Como um brasileiro criou o chuveiro elétrico usando peças de um ferro de passar?
- 04/10/2026 18:36
- Redação
O chuveiro elétrico é um dos eletrodomésticos mais comuns na rotina nacional, mas poucos sabem que essa tecnologia é uma invenção brasileira. Na década de 1930, o inventor autodidata Francisco Canhos, morador de Jaú (SP), observou o funcionamento de um ferro de passar roupa e projetou o primeiro protótipo de aquecimento de água por resistência elétrica, aposentando o antigo e demorado hábito de esquentar água em panelas no fogão.
O experimento caseiro que deu origem ao modelo “Robô”
A ideia surgiu de uma necessidade prática dentro de casa. O pai de Francisco sofria de reumatismo e necessitava de água morna para se banhar. Ao observar a mãe passando roupas, o jovem notou que o calor do aparelho vinha de um filamento interno incandescente. Ele decidiu desmontar o utensílio doméstico, extraiu a resistência elétrica e passou a testar a imersão da peça em tubos por onde a água fluía.
O modelo inicial vendido na cidade exigia uma operação manual em duas etapas: primeiro abria-se o registro e depois acionava-se uma chave seletora na parede. O avanço definitivo ocorreu em 1943, quando o inventor criou o chuveiro elétrico automático, no qual a própria pressão da água ligava o circuito elétrico. Batizado por ele como “Robô”, o aparelho deu origem à fábrica Eletrometalúrgica Jauense. Feito de alumínio fundido, o produto chamava atenção pela durabilidade, podendo funcionar por décadas com a simples troca da resistência.
A proteção intelectual da invenção permaneceu sob o registro de patente em nome de Francisco até a década de 1950. Com o vencimento do registro, grandes indústrias do setor elétrico passaram a fabricar o dispositivo em larga escala. Esse movimento introduziu o uso do plástico de engenharia no corpo do aparelho, substituição que eliminou os riscos de choque elétrico e barateou o custo de produção, permitindo que a novidade se espalhasse por todas as regiões do país.
Esse processo de expansão fez do invento um item indispensável na infraestrutura doméstica nacional. Segundo a edição mais recente da PPH (Pesquisa de Posse e Hábitos de Uso de Equipamentos Elétricos na Classe Residencial), realizada pelo Procel, o chuveiro elétrico está presente hoje em mais de 90% dos domicílios da Região Sul e em cerca de 74% das residências do Sudeste.
Apesar de dúvidas frequentes sobre a segurança desse tipo de aparelho, o consenso entre engenheiros eletricistas confirma que os modelos modernos são totalmente seguros quando instalados com o devido fio terra e disjuntor DR (Diferencial Residual). Sob a perspectiva da eficiência energética, relatórios da Abes (Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental) apontam o chuveiro elétrico como uma das soluções mais econômicas para o aquecimento de água, já que eleva a temperatura do fluxo de forma instantânea e evita o desperdício antes do uso.
A mente inquieta do criador do chuveiro não parou por aí. Sem formação universitária, Francisco estudava por meio de manuais técnicos e publicações da época para diversificar a produção de sua fábrica. Para manter a empresa faturando nos meses quentes de verão, quando a procura por banho quente caía, ele patenteou e colocou no mercado aparelhos como torradeiras, ventiladores e fornos elétricos.
O talento de Canhos chamou a atenção de grandes nomes da engenharia nacional. Em seus últimos anos de atividade, ele trabalhou no projeto de um motor rotativo para automóveis, realizando reuniões frequentes com João Augusto Gurgel, fundador da Gurgel Motores e pioneiro no desenvolvimento do primeiro carro elétrico da América Latina.
Francisco Canhos faleceu em 1988, aos 73 anos. Mais de nove décadas após os primeiros testes realizados no interior paulista, a tecnologia nacional do inventor brasileiro continua presente na rotina de milhões de famílias diariamente.