Famílias Sarney e Calheiros ficam sem mandato; o que explica desgaste?
- 07/10/2026 08:12
- Redação
Grupos políticos tradicionais sofreram derrotas expressivas nas eleições de 2026. No Maranhão, a família Sarney ficou, pela primeira vez, sem nenhum cargo eletivo, após a derrota de Roseana Sarney (MDB) na disputa pelo Senado. Em Alagoas, os Calheiros enfrentaram um duplo revés: Renan Calheiros (MDB-AL) perdeu a reeleição ao Senado após décadas no cargo, e Renan Filho (MDB) perdeu o governo do estado.
Analistas buscaram identificar, durante O Grande Debate Eleições, os fatores que explicam o cenário de desgaste das oligarquias regionais.
Para Renato Dolci, cientista político e mestre em economia, a eleição revelou uma manifestação bastante ampla do eleitor numa perspectiva antissistêmica. “A gente viu o voto antissistêmico se expressar com muita clareza também em alguns recados que foram dados nas urnas”, afirmou.
Segundo ele, as famílias tradicionais se inserem nesse bloco, ao lado de outras figuras que também sofreram derrotas. Dolci fez ainda uma distinção conceitual importante: “Antissistema e antipolítica são questões diferentes para esse eleitorado.” Para ele, o eleitor não está rejeitando a política em si, mas sim as figuras consolidadas dentro do sistema.
Bruno Soller, analista e sócio do Real Time Big Data, chamou atenção para o fato de que, em alguns estados, a troca de poder não representou necessariamente o fim das famílias tradicionais. “Você olha para Alagoas, sai o Calheiros, mas entra os Caldas, que também é uma família tradicional. Você vai para Pernambuco, sai os Campos, mas fica a Lira, que também é uma família tradicional”, observou.
A avaliação foi de que, embora o fenômeno das oligarquias tenha diminuído em relação ao passado, ainda há um resquício relevante desse modelo político em operação.
O analista de Política da CNN Caio Junqueira destacou o alinhamento político das famílias derrotadas. “As famílias e as oligarquias que estavam muito atreladas ao lulismo perderam mais do que as que não estavam”, avaliou um dos participantes.
Nesse sentido, foram citados os Calheiros e os Sarney como exemplos de grupos fortemente associados ao campo lulista que sofreram derrotas. Em contrapartida, nomes ligados ao campo oposto tiveram desempenhos distintos.
A analista de Política da CNN Jussara Soares destacou que o quadro é mais complexo do que uma simples rejeição às famílias tradicionais. Ela lembrou que Arthur Lira (PP-AL) foi eleito senador e elegeu seu filho, Álvaro Lins Pereira de Lira, conhecido como Alvinho Lira (PP-AL), para a Câmara dos Deputados.
Além disso, apontou que Ronaldo Caiado (PSD) conseguiu eleger sua mulher, Gracinha Caiado (União Brasil), para o Senado em Goiás, ainda que com margem apertada.
“Avalio que são questões pontuais, a questão das famílias”, disse Jussara. Ela também mencionou que Jair Bolsonaro (PL) elegeu Michelle Bolsonaro (PL) como senadora pelo Distrito Federal, Carlos Bolsonaro (PL) como senador por Santa Catarina e Jair Renan (PL) como deputado federal, reforçando que o fenômeno das famílias na política não se restringe a um único campo ideológico.
Os analistas abordaram a dificuldade do governo em se conectar com parte do eleitorado. Bruno Soller argumentou que as grandes pautas do governo estão voltadas para relações trabalhistas que já não refletem a realidade de uma parcela crescente da população.
“As grandes pautas do governo Lula são as pautas de trabalhadores celetistas, mostrando essa completa desconexão do governo”, afirmou, acrescentando que discussões como escala de trabalho e empréstimo do FGTS já estariam “um pouco fora de moda para essa juventude”.
Caio Junqueira apontou que o Brasil passou por uma migração do dinamismo econômico do Sudeste para o Centro-Oeste, com o fortalecimento do agronegócio e de uma cultura associada a ele.
“Acho que o PT, principalmente, ou parte dele, ou parte da esquerda, olha esse Brasil real da rua e não entende”, disse. Para o analista, parte do eleitorado que ascendeu economicamente passou a demandar menos intervenção estatal, o que explicaria, ao menos em parte, a perda de apoio em determinadas regiões e faixas sociais.
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