Análise: Série de erros deixou Arábia Saudita exposta a conflito com Iêmen
- 10/10/2026 10:41
- Redação
O príncipe herdeiro da Arábia Saudita, Mohammed bin Salman, queria transformar seu reino em um polo de atração para investimentos, turismo e os maiores eventos esportivos do mundo.
Agora, drones e mísseis lançados do Iêmen atingem cidades sauditas, arrastando o reino ainda mais para a turbulência regional que ele esperava deixar para trás.
A guerra civil no Iêmen eclodiu novamente e se intensificou significativamente no mês passado, rompendo anos de relativa calma.
Há 11 anos, a Arábia Saudita tenta conter o conflito em sua fronteira sul por meio de força militar e diplomacia — primeiro travando guerra contra os rebeldes Houthis, aliado do Irã, e depois buscando negociações de paz com o grupo e retomando o diálogo diplomático com seu apoiador, o Irã.
Apesar dos esforços, uma série de erros de cálculo deixou Riad exposta a novos conflitos no Iêmen, segundo especialistas.
A Arábia Saudita encerrou sua parceria de longa data com os Emirados Árabes Unidos no final do ano passado devido ao apoio do país a uma força rival no Iêmen, avaliou mal a disposição do presidente Donald Trump de apoiá-la caso necessitasse de ajuda e enfrentou dificuldades para organizar as facções armadas fragmentadas que combatem os Houthis no Iêmen.
Agora, Riad tenta recuperar o equilíbrio apoiando seus parceiros iemenitas em mais uma campanha contra os Houthis, uma operação denominada “Alvorada do Iêmen”.
As ambições do príncipe Mohammed de transformar seu reino já enfrentaram diversos desafios desde sua ascensão ao poder, há mais de uma década.
Hoje, elas sofrem ainda mais pressão à medida que ataques em múltiplas frentes contra a infraestrutura petrolífera reduzem as exportações, grandes projetos são cancelados e o reino é arrastado para uma guerra sem uma saída clara.
Pelo menos três pessoas, incluindo um piloto saudita, morreram nesta semana após forças Houthis atacarem vários aeroportos no reino, segundo a Arábia Saudita.
A instabilidade regional forçou a suspensão de festivais de cinema repletos de estrelas, cerimônias de premiação e shows musicais neste ano.
Enquanto isso, a principal conferência financeira do reino — que deve atrair líderes empresariais de alto escalão no final de outubro — enfrenta pressões em meio aos ataques.
“Eles só precisavam que o conflito permanecesse o mais longe possível, sem que os Houthis atrapalhassem seus planos de transformação”, disse à CNN Michael Ratney, ex-embaixador dos EUA na Arábia Saudita. “Agora, eles se veem bem no meio disso.”
Quando aviões de guerra sauditas atingiram um carregamento de veículos militares enviado ao Iêmen pelos Emirados Árabes Unidos no ano passado, uma aliança de uma década entre as duas nações — que combatiam a influência do Irã no Iêmen — rompeu-se, deixando o reino para enfrentar a crise sozinho após a retirada das forças de Abu Dhabi.
A ruptura com os Emirados chocou a região. A Arábia Saudita lançou uma campanha midiática incomum contra seu vizinho, acusando-o de alimentar a instabilidade no Sudão e no Iêmen.
Comentaristas sauditas retrataram publicamente os Emirados como um irmão mais novo rebelando-se contra um mais sensato.
A Arábia Saudita é a “cabeça e o corpo” sobre os quais repousa a estabilidade regional, escreveu o proeminente jornalista saudita Dawood Al-Shirian em janeiro. “Se ela tropeça, todo o sistema é desestabilizado e o Golfo se fragmenta.”
Enquanto Riad buscava afirmar sua hegemonia no Golfo, a situação no terreno no Iêmen mudava.
O cessar-fogo de quatro anos com os Houthis já era frágil, e a rápida retirada dos Emirados Árabes Unidos — exigida por Riad — deixou milhares de combatentes, que haviam passado uma década sob o comando de Abu Dhabi, desorientados com a estratégia saudita.
Combatentes aliados aos Emirados afirmam que a saída de Abu Dhabi criou um vácuo de poder que os sauditas não preencheram.
“Não houve uma transição adequada quando os emiradenses partiram”, disse uma autoridade do sul do Iêmen, que pediu anonimato para falar livremente à CNN. “Foi assustador ver como as coisas mudaram. O sistema de comando e controle dos emiradenses era muito eficiente, e os sauditas não substituíram essa eficiência à altura.”
A CNN entrou em contato com o governo saudita para obter comentários sobre se as forças que combatem os Houthis em solo receberam apoio suficiente e se houve uma transição adequada.
Oito semanas após a retirada dos Emirados Árabes Unidos, os EUA e Israel iniciaram uma guerra contra o Irã, matando o Líder Supremo, Aiatolá Ali Khamenei.
Essas ações desencadearam um conflito que mergulhou a região em uma turbulência sem precedentes e colocou os aliados de Washington — incluindo a Arábia Saudita — na mira do Irã.
O momento foi inoportuno para a Arábia Saudita, segundo vários especialistas.
Após lidar com o movimento separatista apoiado pelos Emirados Árabes Unidos no Iêmen, os EUA e Israel deflagraram uma guerra regional.
Além disso, apesar de anos de esforços para evitar a eclosão da guerra no Iêmen, esperava-se que a pressão exercida por Trump sobre o Irã acabasse por provocar uma ofensiva dos Houthis contra o reino.
“Os sauditas tiveram de reagir após serem atacados por uma força inimiga em seu território… portanto, uma resposta era inevitável”, disse Ratney, ex-embaixador dos EUA.
Mesmo enquanto mísseis iranianos atingiam o reino a partir do leste, a atenção saudita concentrava-se no sul.
Os Houthis, ainda formalmente em trégua com Riad, pareciam não querer ajudar seus parceiros iranianos. Em vez disso, Teerã acabou atraindo os sauditas para o conflito.
Em julho, o Irã enviou um avião comercial para transportar uma delegação Houthi ao funeral de Khamenei, em Teerã, desafiando o bloqueio aéreo saudita ao Iêmen.
Riad atacou o aeroporto de Sanaa, controlado pelos Houthis, para impedir o pouso da aeronave.
O grupo rebelde retaliou declarando o fim da trégua e anunciou um bloqueio naval a navios sauditas.
Também iniciou uma ofensiva relâmpago ao longo da costa do Iêmen, tomando territórios estratégicos no Estreito de Bab al-Mandeb, na maior escalada de tensão desde 2022.
Os Houthis atacaram instalações petrolíferas e oleodutos sauditas, interrompendo o fornecimento de petróleo bruto e provocando uma forte alta nos preços.
As forças sauditas responderam com centenas de ataques aéreos.
“Os sauditas cometeram vários erros e falhas”, disse à CNN Ahmed Nagi, analista sênior para o Iêmen do “think tank” International Crisis Group, observando que Riad não havia se preparado para uma ofensiva Houthi e carecia de coordenação com as forças iemenitas aliadas que herdou dos Emirados Árabes Unidos.
“As áreas que perderam geraram problemas de moral entre seus aliados e, agora, isso representa um grande desafio para os sauditas, uma vez que os Houthis possuem armamento mais avançado, capaz de atingir várias cidades na Arábia Saudita”, disse ele.
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Outro erro de cálculo da Arábia Saudita foi sua dependência do apoio contínuo dos EUA, afirmam especialistas.
Apesar de ter assinado um novo pacto de defesa com Washington no ano passado e de ter sido designada pelos EUA como um “Principal Aliado Extra-Otan”, Riad tem se sentido decepcionada com o que percebe como um comprometimento decrescente dos EUA com a sua segurança.
O príncipe Mohammed conversou duas vezes com Trump no mês passado, instando-o a atacar os Houthis — segundo fontes informaram à CNN na ocasião —, mas Trump recusou-se a intervir.
Em vez disso, Washington reuniu-se com os Houthis em Omã, buscando preservar seu próprio cessar-fogo com o grupo, o qual deixou claro que sua guerra era apenas contra a Arábia Saudita, permitindo assim que embarcações dos EUA navegassem livremente pelo Mar Vermelho.
Para uma força militar que construiu toda a sua “visão de mundo” em torno da parceria com os EUA, os sauditas estão percebendo o quão imprevisível Trump é, disse Ratney.
“Nunca fez parte da concepção ou da estrutura de suas forças armadas travar essas guerras por conta própria”, afirmou ele. “Sob uma presidência americana normal, se algo assim acontecesse, teríamos ajudado nosso parceiro em um processo que seria racional e ponderado”, afirmou Ratney
“Agora, não temos esse processo, e tudo se resume, no fim das contas, a: o que Trump pensa? E, como resultado, os sauditas provavelmente se sentem expostos”, acrescentou ele.
Desde então, a Arábia Saudita buscou outras parcerias. No mês passado, o príncipe Mohammed viajou ao Egito para se reunir com o presidente Abdel Fattah el-Sisi e, algumas semanas depois, convidou o vice-presidente dos Emirados Árabes Unidos, xeique Mansour bin Zayed, a Riad para discutir desdobramentos regionais.
A França concordou em mobilizar recursos de defesa, incluindo pessoal militar.
O Reino Unido anunciou que enviaria uma aeronave para auxiliar no reabastecimento de jatos sauditas.
Mais de 100 conselheiros militares americanos estão em campo fornecendo inteligência e apoio à identificação de alvos, sob um comando de forças conjuntas recém-criado.
Na segunda-feira (5), a Arábia Saudita, a Turquia e o Paquistão concordaram em “ativar medidas de dissuasão coletiva” no âmbito do Acordo de Defesa Conjunta de Meca, após uma reunião de emergência em Riad.
O pacto, estabelecido no início deste ano, visa coordenar a cooperação em defesa e segurança entre os três países.
Forças leais aos Emirados Árabes Unidos também parecem estar participando da ofensiva, um sinal de pelo menos um degelo parcial nas relações entre o reino e os Emirados.
No entanto, especialistas alertam que o apoio externo e os ganhos iniciais do governo iemenita, apoiado pela Arábia Saudita, não resolverão o conflito.
Disputas internas continuam sendo comuns entre as facções, e ainda não há uma definição clara sobre o desfecho político desejado.
Segundo analistas, uma ofensiva sustentada contra as forças apoiadas pelo Irã exigiria organização, respaldo regional, financiamento e logística — elementos que a atual coalizão ainda não demonstrou capacidade de manter.
“Eles precisam unificar seus centros de comando e resolver as divergências entre as várias facções do grupo”, disse Hisham Al Omeisy, consultor sênior sobre o Iêmen no Instituto Europeu da Paz, à jornalista Becky Anderson, da CNN. “Os ganhos territoriais que obtiveram não significariam nada se o governo iemenita (apoiado pela Arábia Saudita) não conseguisse manter o controle sobre essas áreas.”
No entanto, muitos especialistas afirmam que os combates no Iêmen estão ligados à disputa dos EUA com o Irã; enquanto o conflito entre Washington e Teerã persistir, os iranianos continuarão tendo um forte incentivo para ver os Houthis desestabilizarem a Arábia Saudita.
Segundo analistas, os países do Golfo poderiam conseguir uma solução diplomática separada com o Irã ou intensificar seus ataques militares para eliminar a liderança Houthi.
“Nenhum desses cenários resolve o conflito no Iêmen a curto prazo”, disse Ratney. “Os sauditas terão simplesmente que encontrar um caminho imperfeito a seguir.”