Eleições nos EUA: O que muda se Trump perder a maioria no Congresso?
- 15/10/2026 08:00
- Redação
No dia 3 de novembro, os Estados Unidos vão às urnas para as Eleições de Meio de Mandato, conhecidas como Midterms, onde estarão em jogo todos os 435 assentos da Câmara dos Representantes e um terço do Senado.
Atualmente, o Partido Republicano detém a maioria em ambas as casas.
Uma pesquisa da CNN conduzida pela SSRS indicou que os eleitores estão se mobilizando por uma mudança brusca no desenho do Congresso, com os democratas liderando os republicanos por 8 pontos percentuais. Em geral, os levantamentos recentes apontam para uma virada em ao menos uma das casas do Congresso.
A votação acontece em um momento de ampla impopularidade do presidente Donald Trump, com um índice médio de aprovação de 36%, segundo a média de pesquisas feita pela CNN.
Historicamente, as eleições de Meio de Mandato são desastrosas para o partido de quem ocupa o Salão Oval da Casa Branca.
Bruce Stokes, pesquisador associado do Chatham House, destacou em um artigo recente que “desde a Segunda Guerra, o partido que controla o Congresso perdeu cadeiras em todas as eleições de meio de mandato, exceto duas, e pelo menos uma das Casas mudou de controle nas últimas cinco eleições”.
“Em cada uma das Casas do Congresso, o controle da maioria permite a um partido determinar quais propostas serão levadas à votação e quais emendas poderão ser analisadas”, explica William Bianco, professor de Ciência Política na Universidade de Indiana, em artigo publicado no site da Everything Policy, uma organização política americana sem fins partidários.
“O partido majoritário também controla diversas atividades das comissões parlamentares, incluindo a investigação de órgãos federais e a elaboração de propostas orçamentárias”, acrescentou.
O pesquisador Bruce Stokes avaliou que o cenário é “ameaçador” para Donald Trump.
“Mesmo que os democratas conquistem apenas uma das casas do Congresso, o presidente e membros de seu governo enfrentam a perspectiva de dois anos de investigações parlamentares. Essas investigações podem incluir doações corporativas e supostos acordos de pagamento por influência, além de investimentos de fundos soberanos estrangeiros em empresas ligadas à família Trump”, escreveu.
A repórter sênior da CNN e setorista do Congresso americano, Annie Grayer, apurou que democratas já estão se preparando para abrir investigações abrangentes sobre o governo Trump, caso conquistem a Câmara.
A guerra com o Irã, o controverso projeto de construção de um salão de baile na Casa Branca, os negócios da família Trump e a forma como o governo lidou com os arquivos do Caso Epstein estão entre os principais alvos de investigações, segundo relataram uma dúzia de parlamentares e assessores democratas à CNN.
Um participante do funeral segura uma foto do Líder Supremo Mojtaba Khamenei durante o cortejo fúnebre do falecido Aiatolá Ali Khamenei em Teerã, Irã, na segunda-feira • ReutersPoucos dizem estar interessados em abrir um processo de impeachment no primeiro dia; em vez disso, miram lançar mão de ações judiciais para obter rapidamente os documentos e depoimentos que buscam.
“Vamos usar todas as ferramentas disponíveis e certamente teremos muito mais autoridade para entrar com ações judiciais na maioria do que tínhamos quando estávamos na minoria”, disse à CNN o deputado democrata Jamie Raskin, que passaria a liderar o poderoso Comitê Judiciário da Câmara em caso de virada democrata.
“Não aceitaremos um não como resposta quando se trata de obter as provas de que precisamos”, acrescentou Raskin.
Segundo apuração da agência Reuters, os democratas também planejam investigar agentes financeiros ligados a Trump, incluindo a 1789 Capital – empresa de capital de risco da qual o filho do presidente, Donald Trump Jr., é sócio – e fundos soberanos estrangeiros cujos investimentos em entidades ligadas à família Trump podem levantar questionamentos sobre a influência do governo.
Do ponto de vista mercadológico, Michael Townsend, analista político da corretora gigante Charles Schwab, avaliou que a principal implicação política das Eleições de Meio de Mandato para os investidores é a “maior probabilidade de um governo dividido”.
“Uma Câmara controlada pelos democratas significaria maior fiscalização do governo Trump, menos oportunidades para a aprovação de grandes projetos de lei republicanos e uma maior probabilidade de que prazos fiscais, disputas orçamentárias e as futuras negociações sobre o teto da dívida em 2027 se tornem eventos relevantes para o mercado”, escreveu em um artigo.
“Um Senado republicano combinado com uma Câmara democrata criaria um cenário de governo dividido, com capacidade legislativa limitada, mas com riscos significativos relacionados à fiscalização e às negociações fiscais”, acrescentou.
Capitólio dos EUA em Washington nesta quarta-feira (22) • Reuters / Eric LeeTownsend também pontuou que o controle do Senado “é importante porque determina o ambiente de confirmação de juízes, reguladores e altos funcionários do governo, bem como a viabilidade de grandes projetos de lei”.
“Uma vitória democrata tanto na Câmara quanto no Senado alteraria substancialmente a segunda metade da administração Trump, aumentando as chances de uma fiscalização mais agressiva e tornando as confirmações de nomeações e a política regulatória mais contenciosas”, escreveu.
O cientista político americano e fundador do Eurasia Group, Ian Bremmer, destacou em um artigo a dificuldade que os democratas enfrentam para virar o Senado. “Os democratas precisam defender 13 cadeiras e conquistar quatro ocupadas por republicanos, incluindo duas em estados onde o presidente Trump venceu por ampla maioria”, disse.
No entanto, ele explicou, o cenário indicado nas pesquisas está mais favorável aos democratas nas últimas semanas e a disputa pela Casa está em aberto.
Caso os democratas consigam o feito de conquistar a maioria no Senado, Bremmer destacou que as mudanças no curto prazo podem ser menores do que se imagina.
“O impasse legislativo já era o ponto de partida. Trump governa por decretos de qualquer forma, ignorando e contornando o Congresso à vontade. As investigações e processos de impeachment conduzidos por uma Câmara liderada pelos Democratas não passarão de barulho que a Casa Branca pode simplesmente ignorar”, avaliou o cientista político.
“O que um Senado de maioria democrata pode fazer em 2027 é obter algum poder de barganha nas negociações orçamentárias e paralisar a capacidade do governo de confirmar juízes e altos funcionários. Mas mesmo essa trava não é à prova de falhas”, completou.
Bremmer ainda explicou que o governo Trump pode recorrer à estratégia de governar com secretários que ocupem o cargo interinamente, sem a necessidade de confirmação pelo Senado.
O analista pontuou que a meta democrata é conquistar em 2029 a chamada “trifecta” (controle da Câmara, do Senado e da Casa Branca).
“Mesmo sem atingir a maioria, conquistar apenas duas cadeiras no Senado este ano deixaria os democratas com 49 assentos rumo a um ciclo eleitoral em que os republicanos estarão defendendo assentos vulneráveis na Carolina do Norte e em Wisconsin. Adicione a presidência e mais uma virada de assento, e os democratas poderiam ter seu primeiro governo com controle do Congresso desde 2022 – e, com isso, a primeira oportunidade de aprovar o tipo de legislação que o partido não consegue passar desde a Lei de Redução da Inflação (Inflation Reduction Act). O que está sendo decidido em novembro é menos o cenário para 2027 e mais a viabilidade de uma agenda democrata ambiciosa em 2029”, concluiu.