demonstrando, inclusive diante de ocorrências, que a sociedade receberá informações corretas, contextualizadas e compreensíveis.

Por isso, transparência e serenidade não são conceitos opostos. Assim como simplicidade e rigor técnico também não são. A boa comunicação nuclear precisa dos quatro.

E talvez seja justamente nos momentos mais desconfortáveis que esse compromisso se torne mais necessário.

* Ana Paula Freire Artaxo Netto é jornalista, doutora em pela Unicamp e coordenadora-geral de Relações Institucionais da ANSN (Autoridade Nacional de Segurança Nuclear)

Os artigos publicados pelo CNN Infra buscam estimular o debate, a reflexão e dar luz a visões sobre os principais desafios, problemas e soluções enfrentados pelo Brasil e por outros países do mundo. Os textos publicados neste espaço não refletem, necessariamente, a opinião da CNN Brasil.
  • Fonte: CNN Brasil
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