Ebola avança no Quênia apesar de esforços de prevenção e acende alerta
Internacional

Ebola avança no Quênia apesar de esforços de prevenção e acende alerta

  • 10/10/2026 10:51
  • Redação

O Quênia passou meses se preparando para o Ebola — uma das doenças virais mais letais do mundo —, realizando a triagem de centenas de milhares de viajantes e treinando cerca de 5 mil profissionais de saúde para o caso de a doença cruzar as fronteiras.

Então, o Ebola chegou.

Um homem, que estava doente há semanas e teve a infecção por Ebola confirmada posteriormente, saiu do leste da República Democrática do Congo, atravessou a fronteira terrestre para a vizinha Uganda e viajou de avião para Nairóbi, passando pela triagem sanitária nos aeroportos de ambos os países sem ser detectado.

Um parente e um amigo o levaram diretamente do aeroporto para o Nairobi Hospital, um hospital particular na capital queniana.

Quando ele chegou, em 3 de outubro, apresentava febre, calafrios, fadiga intensa, dores musculares e sangramento sob a pele, segundo o Ministério da Saúde do Quênia.

Os médicos o isolaram e exames confirmaram mais tarde a presença do vírus Bundibugyo, uma variante do Ebola.

Ele morreu dias depois, no início desta semana, e as autoridades de saúde vêm tentando identificar qualquer pessoa que possa ter sido exposta ao vírus.

Sua trajetória demonstra a rapidez com que um surto concentrado na RD Congo pode se transformar em um problema regional mais amplo.

Trata-se, atualmente, do maior surto de Ebola já registrado no país. Até a última quarta-feira (30), a OMS (Organização Mundial da Saúde) havia contabilizado 8.728 casos confirmados e 4.205 mortes no país.

Foram registrados casos em sete províncias. A OMS afirma que a transmissão permanece intensa e classifica como alto o risco para os países que compartilham fronteiras terrestres com a RD Congo.

A RD Congo não é o único país afetado. Uganda registrou 20 casos antes de seu Ministério da Saúde declarar o país livre de Ebola, em 28 de julho, enquanto a França registrou um caso importado, sem relatos de casos adicionais.

O Quênia é agora o quarto país a confirmar a presença do vírus Bundibugyo.

Oyewale Tomori, ex-virologista regional da OMS para a África, disse à CNN que o caso no Quênia serve de alerta de que mais infecções podem cruzar fronteiras enquanto a transmissão permanecer alta na RD Congo.

“A África é um campo aberto, dividido em países por fronteiras porosas e com vigilância insuficiente”, disse ele. “O caso do Quênia é um alerta para mais casos no futuro.”

Por que é difícil conter a propagação transfronteiriça

O homem queniano, que vivia na RD Congo há sete anos, passou por três países em cerca de dois dias.

Em 2 de outubro, ele viajou por terra passando por Beni, na província de Kivu do Norte, no leste da RD Congo até Kampala, capital de Uganda, antes de seguir de avião para Nairóbi no dia seguinte, segundo o Ministério da Saúde do Quênia e a OMS.

As autoridades não informaram a que tipo de triagem — se é que houve alguma — ele foi submetido na fronteira terrestre entre a RD Congo e Uganda.

A OMS afirma não estar claro em que momento da viagem ele apresentou sintomas de Ebola.

A agência diz que a duração de um mês de sua doença sugere que, inicialmente, ele provavelmente estava com outro problema de saúde e pode ter contraído Ebola mais tarde, enquanto buscava atendimento.

Uganda havia restringido temporariamente viagens não essenciais através de sua fronteira com a RD Congo, depois que a maioria de seus casos foi importada daquele país.

O Ministério da Saúde de Uganda informou que o homem permaneceu menos de 24 horas no país e apresentava temperatura normal durante a triagem realizada antes de embarcar no Aeroporto Internacional de Entebbe, próximo a Kampala.

O ministério declarou que estava intensificando a vigilância transfronteiriça e o compartilhamento de informações após o registro do caso.

Em Nairóbi, o Ministério da Saúde do Quênia afirma que o homem passou por uma “triagem padrão de saúde pública” no Aeroporto Internacional Jomo Kenyatta.

O relato do ministério indica que ele não foi identificado como um caso suspeito de Ebola durante a triagem.

A Autoridade Aeroportuária do Quênia informou à CNN que o Serviço de Saúde Portuária, vinculado ao Ministério da Saúde, é o responsável pela triagem de passageiros.

A CNN questionou as autoridades de saúde de Uganda e do Quênia sobre quais verificações ele passou e se sua viagem recente vinda da RD Congo deveria ter motivado uma avaliação mais aprofundada.

O desafio vai além dos aeroportos e das passagens de fronteira oficiais.

A OIM (Organização Internacional para as Migrações) informou à CNN que o fluxo de pessoas entre as áreas do leste da RD Congo afetadas pelo Ebola e os países vizinhos continua intenso, com deslocamentos frequentes por motivos de trabalho, comércio e visitas familiares.

Nem todo esse movimento ocorre por meio de postos de fronteira oficiais.

A OIM afirmou que algumas pessoas utilizam rotas informais muito mais difíceis de monitorar; portanto, a triagem em aeroportos e fronteiras terrestres não detectará todos os viajantes infectados, especialmente antes do surgimento dos sintomas.

A organização ressaltou que os países também precisam monitorar casos nas comunidades, realizar testes rápidos, rastrear contatos e compartilhar informações entre fronteiras — a exemplo da resposta adotada no Quênia —, de modo a identificar precocemente casos importados e conter a propagação da doença. EBOLA: CNN entra em ala de infectados na RD Congo | CNN 360º

Por que a triagem de saúde pode deixar passar casos

Oyewale Tomori, ex-virologista regional da OMS para a África, estava cético quanto à eficácia da triagem nas fronteiras por si só, comparando as falhas do sistema a “usar uma rede de gol de futebol para capturar um mosquito”.

Christian Happi, professor de biologia molecular e genômica na Universidade Redeemer, na Nigéria — cujo laboratório ajudou a confirmar o primeiro caso de Ebola no país em 2014 —, afirmou que a medição de temperatura pode deixar passar um viajante infectado que não apresente febre naquele momento.

“Se você não está com febre ao passar pelo posto de saúde no aeroporto, como o profissional de saúde vai detectar isso?”, questionou ele.

As diretrizes atuais da OMS para a RD Congo recomendam a realização de triagem de saída em aeroportos, portos e passagens terrestres, incluindo, no mínimo, um questionário sobre possível exposição e a medição da temperatura.

A organização afirma que casos “suspeitos, prováveis ​​e confirmados”, bem como contatos avaliados como tendo sofrido exposição, não devem realizar viagens internacionais, exceto em casos de retirada médica.

Happi defende que as autoridades devem ir além e exigir que as pessoas que viajam da RD Congo apresentem um teste negativo para Ebola antes do embarque.

“Ninguém sem um teste negativo para Ebola deveria embarcar em um voo”, disse ele. Ele também afirmou que os países precisam ter capacidade para testar viajantes com muito mais rapidez nos aeroportos.

A proposta dele vai além das orientações da OMS, que não exigem testes negativos para Ebola de todos os viajantes que deixam uma área afetada.

A OMS também desaconselha restrições mais amplas de viagem ou comércio envolvendo os países afetados.

A CNN questionou a Organização e osCentros Africanos de Controle e Prevenção de Doenças sobre a probabilidade de o surto se propagar ainda mais além das fronteiras e sobre o que os países devem fazer enquanto os casos persistem na RD Congo.

É por isso que a resposta não se limita à fronteira: quando a triagem deixa passar um caso, a rapidez torna-se fundamental.

O maior desafio: impedir a propagação contínua

No Quênia, autoridades de saúde estão tentando identificar qualquer pessoa que possa ter sido exposta e prevenir novas transmissões.

Elas também intensificaram a triagem no Aeroporto Internacional Jomo Kenyatta, em Nairóbi.

Testes preliminares realizados em outro paciente, de 20 anos, que havia viajado da RD Congo passando por Uganda, deram negativo para Ebola na quinta-feira (8), segundo autoridades quenianas.

A detecção rápida é particularmente importante porque não existe vacina licenciada nem tratamento específico aprovado para essa forma de Ebola, embora possíveis vacinas e tratamentos estejam sendo testados.

Christian Happi, professor de biologia molecular e genômica na Universidade Redeemer, na Nigéria ,destacou a experiência do país durante a epidemia de Ebola na África Ocidental em 2014, quando um caso importado em Lagos — uma das maiores cidades da África — resultou em 20 casos e oito mortes antes que a transmissão fosse interrompida.

Ele afirmou que a detecção rápida e a coordenação estreita foram fundamentais para conter o surto.

Para Happi, a experiência da Nigéria serve de lição para os países que agora acompanham o surto na RD Congo.

“Não será fácil detectar todas as pessoas que cruzam as fronteiras”, disse ele. “O que importa é a rapidez com que os países detectam e, em seguida, a rapidez com que conseguem conter os casos importados.”

 

  • Fonte: CNN Brasil
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