Caçadores da Sibéria abrem temporada de caça aos ursos após ataques fatais
- 15/10/2026 18:26
- Redação
Um drone paira sobre um urso-pardo que atravessa a taiga siberiana, pouco antes de dois caçadores se aproximarem. Três disparos ecoam, e o urso cai morto na vegetação alta.
Apoiando seu rifle enquanto pousa a mão sobre a pelagem do animal abatido, Mikhail Kondakov conta que ele e outros caçadores decidiram agir por conta própria, atendendo a pedidos dos moradores do povoado vizinho de Podtesovo, após um ataque fatal de urso contra mulheres da região.
“A situação com os ursos no povoado está muito difícil no momento; e não apenas no povoado, mas em todo o distrito de Yeniseisky e, na verdade, em toda a região de Krasnoyarsk, a situação é muito grave”, disse Kondakov à Reuters.
“Os ursos têm entrado cada vez mais, diretamente, no povoado. Este ano, vivemos uma tragédia: duas mulheres que haviam saído para colher cogumelos foram mortas por um urso que passou a atacar humanos. Decidimos começar a caçar ursos porque há muitos deles, tanto dentro do povoado quanto nos arredores”, justificou.
O problema é de abrangência nacional. Este ano, pelo menos 26 pessoas morreram em ataques de ursos desde a primavera na Rússia, período em que os animais, famintos, despertam da hibernação, informou a agência de notícias RIA Novosti na segunda-feira (12).
Em resposta aos ataques, o governo anunciou, no mês passado, que está elaborando medidas urgentes para controlar a população de ursos-pardos.
A quantidade desses animais mais do que dobrou nas últimas três décadas, chegando a 308 mil — um aumento atribuído, em parte, a invernos mais curtos e amenos.
Desde o início do ano, mais de 3.440 ursos foram abatidos por serem considerados uma ameaça aos seres humanos, segundo um levantamento da agência estatal de notícias Tass, publicado em 10 de outubro.
Especialistas ouvidos pela mídia russa explicam que, este ano, os ursos foram forçados a buscar alimento em áreas mais distantes, já que uma primavera precoce e seca resultou na escassez de frutas silvestres, das quais eles costumam se alimentar.
A população também tem sido criticada por deixar resíduos de alimentos ao relento — o que atrai os ursos — e por ignorar normas de segurança.
Em Krasnoyarsk, região siberiana que abriga cerca de 27 mil ursos, e onde Kondakov e outros caçadores abatem esses animais, investigadores informaram, no mês passado, a abertura de um inquérito criminal contra o departamento de meio ambiente local.
A acusação é de falha no controle da população de ursos; uma negligência que, segundo os investigadores, resultou na morte de sete pessoas apenas no mês de setembro.
Em Podtesovo, um povoado de cerca de 3.500 habitantes situado na margem direita do rio Ienissei, uma simples cruz de madeira marca o túmulo de Zoya Gubanova, acompanhada por uma fotografia colorida da falecida.
Gubanova, uma aposentada de 67 anos, foi morta em 31 de agosto durante um ataque de urso, enquanto colhia cogumelos — uma atividade muito comum na Rússia.
Conversando do lado de fora de sua casa de madeira, Yulia Markova, moradora da região, afirma que a situação se tornou insuportável.
“Vivemos com medo há quase dois meses; não conseguimos nem sair para caminhar à noite. As pessoas têm receio de deixar os filhos saírem sozinhos”, disse ela.
“Não estamos falando de um bichinho de pelúcia fofo e inofensivo. É um animal selvagem. Quem sabe quais são as suas intenções, ou em que estado ele se encontra quando aparece por aqui? Pode ser apenas curiosidade, ou talvez ele esteja à procura de sua próxima vítima”, adicionou.
Segundo Markova, moradores como Gubanova, que, segundo ela, ia à floresta todos os dias, talvez não compreendessem totalmente o perigo que os ursos representam.
Inicialmente, a população até sentiu pena dos animais, já que, claramente, não havia nozes ou frutas silvestres suficientes para eles se alimentarem este ano.
No entanto, ela relata que o sentimento mudou, tornando-se mais rígido, à medida que os ursos começaram a entrar no povoado em um número muito maior do que o habitual.
“Nunca vimos uma invasão como esta”, afirmou Markova.
Observando a filha brincar em um parquinho local, Valeriya Efremova, que está grávida, comentou que o aumento na atividade dos ursos transformou a vida dos moradores da região.
“Quando os ursos começaram a sair da floresta, restringimos ao máximo as saídas, inclusive ao parque. Foi realmente assustador, porque os ursos estavam entrando até mesmo no parque onde as crianças brincam. Sair depois que escurecia estava totalmente fora de cogitação”, comentou.
“Mesmo agora, embora o número de avistamentos pareça ter diminuído — pelo menos de acordo com as informações que temos —, a gente ainda anda por aí olhando para trás, sempre em alerta”, adicionou.
Nikolai Zhilinsky, outro morador da região, contou que as pessoas estavam esperando o tempo esfriar e os ursos entrarem em hibernação, mas acrescentou que, mesmo quando isso acontecesse, a preocupação continuaria.
“Não temos certeza de que todos os ursos vão hibernar. Há muitos deles, e eles estão com fome”, afirmou, mencionando que tinha medo de sair para pescar em seu barco, receando ser atacado por um urso.
Já Vladimir Vagin relatou que as pessoas temiam ser atacadas em seus próprios quintais. Ele apontou para uma área próxima a um arbusto de framboesas em seu quintal, onde acreditava que um urso havia passado.
Ao dirigir pelo povoado depois de escurecer, ele observou o quanto as ruas estavam vazias e como não havia ninguém circulando.
“As pessoas não saem porque têm medo”, disse ele.