Índia: Líderes do “movimento das baratas” são soltos, mas prisões continuam
- 11/10/2026 12:45
- Redação
A polícia da Índia deteve centenas de manifestantes em Nova Délhi pelo segundo dia consecutivo neste domingo (11), enquanto protestos esporádicos exigiam a renúncia do chefe da autoridade eleitoral do país.
Simultaneamente, um tribunal ordenou a libertação de Abhijeet Dipke, fundador do “movimento das baratas”, e de dois outros líderes importantes do grupo.
Dipke e os demais líderes do CJP (Cockroach Janta Party), um movimento de protesto juvenil de âmbito nacional, foram detidos no sábado (10), assim que seu avião pousou em Délhi, no momento em que o grupo planejava reunir milhares de pessoas em Jantar Mantar, no centro da cidade.
O tribunal ordenou a libertação deles mediante o compromisso de “manter a ordem pública”, informou o CJP em comunicado.
O movimento juvenil, que tem mobilizado protestos nos últimos meses em torno de diversas questões, desde a infraestrutura de escolas públicas até a oferta de empregos para jovens, representa um dos maiores desafios políticos para o primeiro-ministro Narendra Modi e seu partido, o BJP (Bharatiya Janata Party ), em seus 12 anos no poder.
Os manifestantes exigem a renúncia do comissário-chefe da Comissão Eleitoral, Gyanesh Kumar, devido a uma revisão das listas de eleitores que, segundo críticos, beneficia desproporcionalmente Modi.
Manifestantes jovens — muitos deles integrantes de organizações estudantis ligadas a partidos comunistas da Índia — realizaram protestos esporádicos na tarde deste domingo em Délhi, antes de serem detidos pela polícia e levados em veículos oficiais.
Pequenos protestos envolvendo dezenas de pessoas também ocorreram nas cidades de Mumbai, Calcutá, Panaji e Pune, segundo a imprensa local.
Abhita Ruheja, uma manifestante que foi detida, afirmou que as autoridades transformaram Délhi em uma fortaleza.
“É assim que funciona uma democracia? Eles vêm eliminando direitos, um após o outro, e isso está se transformando em uma ditadura”, disse ela.
A All India Students’ Association alegou, em uma publicação na rede social X, que os detidos na capital foram agredidos por policiais dentro dos veículos.
Um vídeo publicado no X pelo Partido Comunista da Índia mostrava um de seus parlamentares, John Brittas, que chegou a ser detido brevemente, sendo ajudado a sair de um ônibus em direção a um riquixá motorizado, aparentando estar em sofrimento.
A Reuters não conseguiu verificar as alegações de agressão policial contra os detidos.
A polícia também deteve vários jornalistas que cobriam os protestos; muitos deles portavam microfones e exibiam suas credenciais de imprensa de forma visível, segundo uma testemunha da Reuters.
Um porta-voz da polícia de Nova Délhi não respondeu, durante uma coletiva de imprensa, a perguntas sobre as supostas agressões e detenções.
Dipke, do CJP, disse que estava retornando para sua casa no estado de Maharashtra, no oeste da Índia, devido ao falecimento de sua avó, mas acrescentou que os protestos continuariam.
“Não assinamos nenhum termo comprometendo-nos a não protestar. Voltaremos às ruas”, afirmou ele em uma publicação na rede social X.
Milhares de policiais e agentes de forças paramilitares permaneceram mobilizados por toda Délhi, embora as estações de metrô tenham sido reabertas e os serviços de internet móvel restabelecidos após as autoridades terem bloqueado a cidade na tentativa de impedir os protestos de sábado.
O porta-voz da polícia informou que 2.400 pessoas foram detidas no sábado, sendo que a maioria foi liberada na mesma noite.
Partidos de oposição e críticos do governo de Modi condenaram o que classificaram como uso excessivo de força contra os manifestantes, enquanto um órgão da ONU instou as autoridades a garantirem o respeito e o exercício do direito de reunião pacífica.
O Ministério das Relações Exteriores da Índia declarou que a manifestação das Nações Unidas constituía uma “interferência indevida nos assuntos internos da Índia”.
Em uma audiência realizada em um domingo — algo incomum —, a Suprema Corte registrou a garantia do governo de que advogados e jornalistas não seriam impedidos de exercer suas funções.
Advogados que protestavam em frente à Suprema Corte foram detidos brevemente no sábado, assim como vários repórteres, incluindo um jornalista da Reuters.
Protestos esporádicos têm ocorrido em toda a Índia desde o final de setembro, quando o jornal Indian Express noticiou que dois auxiliares de Kumar haviam levantado preocupações internas sobre revisões nas listas de eleitores, procedimentos de registro e sistemas digitais.
A Comissão Eleitoral afirma que divergências de opinião são normais em deliberações internas e nega ter favorecido qualquer partido.
Dados da Comissão Eleitoral mostram que cerca de 130 milhões de nome, um número superior à população do Japão, foram removidos dos registros eleitorais durante o processo de verificação.
Entre eles, 28 milhões de pessoas falecidas, 63 milhões que haviam mudado de residência e 30 milhões que não puderam ser localizadas.
O BJP, partido de Modi, acusou grupos de oposição de tentarem minar a democracia do país ao questionar indevidamente processos eleitorais legítimos. A Comissão Eleitoral afirmou que os eleitores removidos por erro podem solicitar novamente a inclusão no cadastro.
Tanto o BJP quanto a Comissão negam as alegações de manipulação, embora partidos de oposição sustentem que eleitores muçulmanos e de outras minorias — que dificilmente apoiariam o partido governista nacionalista hindu — foram desproporcionalmente afetados pelas exclusões.