Cabul enfrenta escassez extrema e pode ficar sem água até 2030
Internacional

Cabul enfrenta escassez extrema e pode ficar sem água até 2030

  • 10/10/2026 07:00
  • Redação

Shazia sabe como será a vida em uma grande cidade que ficou sem água porque ela já está vivendo essa realidade — e é insuportável.

Aos 34 anos, ela mora no bairro de Khair Khana, na capital do Afeganistão, Cabul, com seus três filhos e o marido, que sobrevive vendendo produtos nas ruas. Eles não têm água encanada e não podem pagar pela água dos caminhões-pipa, que muitas vezes são mais numerosos que os carros nas ruas da cidade.

Todos os dias, ela e os filhos precisam caminhar até uma mesquita local e enfrentar filas de uma hora para encher baldes em uma bomba manual, antes de voltar para casa carregando o peso. Suas costas doem, e ela odeia ter que tirar os filhos da escola depois das aulas, “mas não temos escolha”, disse.

Cabul caminha para ser a primeira cidade moderna a ficar sem água, e isso pode acontecer já em 2030, segundo um relatório recente da organização sem fins lucrativos Prosper Global. Mas, para Shazia e muitos outros moradores dessa cidade em rápida expansão, esse dia já chegou. Eles estão na linha de frente de uma crise hídrica urbana que se agrava e que não se limita a Cabul.

Cidades ao redor do mundo — de Corpus Christi, no Texas, à capital do Irã, Teerã — estão à beira de uma escassez de água tão grave que seus moradores se preparam para o “dia zero”, o momento em que as torneiras deixam de fornecer água para grandes partes da cidade.

Essas crises costumam seguir um roteiro conhecido: populações em rápido crescimento colidindo com uma infraestrutura hídrica insuficiente e subfinanciada. Por trás de tudo isso está a crise climática, provocando um clima mais quente e seco e desequilibrando o ciclo da água.

Entre todas as áreas urbanas que enfrentam o risco de chegar ao “dia zero”, a situação de Cabul pode ser a mais grave. É uma das cidades que mais crescem no mundo, localizada em um dos países mais vulneráveis às mudanças climáticas. O Afeganistão também sofreu décadas de conflitos, e a ajuda internacional praticamente secou desde o retorno do Talibã ao poder, em 2021.

Cabul está diante de uma “catástrofe humanitária”, afirmou Mohd Faizee, professor do Instituto de Água, Meio Ambiente e Saúde da Universidade das Nações Unidas. “Temos apenas uma janela de tempo limitada.”

Quem quiser entender como será o futuro da água em um mundo em transformação deveria olhar para Cabul.

A busca por água debaixo da terra

Nas ruas de Cabul, a água é um dos principais assuntos das conversas, disse Mirza Jan, que mora no bairro de Taimani. Todos são afetados.

Quando a família de Jan comprou a casa, em 1990, era possível tirar água manualmente de um poço raso usando um balde. Ao longo dos anos, ele precisou cavar o poço cada vez mais fundo, à medida que ele continuava secando. Agora, o poço tem mais de 210 metros de profundidade — um empreendimento caro que só foi possível graças ao dinheiro enviado por seus dois filhos, que moram nos Estados Unidos.

À medida que as águas subterrâneas diminuem, pessoas como Jan, que conseguem arcar com o custo inicial, continuam cavando cada vez mais fundo; quem não pode fazer isso depende da cara água dos caminhões-pipa ou das bombas manuais instaladas nas mesquitas. Nenhuma dessas opções é sustentável. “É uma catástrofe invisível em formação”, disse Jan. “Em breve, a cidade ficará completamente sem água.”

Cabul não deveria enfrentar escassez de água. Espalhada por um amplo vale, a cidade é cercada pelo Hindu Kush do Himalaia.

Os picos acidentados da parte afegã dessa enorme cadeia montanhosa funcionam como torres de água. O derretimento da neve e do gelo das geleiras alimenta o rio Cabul, que atravessa a cidade, e recarrega os aquíferos, que formam a espinha dorsal do sistema de abastecimento de água da cidade, fornecendo água para 80% dos moradores. Apenas um quinto da população tem acesso à água encanada.

Na última década, porém, os níveis das águas subterrâneas despencaram quase 30 metros, segundo a Prosper Global. A água agora está sendo bombeada muito mais rapidamente do que consegue ser reposta, deixando um déficit estimado em mais de 43,9 milhões de metros cúbicos por ano. Quase metade dos poços artesianos da cidade secou. “Em muitos bairros, a água já acabou”, disse Faizee.

O problema é resultado da demanda crescente de casas, estufas e empresas. Mas a crise climática provocada pela atividade humana também desempenha um papel. O país enfrentou seis anos consecutivos de seca, sendo o ano passado um dos mais severos. A quantidade de neve registrada no Afeganistão no final do ano passado atingiu o menor nível em 25 anos, segundo dados da ONU, e isso faz parte de uma tendência de longo prazo que registrou uma queda de quase 20% nos níveis de neve entre 2014 e 2020.

Quando a chuva finalmente cai, as superfícies duras e impermeáveis de Cabul impedem que a água reabasteça os aquíferos. Em vez disso, ela atravessa a cidade na forma de enchentes repentinas, destruindo casas, matando pessoas e simplesmente indo embora.

O desaparecimento das águas subterrâneas de Cabul não é uma crise, disse Najibullah Sadid, pesquisador de água e meio ambiente que vive na Alemanha e integra a Afghanistan Water and Environment Professionals Network. A palavra “crise” implica um choque de curto prazo no sistema. Ele prefere o termo “falência hídrica”, porque “você está ficando sem um recurso que não pode mais ser recuperado”.

Expansão sem controle

Said Agha e sua família moram em um apartamento no bairro densamente povoado de Karte Naw, em Cabul. Ele ganha um salário razoável trabalhando para uma empresa, mas poucos escapam da crise hídrica da cidade.

O prédio onde mora abriga 14 famílias, mas depende de um único poço que seca a cada poucos meses. Na maior parte do tempo, eles só têm água encanada por curtos períodos. Às vezes, o abastecimento fica interrompido por dias.

Agha está convencido de que os aquíferos da cidade vão secar em breve e não sabe o que fazer. Seu trabalho depende de Cabul, e deixar a cidade seria uma “calamidade”, disse ele.

Cabul está crescendo verticalmente, com prédios de vários andares sendo construídos sobre estruturas já existentes. Em vez de uma única família ocupar um terreno, agora há dezenas delas, aumentando drasticamente a pressão sobre recursos hídricos que já estão sobrecarregados, disse Sadid.

Cabul é uma das cidades que mais crescem no mundo. Especialistas estimam que sua população tenha saltado de menos de 1 milhão de habitantes em 2001 para 6 milhões atualmente.

As pessoas foram atraídas para a cidade por diferentes motivos. Muitas retornaram após a queda do Talibã, em 2001, na esperança de encontrar melhores oportunidades. Mais recentemente, houve um aumento da população devido à expulsão em larga escala de afegãos dos países vizinhos, Irã e Paquistão, em meio ao aumento das tensões regionais.

As pessoas também estão migrando de regiões rurais para a cidade em busca de trabalho e, às vezes, ironicamente, de uma situação melhor em relação à água.

À medida que a água acaba, os moradores pagam

Nos últimos dois anos, Asadullah Ahmadi tem gastado pelo menos 150 afeganes (US$ 2,35) por dia — uma parcela significativa de sua renda — para conseguir água suficiente para sua família de sete pessoas. Mesmo assim, a água que recebem é suja e precisa ser fervida. “Isso não é sustentável, e não sei por quanto tempo poderemos pagar por isso”, disse ele.

Ficar sem água é caro. Muitos moradores de Cabul, como Ahmadi, são obrigados a depender de água transportada por caminhões de empresas privadas. Algumas dessas empresas são motivadas pelo desejo de ajudar as pessoas, mas outras estão simplesmente atrás de grandes lucros, disse Marianna von Zahn, ex-diretora de programas da Prosper Global no Afeganistão. Elas bombeiam água subterrânea e depois a revendem aos moradores a preços inflacionados.

Os impactos são mais graves para os moradores que já enfrentam altos níveis de pobreza, disse um funcionário da ONU baseado no Afeganistão. Essa é “a parte mais perigosa” da situação, afirmou.

Analistas estimam que as pessoas mais pobres estejam gastando até 30% de sua renda total com água. A ONU considera acessível um custo de água equivalente a 3% ou menos da renda familiar.

Para piorar uma situação já desesperadora, até 80% das águas subterrâneas em grandes áreas da cidade estão contaminadas, tanto por esgoto quanto por substâncias que ocorrem naturalmente, como o arsênio. É “outra crise oculta”, disse Jalal Naser Faqiryar, especialista em água radicado na Holanda e ex-diretor-geral da Bacia do Rio Cabul.

Os moradores de Cabul têm poucas opções. Ahmadi teme que precise abandonar sua casa, mas “mesmo que eu vá embora, para onde posso ir em busca de água? A cidade inteira está sofrendo com esse problema”.

Alguns podem deixar Cabul de vez, mas a escassez de água é comum em muitas partes do Afeganistão. E deixar o país é extremamente difícil. O Irã e o Paquistão, países vizinhos, estão devolvendo afegãos à força e, mais longe, na Europa, a forte retórica anti-imigração torna a situação muito complicada.

“Não há realmente para onde ir”, disse o funcionário da ONU.

Tentativas de aproveitar rios e chuvas

Há planos para ajudar a aliviar a catástrofe que se aproxima em Cabul por meio do aproveitamento das águas superficiais.

A represa de Shahtoot, que seria construída em um afluente do rio Cabul, poderia fornecer água para mais de 2 milhões de pessoas na cidade. A Índia concordou em financiar o projeto, mas ele foi paralisado após o retorno do Talibã ao poder, em 2021.

O Talibã insiste que a obra será realizada em breve, mas a construção ainda não começou e enfrenta forte oposição do Paquistão, que afirma que a represa reduzirá significativamente a quantidade de água que recebe do rio Cabul.

Outro plano prevê uma tubulação de 200 quilômetros que transportaria água do rio Panjshir para Cabul, abastecendo 2 milhões de moradores da cidade. Mas o projeto ainda está na fase de levantamento e elaboração do projeto.

Mesmo que esses projetos avancem, levaria anos para construí-los. Além disso, seriam necessárias estações de tratamento e uma rede adequada para levar a água até as casas das pessoas. “O Talibã não tem capacidade para lidar com um problema desse tamanho, e eles sabem disso”, disse Faizee.

A situação da água em Cabul está “caminhando para uma crise grave”, disse Matiullah Abid, porta-voz do Ministério de Energia e Água do Afeganistão. Segundo ele, o ministério está tomando medidas, incluindo a construção de represas e milhares de poços na cidade para recarregar as águas subterrâneas, o controle do uso comercial da água e a conclusão, em 2024, da represa de Shah wa Arous, projetada para abastecer 20 mil famílias.

Há muitos esforços em andamento para enfrentar o problema da água, mas “essas medidas exigem tempo e recursos”, acrescentou Abid.

As pessoas “continuam sofrendo em silêncio”

O próprio Talibã é uma complicação adicional na questão da água em Cabul. O grupo não é reconhecido como um governo legítimo pela maior parte da comunidade internacional devido às suas violações dos direitos humanos, incluindo a retirada de direitos das mulheres e meninas.

Como resultado, a ajuda internacional despencou, enquanto Cabul e outras partes do Afeganistão se aproximam de um desastre hídrico. O mundo está “assistindo à crise se desenrolar” em vez de evitá-la agora, disse Faizee. “Mais tarde, pagará pela resposta emergencial, como o fornecimento de água por caminhões-pipa, surtos de doenças e deslocamentos populacionais.”

Por enquanto, as pessoas vão “continuar sofrendo em silêncio”, disse Susanne Schmeier, professora de cooperação, direito e diplomacia da água no IHE Delft Institute for Water Education, na Holanda.

Cabul mostra como é um “dia zero”. Não se trata de todas as torneiras secarem de repente, mas de uma catástrofe que avança lentamente e obriga os moradores a tomar decisões cada vez mais difíceis.

Eles devem investir dinheiro em poços caros e cada vez mais profundos, que inevitavelmente também vão secar, ou depender de caminhões-pipa particulares, que os empurram ainda mais para a pobreza? Devem fazer longas e exaustivas caminhadas diárias até bombas manuais, afastando os filhos dos estudos e das brincadeiras e, ao mesmo tempo, colocando em risco sua saúde física e sua segurança? Ou devem deixar a cidade e seus empregos, correndo o risco de encontrar uma situação hídrica igualmente ruim em outro lugar?

O que está acontecendo oferece um retrato do que pode estar por vir para muitas outras cidades, à medida que as mudanças climáticas se encontram com sistemas urbanos de abastecimento de água construídos para um mundo muito diferente.

Para os moradores de Cabul, é um trauma sobre outro trauma. “Anos atrás, estávamos fugindo de bombas e foguetes em Cabul”, disse o morador Said Agha. “Agora podemos ter que fugir por causa da falta de água.”

  • Fonte: CNN Brasil
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