Mercado olha juro longo, estrangeiro e compromisso fiscal para seguir voo
Economia

Mercado olha juro longo, estrangeiro e compromisso fiscal para seguir voo

  • 10/10/2026 04:00
  • Redação

 

Largando a semana em recorde, a Bolsa consolidou alta de mais de 8% no período, representando o melhor desempenho do Ibovespa desde março de 2020. Mesmo tendo andado de lado entre terça (6) e quinta-feira (8), os ganhos de 7,7% na segunda (5) e de 1,38% na sexta-feira (9) mantiveram o mercado no verde.

Ultimamente, os investidores andam monotemáticos. Nem dados de inflação acima do esperado na sexta tiraram o foco do otimismo com as eleições. “Nesse momento, a nossa Bolsa está sim colada, indexada, totalmente atrelada ao trade eleitoral”, observa Felipe Sant’Anna, especialista em investimentos do Grupo Axia Investing.

“Quando a gente olha lá pra fora – dólar, petróleo, guerras -, quando a gente olha os nossos próprios indicadores – inflação, emprego, rombo fiscal, contas públicas -, não há motivos para uma mudança estrutural que levasse a nossa Bovespa para a máxima histórica e hoje repetidamente mais uma máxima histórica”, conclui.

Os agentes econômicos esperam de um eventual governo Flávio Bolsonaro (PL) reformas econômicas pró-mercado, sobretudo no que tange um ajuste das contas públicas.

“O principal fator foi a reprecificação do risco político após o primeiro turno. O mercado passou a atribuir maior peso a um cenário de mudança na condução da política fiscal, com expectativa de controle dos gastos públicos e redução dos juros”, aponta Sidney Lima, analista da Ouro Preto investimentos.

Mas ele ressalta que não foi apenas a política que trouxe esse desempenho: a redução de incerteza no ambiente brasileiro trouxe também capital estrangeiro para a Bolsa, além de permitir a recomposição de posições e queda dos juros futuros.

A virada de ânimo foi tanta que bancos internacionais de investimento começaram a revisar suas estratégias dando maior destaque para o Brasil em suas carteiras. O Morgan Stanley vê, inclusive, o Ibovespa renovando recordes até os 250 mil pontos.

Mas para chegar lá, o mercado terá de se manter fiel à tese que está construindo com um adendo: a expectativa tem de se tornar realidade.

“Existe fundamento financeiro, mas ainda falta comprovação econômica. A queda dos juros futuros aumenta o valor presente das empresas e favorece especialmente bancos, varejo e construção civil. Entretanto, para sustentar essa valorização, será necessário transformar a expectativa de ajuste fiscal em medidas concretas, capazes de reduzir o risco da dívida pública”, explica Lima.

“O principal risco é uma frustração dessas expectativas, especialmente diante da inflação ainda pressionada, do petróleo elevado e das incertezas eleitorais. Vale lembrar, que quanto mais rápida a valorização, maior a sensibilidade a notícias negativas”, pontua.

Outros motores

Para além da euforia com as eleições em si, Raphael “Rafi” Figueredo, estrategista de ações da XP, destaca como a expectativa de reforma fiscal ajudou a aliviar o peso dos juros nos negócios.

“O fundamento que explica a alta da Bolsa recentemente é uma descompressão de prêmio de risco por conta dos juros altos, que agora estão fechando e melhorando as condições dos preços de mercado, sobretudo das empresas cíclicas locais e as small caps – que estavam muito para trás, descontadas e depreciadas”, argumenta.

“O que justifica essa alta é muito mais uma recuperação dessas cíclicas locais do que exatamente uma continuidade daquelas que já haviam um perfil mais vencedor de performance como commodities, bancos, utilidade pública, bens de capital e por aí vai.”

Com as taxas de juros futuros longas caindo para 10% ou menos, Rafi vislumbra um Ibovespa podendo chegar até 260 mil pontos.

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A intensidade da queda “vai depender um pouco do choque de credibilidade, do número do resultado do segundo turno e evidentemente todo o programa que sucede para as reformas”, segundo o analista da XP.

E para além da queda de juros e da concretude dos planos de responsabilidade fiscal, a continuidade da alta do Ibovespa depende da entrada de capital estrangeiro, segundo Sidney Lima.

Consolidação (?)

“O Brasil costuma ser um grande palco para trades“, descreve Felipe Sant’Anna, ponderando que “o capital que vem, volatiliza e acaba saindo e voltando para casa”.

Por outro lado, se o cenário de menor incerteza se concretizar, o especialista da Axia acredita que, daqui para frente, o dinheiro gringo seja alocado de forma mais estrutural, de modo a manter o nível dos 200 mil pontos por tempo prolongado.

Mas Lima, da Ouro Preto, alerta que “existem sinais claros de euforia e exageros pontuais”.

“Algumas ações estão subindo muito mais rapidamente do que seus fundamentos conseguem justificar. A Magazine Luiza, por exemplo, acumulava valorização superior a 60% nesta semana. O risco é o investidor confundir expectativa política com melhora efetiva dos resultados das empresas”, ressalta o analista.

“Quando os preços antecipam um cenário excessivamente favorável, qualquer frustração pode provocar correções expressivas.”

Desse modo, o patamar atingido pelos papéis deve estar próximo do limite que conseguem alcançar com as notícias postas para Gabriel Felix, especialista de alocação da Blue3 Investimentos.

“Não é uma bolha, mas é um preço que eu diria que já deve embutir boa parte dessa notícia, que até o momento é momentânea. Tudo isso tem que se consolidar ali no dia 25 [de outubro] com a resolução do segundo turno, e mais do que isso. A pressão vai recair sobre o novo governo se ele realmente vai conseguir ter os compromissos que o mercado espera”, finaliza Felix.

  • Fonte: CNN Brasil
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