Análise: Arábia Saudita terá de responder a houthis, mas tem limitações
Internacional

Análise: Arábia Saudita terá de responder a houthis, mas tem limitações

  • 12/10/2026 06:03
  • Redação

A Arábia Saudita enfrenta uma decisão delicada sobre como reagir à escalada de ataques dos houthis, grupo rebelde do Iêmen apoiado pelo Irã. Após o ataque mais mortal em território saudita em mais de uma década, o governo precisa avaliar como conter as ofensivas sem se envolver em uma guerra ainda mais custosa.

Na semana passada, o reino lançou uma grande ofensiva para apoiar as forças do governo iemenita que combatem os houthis. Os rebeldes, porém, mantiveram suas posições e intensificaram os ataques contra a Arábia Saudita. No fim de semana, lançaram mísseis contra o Aeroporto Internacional Rei Khalid, em Riad, matando ao menos 13 pessoas.

Inspirados pela estratégia adotada pelo Irã no conflito contra os Estados Unidos, os houthis prometem ampliar as ofensivas e atingir infraestruturas críticas da Arábia Saudita, impondo também custos à economia global.

O grupo mantém antigas divergências com Riad por causa da guerra de uma década conduzida pelos sauditas no Iêmen, que contribuiu para desencadear a pior crise humanitária do mundo. A escalada recente, no entanto, é cada vez mais vista como uma extensão do conflito entre o Irã e Washington.

Depois de 11 anos tentando conter o avanço dos houthis por meio de operações militares e negociações, o príncipe herdeiro saudita, Mohammed bin Salman, e seu irmão, o ministro da Defesa Khaled bin Salman, enfrentam poucas alternativas. Do outro lado da fronteira, os rebeldes se fortaleceram, consolidaram o controle sobre grandes cidades e tentam avançar sobre outras localidades, como Taiz, densamente povoada.

“Essa ameaça precisa ser enfrentada de uma vez por todas”, afirmou Ali Shihabi, escritor e comentarista de política saudita, à CNN. Segundo ele, muito dependerá do desempenho das forças do governo iemenita no campo de batalha, que recebem amplo apoio aéreo da Arábia Saudita.

Até agora, os sauditas limitaram em grande parte sua participação ao apoio aéreo à coalizão iemenita contrária aos houthis, sem enviar grandes contingentes de tropas próprias para combater em terra. Ainda não está claro se essa estratégia será mantida depois do ataque de sábado contra Riad.

O envio de um grande número de soldados sauditas ao Iêmen poderia arrastar o reino para uma guerra terrestre prolongada e cara, em um terreno acidentado. A operação também poderia prejudicar a imagem de estabilidade e segurança que Mohammed bin Salman tenta consolidar para atrair investimentos e desenvolver o turismo internacional.

Houthis ampliam capacidade de ataque

Membros das forças de segurança sauditas participam de um desfile militar em Meca, em 21 de maio de 2026. • Zain Jaafar/AFP/Getty Images via CNN Newsource

Há menos de duas décadas, os houthis eram um pequeno movimento de renovação religiosa. Com o apoio do Irã, o grupo se transformou em uma força militar capaz de utilizar mísseis balísticos e atingir alvos tão distantes quanto Tel Aviv, em Israel.

“Eles desenvolveram suas capacidades de guerra”, afirmou à CNN um funcionário do sul do Iêmen que combateu os houthis durante anos. “Seus ataques ficaram mais sofisticados, eles são persistentes e aprimoraram sua inteligência.”

O governo iemenita acusa os rebeldes de trabalhar com especialistas da Guarda Revolucionária do Irã para modificar mísseis e torná-los mais eficazes.

Segundo Majed al-Nazili, porta-voz das Forças Armadas do Iêmen, os novos mísseis voam mais rápido e utilizam um sistema de rastreamento térmico para localizar fontes de calor. Ainda não está claro se esse tipo de armamento foi usado no ataque de sábado ao aeroporto de Riad.

A busca dos houthis por armas mais sofisticadas pode estar avançando também para o uso de inteligência artificial.

A empresa de inteligência artificial Anthropic afirmou que um grupo baseado no norte do Iêmen utilizou suas ferramentas Claude para ajudar a desenvolver programas de orientação para foguetes e mísseis, sistemas responsáveis por direcionar e estabilizar essas armas durante o voo.

O relatório não identificou os envolvidos, mas a localização do grupo em uma região do norte do Iêmen controlada pelos houthis sugere uma possível ligação com os rebeldes.

Arábia Saudita busca apoio internacional

O presidente dos EUA, Donald Trump, cumprimenta o príncipe herdeiro e primeiro-ministro do Reino da Arábia Saudita, Mohammed bin Salman. • Brendan Smialowski/AFP/Getty Images via CNN Newsource

A Arábia Saudita tem procurado apoio de parceiros internacionais para conter os houthis. França, Reino Unido e Paquistão se comprometeram a ajudar, enquanto outros aliados, como a Turquia, avaliam a possibilidade de oferecer apoio.

Segundo relatos, Mohammed bin Salman também recorreu à Síria. O presidente sírio, Ahmed al-Sharaa, liderou facções armadas que conseguiram expulsar grupos apoiados pelo Irã do território sírio após quase uma década de guerra civil.

O principal aliado de Riad, os Estados Unidos, ainda não apoiou ataques aéreos contra os houthis. Washington enviou mais de 100 assessores militares para fornecer informações de inteligência sob um comando conjunto recém-criado.

No ano passado, os Estados Unidos chegaram a um cessar-fogo com o grupo apoiado pelo Irã, que permitiu a reabertura do estreito de Bab el-Mandeb para embarcações americanas. A passagem marítima é estratégica para o comércio mundial entre a Ásia e a Europa.

Segundo fontes ouvidas pela CNN na ocasião, Mohammed bin Salman conversou duas vezes com o presidente americano, Donald Trump, no mês passado e pediu que ele atacasse os houthis. Trump, porém, recusou-se a intervir.

O ataque contra o aeroporto de Riad pode alterar esse cenário. Entre os mortos estava um cidadão americano, segundo a autoridade saudita de aviação civil, o que pode aumentar a pressão para que Washington se envolva diretamente no conflito.

Após o ataque, Trump elogiou a capacidade militar saudita, mas classificou o episódio como terrível.

Questionado por jornalistas sobre a possibilidade de os Estados Unidos participarem de ataques contra os houthis, o presidente respondeu: “Podemos”.

Defesas sauditas enfrentam limitações

Apesar de ter adquirido alguns dos sistemas de defesa aérea americanos mais avançados, a Arábia Saudita continua vulnerável a ataques. Sua infraestrutura se estende por vastas áreas desérticas e transporta recursos valiosos, o que cria numerosos alvos para drones de baixo custo desenvolvidos pelos houthis.

Shihabi afirmou que a participação direta dos Estados Unidos em ataques aéreos poderia ajudar, já que as aeronaves americanas conseguem responder mais rapidamente às informações obtidas por satélites militares.

“Os aviões sauditas estão um passo afastados desse circuito, então o envolvimento americano seria útil”, disse o analista à CNN.

A decisão de Riad, porém, envolve riscos estratégicos. Uma ofensiva mais ampla poderia enfraquecer os houthis, mas também ampliar o conflito e comprometer os objetivos econômicos e de estabilidade do reino. Por outro lado, uma resposta limitada pode não ser suficiente para impedir novos ataques contra infraestruturas sauditas.

 

  • Fonte: CNN Brasil
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