Premiê da Índia quer que o país impulsione a era da IA; moradores resistem
- 10/10/2026 06:00
- Redação
A vista do apartamento do engenheiro indiano Tushar Shetty, em Mumbai, reflete uma tensão que se desenrola em todo o mundo à medida que o “boom” da inteligência artificial impulsiona uma onda sem precedentes de construção de centros de dados.
O que antes era uma área de vegetação diante de sua janela, no 21º andar, agora é uma cicatriz de terra vermelha onde árvores foram derrubadas para dar lugar a uma instalação da Amazon — parte de um investimento planejado de US$ 21 bilhões da gigante de tecnologia em infraestrutura de IA na Índia até 2030.
“Eu não teria comprado o imóvel se soubesse disso”, disse ele, aos 46 anos, lamentando uma compra feita há apenas cinco meses.
Dos subúrbios da Virgínia às periferias de Amsterdã e Dublin, moradores têm se rebelado cada vez mais contra a proliferação de centros de dados para IA, queixando-se de ruído, aumento do consumo de eletricidade, estresse hídrico e da industrialização de bairros residenciais.
Essa resistência ganha força na Índia, onde Amazon, Google e Microsoft estão investindo bilhões em instalações que promovem a ambição do primeiro-ministro Narendra Modi de hospedar “os dados de todo o mundo”, com projetos que se estendem de Maharashtra, no oeste, a Andhra Pradesh, no sul.
Incapaz, por enquanto, de competir com os modelos de ponta que surgem nos EUA e na China, a Índia segue um caminho diferente, apostando que o domínio da infraestrutura física da inteligência artificial pode se mostrar tão valioso quanto.
Essa estratégia está no centro da proposta de investimentos de Modi, num momento em que o papel do país como “escritório de apoio” (back office) global perde o brilho, e a ambição esbarra em preocupações com a escassez de recursos e com as comunidades que vivem ao lado da infraestrutura que sustenta a economia digital.
A Índia detém 4% da água doce do mundo para 18% da população global, e os centros de dados estão se concentrando em cidades que já sofrem com a escassez hídrica. A S&P Global estima que entre 60% e 80% dos centros de dados indianos poderão enfrentar alto estresse hídrico nesta década.
Em 2025, os centros de dados consumiram cerca de 150 bilhões de litros de água — um volume que deve mais do que dobrar até 2030, segundo a empresa de pesquisas Mordor Intelligence.
O projeto da Amazon perto de Mumbai está se tornando um dos pontos de maior conflito na Índia. Entrevistas da Reuters com mais de duas dezenas de moradores e uma análise de correspondências oficiais revelam preocupações crescentes de que o projeto sobrecarregue o abastecimento local de energia e água e gere ruídos prejudiciais à saúde, especialmente para crianças e idosos.
A Amazon e as autoridades locais defenderam veementemente o projeto, afirmando que ele não sobrecarregará os serviços públicos, uma vez que a água e a energia virão de fontes dedicadas. No entanto, a disputa desencadeou protestos nas ruas e atraiu políticos da oposição para a causa.
O governo de Modi também organizou uma defesa pública, promovendo os data centers na internet como “os motores invisíveis que impulsionam a vida digital da Índia” e argumentando que as tecnologias modernas utilizam água e eletricidade de forma mais eficiente.
O Ministério de Eletrônicos e Tecnologia da Informação, o Gabinete do Primeiro-Ministro e o gabinete do ministro-chefe de Maharashtra não responderam aos pedidos de comentário.
Em 8 de setembro, centenas de moradores, incluindo idosos, reuniram-se perto do local do projeto segurando cartazes com os dizeres “Data centers são vampiros de energia”. Eles querem que o projeto seja transferido para outro lugar.
“Se o data center não for instalado, nós ficaremos… Se ele avançar, nós nos mudaremos”, disse Vasudha Shetty, de 62 anos, que comprou um apartamento perto da instalação planejada — que ocupará uma área de cerca de 22 hectares (54 acres) — mas deseja priorizar uma aposentadoria tranquila.
Mais de mil moradores que vivem perto do local afirmam que o projeto foi aprovado sem uma consulta significativa à população.
Na Virgínia, onde se concentra o maior número de data centers do mundo, a Amazon suspendeu uma proposta de 2024 para três instalações devido a preocupações com ruído e proximidade de residências, alegando que precisava de mais tempo para dialogar com a comunidade. Os moradores de Mumbai dizem que nunca tiveram essa oportunidade.
Internamente, a Amazon não demonstra grande preocupação, pois autoridades governamentais indicaram que os protestos perderão força, segundo uma pessoa a par do planejamento da empresa. Ainda assim, a companhia está elaborando planos de relacionamento com a comunidade para abordar as preocupações relacionadas a ruído, água e energia.
“A construção de data centers tem um custo. A Amazon, em nível global, está preparada para trabalhar com a comunidade e minimizar quaisquer transtornos”, disse a fonte.
“Por enquanto, não há outra opção a não ser conviver com os protestos”, acrescentou.
A Amazon informou à Reuters que o data center utilizará um sistema de resfriamento que não consome água, uma fonte de energia dedicada e independente da rede que abastece as residências, além de medidas para mitigar ruídos. A empresa acrescentou que o número de mudas plantadas superou o de árvores removidas.
Ainda assim, alguns executivos do setor questionam a adequação da instalação de data centers nas proximidades de áreas residenciais.
“Eu jamais instalaria um data center em uma área residencial”, afirmou Sharad Agarwal, CEO da Sify Infinit Spaces — empresa que opera 14 data centers —, durante um evento do setor em setembro.
“Esses centros exigem grandes quantidades de energia e água de forma ininterrupta… e, se estiverem localizados perto de residências, correm o risco de ficar desabastecidos de ambos os recursos em situações de escassez”, disse.
A Microsoft também anunciou um plano de investimento de US$ 20,5 bilhões para a Índia, a ser executado ao longo de quatro anos e destinado majoritariamente a data centers voltados para inteligência artificial.
No estado de Andhra Pradesh, no sul do país, ambientalistas se opõem ao projeto de um centro de dados da Google, orçado em US$ 15 bilhões, alegando riscos para a vida selvagem e para o abastecimento de água e energia, além de afirmar que o terreno de um templo foi utilizado sem permissão. A Google e o governo estadual negam qualquer irregularidade.
A reação negativa também ganhou contornos políticos. Em setembro, Aaditya Thackeray, um legislador da oposição, juntou-se a manifestantes em Mumbai para exigir a mudança de local do projeto da Amazon, afirmando que seu partido transferiria o empreendimento caso retornasse ao poder.
De volta a Mumbai, o corretor de imóveis Atul Jadhav disse que as preocupações dos compradores em relação à vista e à valorização dos imóveis podem estar prejudicando os preços de revenda na região.
“Vamos sair às ruas e fazer o que for preciso para impedir isso”, disse Vidya Kadam, de 68 anos, moradora da região há três décadas.