Análise: Trump foca campanha em si mesmo e divide republicanos nas urnas
Internacional

Análise: Trump foca campanha em si mesmo e divide republicanos nas urnas

  • 10/10/2026 11:00
  • Redação

O anúncio que definiu a eleição de 2024 dizia: “Kamala é para eles’. O presidente Trump é para você”.

Dois anos depois, a questão parece ser, em grande parte, ele próprio.

A dura provocação contra a candidata democrata não apenas atacava suas posições sobre questões relacionadas a pessoas transgênero. Ela apresentava seu adversário como o único que estava ouvindo os pedidos de ajuda dos americanos diante dos altos preços dos alimentos e da moradia.

Mas o retorno ao Salão Oval coberto de dourado e uma onda de construções pessoais destinadas a imortalizar seu legado parecem ter distraído o presidente Donald Trump dessas preocupações — que, em alguns aspectos, pioraram como resultado de suas políticas.

E a campanha acelerada de Trump, que até agora passou por Texas, Ohio, Alabama e Nebraska — supostamente com o objetivo de ajudar candidatos republicanos nas eleições de meio de mandato — vem sendo marcada por aparições pouco disciplinadas e autorreferentes, que provocam tempestades políticas, mas oferecem poucas respostas para a questão crucial da eleição.

Nos últimos dias, Trump atropelou a mensagem de campanha de seu partido ao provocar uma grande controvérsia sobre se teria sugerido que o Irã poderia “acabar com” San Diego ou Los Angeles. As respostas dos democratas não refletiram com precisão o contexto. Mas sua falta de moderação lhes deu a oportunidade de dominar a narrativa em um dos dias finais que antecedem a eleição.

Trump também vem reclamando amargamente que a Fox News não está sendo justa. Ele provocou outra controvérsia ao usar dinheiro dos contribuintes em anúncios com estilo de campanha; usou um termo pejorativo contra pessoas transgênero para atacar um candidato democrata na Carolina do Sul; e disse a uma multidão em Ohio, no fim de semana, que o Partido Republicano daria uma surra eleitoral no partido rival.

Ao promover na terça-feira (6) um projeto de construção naval em Maryland, ele, de forma desconcertante, improvisou sobre rebatizar a “mídia falsa” de “mídia artificial”, depois de liberar o termo ao chamar a inteligência artificial de “superinteligência”.

Deixando os democratas fora da mira

Trump nunca foi de seguir o roteiro. Na verdade, suas improvisações verbais muitas vezes foram uma força política. No entanto, os comentários improvisados e as provocações que antes o caracterizavam como o outsider definitivo, que desmantelava o sistema político, agora correm o risco de se tornar uma desvantagem, à medida que os eleitores o responsabilizam pelos preços elevados, pelo atoleiro no Oriente Médio e por suas esperanças frustradas.

E, em uma eleição de meio de mandato que gira em torno da impopularidade de sua presidência e de uma aparente negação da realidade econômica que separa os que têm dos que não têm, sua intensificação da campanha — até agora realizada principalmente em estados republicanos — parece não ter uma estratégia clara. Também não há evidências de que ela esteja produzindo o impacto pretendido, embora ele tenha afirmado na terça-feira, em sua rede Truth Social, que estava “virando eleições por toda parte”.

A quatro semanas de uma eleição na qual os democratas precisam apenas conquistar algumas cadeiras para recuperar o controle da Câmara, e enquanto uma disputa acirrada pelo Senado chega à reta final, Trump está cumprindo sua promessa de fazer da campanha uma questão sobre ele. E pode estar livrando os democratas — que, segundo as pesquisas, ainda não contam com a confiança dos eleitores — da responsabilidade.

Ele está tomando o partido dos bilionários da tecnologia ao dizer aos americanos que precisam abraçar os centros de dados de inteligência artificial, que muitos eleitores detestam por ocuparem grandes áreas da paisagem e consumirem enormes quantidades de eletricidade e água. Durante uma viagem para fortalecer os republicanos em Nebraska, na segunda-feira (5), ele pareceu pouco solidário com os pecuaristas irritados com sua decisão de suspender as tarifas sobre dezenas de milhares de toneladas de carne bovina estrangeira para reduzir os preços nacionais, dizendo que eles estariam em “grandes apuros se os democratas vencerem”.

Em Baltimore, na terça-feira, ele se gabou das ações que continuam atingindo recordes históricos — algo que beneficia principalmente os americanos mais ricos. E disse às famílias que temem cada visita ao posto de gasolina que esse é um “pequeno preço a pagar” para impedir que o Irã obtenha uma arma nuclear — embora ele tivesse afirmado que havia destruído completamente a capacidade nuclear de Teerã antes de iniciar a guerra.

Quando o presidente de fato tem boas notícias para divulgar, como o investimento de US$ 5 bilhões em infraestrutura feito pelo grupo sul-coreano Hanwha na Filadélfia, ele apresenta isso como uma conquista pessoal, em vez de construir uma narrativa sobre como sucessos desse tipo podem criar uma economia que beneficie os americanos que trabalham.

Seu método disperso raramente destaca da melhor maneira conquistas como restituições de impostos maiores do que o esperado e iniciativas para reduzir o custo dos medicamentos e da moradia.

“Vivendo em uma bolha”

Presidentes em exercício sempre enfrentam um ato de equilíbrio nas eleições de meio de mandato, especialmente quando os eleitores os culpam pelas condições econômicas. Mas, em vez de explicar a realidade e oferecer maneiras de melhorá-la, o presidente muitas vezes cria uma nova realidade.

“Esta é a era de ouro da América”, disse ele na terça-feira. “Estamos alcançando números que ninguém jamais imaginou serem possíveis.” Isso não apenas ignora pesquisas como a divulgada no domingo pela CBS/YouGov, que apontou que 70% dos eleitores acreditam que suas políticas estão elevando os preços dos alimentos. É também um presente para os democratas quando a gasolina está custando, em média, US$ 4,36 por galão, o diesel está em torno de US$ 6,30 por galão e as taxas de juros das hipotecas acabaram de ultrapassar 7%.

“O presidente está mostrando, o que não é incomum, que está vivendo em uma bolha”, disse a deputada democrata de Michigan Debbie Dingell à CNN na segunda-feira, referindo-se especificamente aos centros de dados de IA, mas exemplificando problemas mais amplos de Trump.

Seja ao impor candidatos fracos aos republicanos em estados como Texas e Geórgia, seja ao insistir para que seu partido eleve à condição de principal figura um presidente com índice de aprovação na casa dos 30%, a abordagem de Trump para as eleições de meio de mandato parece, como um todo, imprudente.

“Estou pedindo que vocês finjam que eu estou na cédula”, implorou o presidente aos eleitores durante seu comício no Alabama na semana passada, para alegria dos estrategistas democratas.

Mas será que pode haver algum método em meio a essa tempestade?

O tempo alcança todo líder político

Trump provavelmente estaria desperdiçando seu tempo tentando conquistar eleitores moderados e independentes, já que as pesquisas mostram que eles estão se afastando dele. Em disputas acirradas para o Senado em lugares como Maine, Michigan e Geórgia, ele pode acabar fazendo mais mal do que bem ao Partido Republicano.

Se as pesquisas estiverem corretas ao indicar disputas apertadas em estados — como Ohio e Iowa — que Trump venceu por margens de dois dígitos há dois anos, reacender aquela conexão quase mística com sua base pode oferecer ao partido a única forma viável de contenção de danos.

“Os democratas colocaram o presidente Trump na cédula”, disse o deputado republicano da Pensilvânia Ryan Mackenzie à CNN de Manu Raju na terça-feira. “O que precisamos, e o que acho que o presidente está dizendo… é que precisamos que os republicanos percebam que ele estará na cédula no sentido de que suas políticas e sua agenda estarão na cédula.”

Durante a campanha de 2016, o caos não era um fator de rejeição, mas uma vantagem. A natureza indomável de Trump, seus insultos e suas divagações absurdas destruíam normas que seus apoiadores detestavam. Todos na política achavam que ele havia acabado com sua própria campanha ao menosprezar o heroísmo do senador John McCain durante a Guerra do Vietnã. Mas o episódio mostrou, na verdade, que Trump estava à frente de seu tempo e que as elites políticas e da mídia ainda não haviam percebido que ele havia mudado as regras do jogo.

Naquela época, Trump percorria as multidões com o olhar para testar as reações às suas frases mais provocativas. Os comícios muitas vezes pareciam uma noite de festa em que alguém dizia coisas com as quais muitas pessoas concordavam, mas que jamais ousariam falar em voz alta. Quando Trump começa uma de suas tiradas hoje, pode estar tentando recuperar aquela magia.

Mas as circunstâncias mudaram uma década depois. Trump já não é o outsider; agora é uma figura do establishment, conduzindo uma guerra mal explicada e fazendo os preços subirem, apesar de suas tentativas de mostrar que não abandonou seu espírito rebelde.

Sua longevidade política é extraordinária. Mas a distância entre a “era de ouro” de Trump e a realidade vivida por muitos de seus apoiadores é evidenciada pelos altos preços das moradias e dos alimentos. Sua base também parece estar se estreitando, como observou Aaron Blake, da CNN, na terça-feira, citando pesquisas do New York Times/Siena College que mostram entre 9% e 16% dos eleitores republicanos dizendo que apoiavam o candidato democrata em estados importantes como Alasca, Iowa, Kansas, Ohio e Texas.

As pesquisas podem mudar nos últimos dias e, em 3 de novembro, elas não terão importância. É quando os eleitores responderão à pergunta que define a campanha de Trump em 2026.

  • Fonte: CNN Brasil
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