Falta de energia mata 450 mil peixes no Paraná; Copel cita temporais
- 10/10/2026 11:10
- Redação
A falta de energia elétrica de qualidade no campo provocou a morte de cerca de 450 mil peixes, equivalentes a 230 toneladas, em uma propriedade de São João do Ivaí, no Norte do Paraná. De acordo com a FAEP (Federação da Agricultura do Estado do Paraná), o prejuízo ameaça contratos comerciais e pode chegar a R$ 2,5 milhões.
Segundo o presidente do Sistema FAEP, Ágide Eduardo Meneguette, a instabilidade compromete os investimentos realizados pelos produtores e ameaça a continuidade da atividade. “Diante das falhas no fornecimento, os piscicultores precisam recorrer a geradores movidos a diesel para manter os equipamentos em funcionamento, o que aumenta as despesas com combustível e manutenção”, informou por meio de nota.
“Na piscicultura, a falta de energia significa falta de oxigênio nos tanques e, em poucas horas, perda de animais e prejuízos financeiros na casa dos milhões de reais”, afirma Meneguette. Para ele, é urgente que a Copel (Companhia Paranaense de Energia) apresente soluções para melhorar o atendimento ao meio rural.
Segundo o Anuário Brasileiro da Piscicultura 2026, da Peixe BR (Associação Brasileira da Piscicultura), o Paraná produziu mais de 273 mil toneladas de peixes em 2025 e respondeu por quase 70% da produção nacional de tilápia. O Estado também tem participação expressiva nas exportações: das 12 mil toneladas de tilápia embarcadas pelo Brasil para o mercado internacional no ano passado, metade saiu do Paraná, gerando mais de US$ 28 milhões em receita.
De acordo com o Deral (Departamento de Economia Rural), Toledo, Palotina, Nova Aurora, São José dos Pinhais e Marechal Cândido Rondon estão entre os principais municípios produtores. Já Itambaracá, Alvorada do Sul, Nova Prata do Iguaçu, Três Barras do Paraná e Boa Esperança do Iguaçu estão entre as cidades com maior quantidade de tanques.
Além das interrupções completas, os produtores relatam oscilações frequentes de tensão, conhecidas como “pisca-pisca”. Na região de Marechal Cândido Rondon, o problema é especialmente intenso no fim da tarde e no início da noite. Nessas situações, a tensão pode cair sem que o fornecimento seja totalmente interrompido, dificultando o acionamento automático dos geradores. Dispositivos de proteção também podem impedir a partida dos aeradores para evitar danos aos motores.
“Quando a energia falha, o peixe sofre com a oxigenação da água. Com baixa oxigenação, o resultado do ciclo é comprometido: o ganho de peso diário cai e o peixe fica mais dias nos tanques até ser entregue”, explica Edio Chapla, presidente da Comissão Técnica de Aquicultura do Sistema FAEP e do Sindicato Rural de Marechal Cândido Rondon.
Piscicultor, Chapla afirma que há relatos de problemas no fornecimento em diferentes regiões do Estado. Segundo ele, a instabilidade também afeta a saúde emocional dos produtores, que precisam acompanhar constantemente o funcionamento dos equipamentos e verificar se os geradores serão acionados.
“Tem impactado na parte psicológica. O produtor vive com a intranquilidade de saber se o gerador vai entrar, se o equipamento vai ligar e tendo que correr atrás desse fornecimento de energia. É uma tortura”, relata.
Os prejuízos também incluem gastos com diesel, troca de óleo, manutenção e substituição de equipamentos. Segundo Chapla, a energia já representa mais de 55% do custo do lote, pressionando a rentabilidade da atividade e dificultando o planejamento dos negócios familiares.
Em São João do Ivaí, Edilson Pini enfrenta as consequências da instabilidade no fornecimento. A família atua na piscicultura há cerca de 40 anos, produz aproximadamente 800 toneladas de peixes por ano em 15 viveiros e mantém um frigorífico próprio. A perda de cerca de 450 mil peixes compromete a produção prevista para os próximos quatro meses e ameaça contratos comerciais.
A propriedade abastece programas de alimentação escolar de 22 municípios paranaenses, além de atender instituições como Corpo de Bombeiros, Polícia Militar, Sesc e Senac. Com a perda do plantel, o produtor teme não conseguir cumprir os compromissos assumidos com os clientes.
Segundo Pini, os problemas começaram em 29 de setembro, quando houve uma interrupção no fornecimento de energia por volta das 14h. Às 15h16, ele registrou o primeiro chamado à Copel. Diante das oscilações, o gerador da propriedade foi acionado para manter os equipamentos dos viveiros em funcionamento.
Por volta das 20h, porém, o gerador apresentou uma pane. Dois motores de arranque queimaram e a placa de automação ficou inutilizada, gerando um custo de reparo estimado em R$ 20 mil.
“A qualidade da energia na região é ruim há anos. Em um dia normal, ocorre de dois a quatro picos de energia. Já houve noite com 14”, afirma.
Durante a noite, Pini, a esposa e dois funcionários tentaram manter os peixes vivos por meio de procedimentos manuais, incluindo a aplicação de oxigênio granulado. As medidas, entretanto, não foram suficientes para garantir a oxigenação dos viveiros diante do volume de animais e da falta de funcionamento dos aeradores. A energia só foi restabelecida às 13h do dia seguinte, 30 de setembro, após cerca de 23 horas de interrupção.
Pini afirma que, apesar de ser atendido na categoria de consumidor do grupo A, realizou 28 contatos por WhatsApp e pelo telefone 0800, além de procurar a central de Londrina, a gerência de Ivaiporã e técnicos responsáveis.
“Se a empresa tivesse mobilizado a estrutura de manutenção no primeiro dia, em vez de três dias depois, quando houve nova queda, eu não teria tido esse prejuízo”, diz.
O produtor estima que os prejuízos estejam na casa dos milhões de reais. Apenas a reposição do plantel exigiria cerca de R$ 2,5 milhões. A perda representa seis meses de trabalho e compromete o planejamento da propriedade, além do cumprimento dos contratos.
Pini já reúne documentos e negocia com clientes, fornecedores e cooperativas de crédito para reorganizar os compromissos financeiros e buscar apoio, inclusive de agências de fomento.
“Eu quero da Copel a nossa matéria-prima de volta para nos reerguermos”, afirma.
O caso evidencia a dependência da piscicultura em relação à infraestrutura elétrica. Para o setor, a regularidade no fornecimento é fundamental para preservar os animais, reduzir custos, manter contratos e garantir a continuidade da produção no campo.
Copel atribui interrupção a temporais
Por meio de nota oficial, a Copel informou que, em 29 de setembro, das 173,7 mil unidades consumidoras que tiveram o fornecimento interrompido em decorrência das tempestades no Estado, 107,2 mil estavam no Noroeste, o equivalente a 61,7% do total.
Em São João do Ivaí e em municípios vizinhos, as equipes da Copel atenderam a 385 ocorrências relacionadas aos temporais. O atendimento contou com reforço de profissionais da Base de Serviços de Ivaiporã e eletricistas do Copel Agro, programa voltado ao suporte de produtores de proteína animal.
De acordo com a companhia, após ser acionada pelo cliente na tarde de 29 de setembro, mobilizou cinco equipes, entre técnicos de obras e eletricistas, para atender à ocorrência. Os trabalhos envolveram a reconstrução de trechos da rede danificados pelo rompimento de cabos, pela quebra de postes e pela queda de galhos sobre as linhas de distribuição em áreas de mata e de difícil acesso.
A Copel acrescentou que, em um período de 35 dias, ao longo de setembro e no início de outubro, o Paraná registrou cinco eventos climáticos consecutivos de grande intensidade, que provocaram danos à rede elétrica em diferentes regiões do Estado.
A empresa afirmou ainda que mantém investimentos na infraestrutura elétrica e um plano de contingência que inclui prevenção, monitoramento em tempo real, preparação operacional e ações para restabelecer o fornecimento de energia o mais rapidamente possível.