Mais comum, porém cada vez mais curável: o novo retrato do câncer de mama
- 07/10/2026 08:00
- Redação
Gosto de começar esta conversa com duas verdades que, à primeira vista, parecem se contradizer, mas que, juntas, contam a história real do câncer de mama em 2026.
A primeira é que o câncer de mama se tornou mais frequente. O número de novos diagnósticos continua elevado e, em diversos países, a incidência vem aumentando, inclusive entre mulheres mais jovens.
A segunda é talvez ainda mais importante: o câncer de mama nunca esteve tão bem compreendido, tão bem tratado e, em muitos cenários, é extremamente curável quando diagnosticado no início.
Nas últimas cinco décadas, poucas áreas da medicina evoluíram tanto. Uma doença durante muito tempo associada quase inevitavelmente a mutilação, sofrimento e morte apresenta hoje excelentes perspectivas de cura em muitos casos diagnosticados precocemente. Entender essas duas realidades é fundamental para falar sobre câncer de mama com informação, e não com medo.
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Segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA), são estimados 78.610 novos casos no Brasil em 2026. Há várias razões para esse número.
Vivemos mais, e o câncer de mama está fortemente relacionado à idade. Também diagnosticamos melhor: mamografia, ultrassonografia, ressonância magnética e outros métodos permitem identificar tumores menores e mais precoces.
Há ainda mudanças no padrão reprodutivo, como gestações mais tardias, menor número de filhos e períodos menores de amamentação. Somam-se fatores modificáveis, como obesidade, sedentarismo, alimentação inadequada e consumo de álcool. Nenhum deles isoladamente determina que uma mulher terá câncer, mas ajudam a explicar parte do aumento da incidência.
Conhecer o risco não significa viver com medo. Significa agir sobre aquilo que pode ser modificado e acompanhar adequadamente o que não pode.
Há algumas décadas, o tratamento cirúrgico era muito mais agressivo. Durante muito tempo prevaleceu a ideia de que, quanto maior a cirurgia, maior a chance de cura. A partir da década de 1970, estudos demonstraram que tratamentos mais conservadores poderiam oferecer excelente controle da doença em pacientes selecionadas.
Depois vieram a biópsia do linfonodo sentinela, reduzindo a necessidade de retirar todos os gânglios da axila, e a cirurgia oncoplástica. Hoje, em muitos casos, podemos tratar o câncer, preservar ou reconstruir a mama e reduzir significativamente o impacto físico do tratamento.
A revolução também ocorreu nos medicamentos. Do tamoxifeno e do trastuzumabe chegamos às terapias endócrinas modernas, inibidores de CDK4/6, medicamentos anti-HER2, imunoterapia, inibidores de PARP e anticorpos conjugados a drogas, os ADCs. Em poucas décadas, mudamos não apenas as possibilidades de tratamento, mas a própria forma de compreender a doença.
Talvez uma das maiores transformações tenha sido perceber que câncer de mama não é uma única doença. Luminal A, Luminal B, HER2-enriquecido e triplo-negativo, por exemplo, têm comportamentos diferentes e podem exigir estratégias distintas. Costumo dizer que precisamos conhecer bem o bandido para escolher as melhores armas para combatê-lo.
Hoje analisamos receptores hormonais, HER2, características genômicas, mutações, tamanho do tumor, linfonodos e resposta aos tratamentos. Em algumas pacientes, testes genômicos ajudam inclusive a identificar quem realmente se beneficia da quimioterapia, evitando tratamentos desnecessários.
Não tratamos apenas onde está o tumor. Tratamos a biologia daquela doença naquela paciente. Essa é a essência da medicina personalizada.
Os números mostram o impacto dessa evolução. Nos Estados Unidos, a mortalidade por câncer de mama caiu cerca de 44% desde 1989 e a sobrevida em cinco anos supera 90% considerando o conjunto dos casos. Quando a doença está restrita à mama e é diagnosticada precocemente, as perspectivas são ainda melhores.
Temos as melhores armas que a medicina já teve contra o câncer de mama. Uma arma, porém, só funciona se chegar à paciente no momento certo. E é justamente aí que o Brasil ainda falha.
Dados recentes do Panorama da Atenção ao Câncer de Mama mostram que 51% das mulheres diagnosticadas no SUS chegam com a doença em estágio avançado. Entre 20 e 29 anos, são 68,3%; dos 30 aos 39, 61,9%. Mesmo entre 50 e 69 anos, faixa prioritária para rastreamento, 47,6% recebem o diagnóstico tardiamente.
A cobertura de mamografia no SUS ficou abaixo de 35% em todos os estados no biênio 2022–2023. Temos, portanto, um contraste difícil de aceitar: de um lado, uma medicina capaz de alcançar altíssimas taxas de cura quando a doença é encontrada cedo; de outro, metade das pacientes do sistema público chegando com câncer avançado.
A distância entre esses dois mundos não está na ciência. Está no acesso.
Nenhuma tecnologia substitui o diagnóstico no tempo certo. Talvez um dos maiores avanços que ainda precisamos conquistar no Brasil não seja um novo medicamento, mas garantir que aquilo que já sabemos fazer chegue a todas as mulheres.
A incidência também vem aumentando entre mulheres mais jovens. Isso não significa viver em estado permanente de alerta, mas a idade não pode ser usada para ignorar um sintoma persistente.
Nódulo que não desaparece, alteração da pele, retração do mamilo ou secreção sanguinolenta precisam ser investigados. E mulheres jovens não devem aceitar como resposta simplesmente que são “novas demais para ter câncer”.
Alguns casos estão relacionados à predisposição hereditária, com alterações em genes como BRCA1, BRCA2 e TP53. Por isso, histórico familiar e ocorrência de câncer de mama, ovário ou próstata de alto risco na família devem ser avaliados individualmente.
Nem todos os cânceres de mama podem ser prevenidos. Mas atividade física, peso saudável, alimentação equilibrada, moderação no álcool e não fumar fazem parte das estratégias de redução de risco. Mulheres com risco hereditário elevado podem ainda se beneficiar de aconselhamento genético e rastreamento intensificado.
Se eu pudesse resumir cerca de cinquenta anos de evolução, diria que o câncer de mama ficou mais comum, mas a medicina aprendeu a conhecê-lo e tratá-lo com muito mais precisão.
Temos cirurgias menos mutiladoras, reconstruções mais sofisticadas, testes genômicos, terapias-alvo, imunoterapia e medicamentos direcionados às características de cada tumor. O próximo grande salto no Brasil, porém, talvez não venha de um laboratório. Virá da capacidade de fazer tudo isso chegar a quem precisa.
Neste Outubro Rosa, podemos falar sobre câncer de mama com uma palavra que décadas atrás parecia muito mais distante: esperança. Não uma esperança baseada apenas em otimismo, mas sustentada por evidências. Porque o câncer de mama continua sendo uma doença séria e muito frequente, mas é também, cada vez mais, uma doença que podemos diagnosticar cedo, tratar com precisão e, em muitos casos, curar.
*Texto escrito por Dr. Wesley Andrade (CRM-SP 122593 | RQE 27534 e 27535), Mastologista, Cirurgião Oncologista, Diretor do Instituto de OncoMastologia e Cirurgia Mamária Avançada