Campistas dormiam em cima de sepulturas sem identificação em um resort paradisíaco construído no lugar de uma antiga prisão aborígene
- 12/10/2026 18:19
- Redação
Mais de 800 mil pessoas visitam a ilha australiana de Rottnest anualmente para desfrutar das praias de areia branca, das águas cristalinas e do quokka, um marsupial adorável e famoso que sorri em selfies. Mas o que ficou encoberto pela história e pelo tempo é que, antes de se tornar um destino paradisíaco, o local era uma prisão que mantinha cerca de 4 mil prisioneiros do povo aborígene (indígenas australianos) Noogar.
É um lugar espiritual para os guardiões tradicionais de Wadjemup, como é chamada a ilha pelo povo aborígene, explica Len Collard, professor emérito da Universidade da Austrália Ocidental e ancião Noongar. “Na história Noongar”, diz ele, “quando as pessoas morrem, seu espírito deixa o corpo e viaja para o oeste, até as ilhas, para o lugar dos fantasmas.”
“Wadjemup sempre foi uma morada dos espíritos”, explica Collard, “mas definitivamente se tornou um lugar mais espiritual após o regime colonial, depois de se tornar o local com o maior número de mortes de aborígenes sob custódia na Austrália.”
Os aborígenes australianos são uma das civilizações mais antigas do planeta, sendo os guardiões da terra, dos mares e dos céus australianos há pelo menos 65 mil anos.
O Reino Unido reivindicou o leste da Austrália em 1770 e sua Primeira Frota, composta principalmente por colonos condenados, chegou em 1788. Durante o período colonial que se seguiu, conflitos violentos eclodiram entre os povos aborígenes locais e os britânicos.
Wadjemup se tornou uma prisão para meninos e homens aborígenes em 1838. Os primeiros prisioneiros chegaram de barco, dormindo em uma caverna costeira enquanto extraíam calcário e construíam a própria prisão.
A maioria dos detentos foi acusada de roubo de gado ou rações de farinha, afirma Glen Stasiuk, professor da Universidade Murdoch e diretor do documentário de 2014 “Wadjemup: Prisão Negra — Playground Branco
A ilha funcionou como prisão para meninos e homens indígenas durante 93 anos. Na foto: um grupo de prisioneiros aborígenes não identificados em Rottnest, por volta de 1920 • Reprodução/State Library of Western AustraliaEle explica que o sistema já era “completamente estranho” para os homens e meninos, que foram acusados, presos e sentenciados em um idioma que não entendiam. De repente, eles se viram enviados para uma ilha, sem saber se ou quando veriam seus entes queridos novamente.
Alguns prisioneiros percorreram longas e traumatizantes distâncias, inclusive desde Kimberley, uma região remota do interior australiano a mais de 2 mil quilômetros de distância.
Uma vez em Wadjemup, os prisioneiros eram forçados a trabalhos árduos, como extrair materiais e construir a infraestrutura da ilha. “O cais, as casas, a prisão, a residência do governador”, diz Stasiuk, “tudo isso foi construído por prisioneiros aborígenes”. Collard afirma que essa construção ajudou a colônia a justificar o custo da instalação da prisão, já que os aborígenes poderiam ser usados como mão de obra barata em projetos futuros após deixarem a ilha.
A vida nas celas não era mais fácil, e a prisão estava superlotada e infestada de doenças. Essas condições brutais foram agravadas pelas mãos de Henry Vincent, um superintendente particularmente “bárbaro”, segundo Stasiuk. “Vincent tinha um olho só e vinha das guerras napoleônicas”, explica ele. “Ele acorrentava os homens em suas celas, espancava os prisioneiros e atirava neles.”
No final do século XIX, os apelos para o fechamento da prisão ganharam força em paralelo com a criação de mais prisões no continente e um crescente interesse no uso recreativo de Wadjemup. Em 1902, após 93 anos de funcionamento, a prisão foi oficialmente fechada.
Quase 4 mil homens e meninos indígenas foram encarcerados em Wadjemup. Dos 373 que morreram lá, a maioria foi enterrada em sepulturas sem identificação.
Hoje, muitos turistas que visitam Wadjemup desconhecem a história angustiante do local. Eles pedalam pelas avenidas sob o sol escaldante, mergulham nos recifes de coral ou passeiam pela cidade colonial com um sorvete escorrendo pela mão. É um contraste gritante — este destino idílico e seu passado sombrio e assombroso.
A ilha começou a se reinventar como um ponto turístico popular logo após o fechamento da prisão, com o bloco principal de celas convertido em acomodações de férias em 1911.
À medida que as paredes eram demolidas e encanamento e eletricidade instalados, o patrimônio do edifício foi destruído, diz Collard. Mais do que isso, os turistas agora estavam “pagando por um quarto, deitando em uma cama e tendo relações onde esses homens morreram”, explica ele.
O cemitério continha as sepulturas sem identificação dos prisioneiros falecidos tornou-se um acampamento conhecido como Tentland. Nos 90 anos seguintes, os turistas dormiram a apenas sessenta centímetros de um dos maiores cemitérios indígenas da Austrália.
O professor Stasiuk conta que visitou Tentland na década de 1970, antes de conhecer essa história. “Eu fui e fiquei doente”, explica. “Depois voltei e acabei no hospital. Eu não conseguia entender. Os médicos não conseguiam entender. Eu era fisicamente saudável.” Então ele contou para a avó. Ela respondeu imediatamente. “É warra “, disse ela. “É ruim.”
Embora restos mortais tenham sido descobertos no local em 1970, o acampamento só foi oficialmente fechado em 2007. Em 2018, a antiga prisão deixou de funcionar como resort turístico.
Em 2020, a Autoridade da Ilha de Rottnest começou a facilitar o Projeto Wadjemup “para reconhecer formalmente a história da ilha de encarceramento e mortes de aborígenes sob custódia por meio da revelação da verdade, cerimônias e memorialização”.
O projeto envolve honrar o cemitério, conservar o prédio original da prisão e realizar uma cerimônia cultural para facilitar a cura. O Wadjemup Wirin Bidi, ou Trilha dos Espíritos, foi realizado em 2024, com a participação de cerca de 200 indígenas de todo o país em cerimônias culturais privadas para dar descanso aos sepultados na ilha e libertar seus espíritos.
Um porta-voz da Autoridade da Ilha de Rottnest disse à CNN que está empenhada em continuar trabalhando com a comunidade aborígine “para garantir que a história da ilha seja compartilhada de forma aberta e honesta”.