Universitários inspirados por obra de arte cobrem geleira com manta gigante de lã – e acabam desacelerando em 50% seu derretimento
- 09/10/2026 16:33
- Redação
Um projeto da Universidade de Lausanne, na Suíça, pode ajudar a desacelerar o rápido derretimento das geleiras nos Alpes europeus. Estudantes de mestrado em parceria com um grupo ambientalista reaproveitaram lã de ovelha, material abundante no país, para criar mantas que conservam a neve nos picos ao longo de todo o verão.
O projeto “Keep It Wool” (um trocadilho com a frase “fique frio” e as palavras “cool”, frio, e “wool”, lã) ganha destaque em um contexto climático onde, segundo estudo na Nature Climate Change, 4 mil geleiras alpinas correm risco de desaparecer do mapa a cada ano.
A Summit Foundation, parceira dos pesquisadores da Universidade de Lausanne na implementação do projeto, explica como nasceu a proposta: “A ideia foi inspirada por uma exposição chamada ‘Geleiras Cobertas’ (‘Glaciers Under Cover’) apresentada por uma professora de história da arte de Lausanne.”
As fotografias de Thomas Wrede mostram grandes cobertores sintéticos posicionados sobre a neve na geleira de Rhône. Esta foi uma solução encontrada por uma família local para refletir a luz do sol e preservar a temperatura da neve por baixo das cobertas. O artista, no entanto, expõe uma contradição na prática, que ganhou o nome de “snow farming”.
“O desgaste dos cobertores sintéticos […] libera microplásticos no meio ambiente”, comenta Wrede. “O natural e o artificial, um terreno congelado e as partículas plásticas, encontram-se em uma forma de simbiose inevitável.”
A proposta do “Keep It Wool”, portanto, é oferecer uma alternativa que elimina a contradição. A solução encontrada foi substituir o poliéster e o polipropileno por lã de ovelha – um material biodegradável e de alta disponibilidade no mercado suíço.
“Hoje, estima-se que até 70% da lã produzida na Suíça seja destruída, já que ovelhas são criadas principalmente pela carne, pelo leite e para a manutenção da vegetação”, diz.
Os tecidos utilizados no projeto vieram de cadeias produtivas locais e foram costurados em duas mantas quadradas com 10 metros de lado. Para testar sua efetividade, um cobertor sintético convencional foi instalado ao lado dos naturais; em “observações iniciais”, o fator de proteção mostrou-se semelhante nos dois materiais, segundo a Summit.
Ao longo dos três meses de verão europeu, os pesquisadores fizeram medições quinzenais do derretimento do gelo e da neve por meio de estacas de madeira fixas nas mantas.
À Reuters, estudantes envolvidos no projeto relataram resultados “melhores do que o esperado” para as duas mantas de lã. Embora os dados ainda não tenham sido publicados em periódico científico nem revisados por pares, o experimento teria conseguido igualar e até superar a efetividade dos cobertores plásticos.
Uma rede de monitoramento das geleiras suíças, a Glamos, estima que as mantas sintéticas consigam reduzir a velocidade do derretimento da neve entre 50% e 70%. A entidade também teve papel de supervisão do “Keep It Wool”.
A Summit Foundation admite, no entanto, que o impacto da solução não é suficiente para conter, de forma significativa, a ameaça às geleiras alpinas. “Perdemos quase 40% da massa das geleiras suíças nas últimas duas décadas. Hoje, mantas sintéticas ajudam a preservar cerca de 200 mil metros cúbicos de neve todo ano; isso é pouco, quando comparado com o volume de cerca de 1 bilhão de metros cúbicos perdidos anualmente.”