Entenda a crise de tiroteios em massa que matou centenas na África do Sul
Internacional

Entenda a crise de tiroteios em massa que matou centenas na África do Sul

  • 04/10/2026 08:00
  • Redação

Após cinco tiroteios em menos de uma semana deixarem pelo menos 46 mortos, a África do Sul enfrenta o desafio de combater um aumento nos crimes com armas de fogo que ameaça reverter os progressos recentes na redução de sua taxa de homicídios, historicamente muito elevada.

Mesmo em um país com uma das maiores taxas de homicídios do mundo, a dimensão das mortes em um intervalo de tempo tão curto causou choque. Especialistas apontam duas causas principais: o crime organizado e a facilidade de acesso a armas de fogo ilegais.

“A África do Sul está inundada de armas”, afirmou Julian Rademeyer, consultor da Iniciativa Global contra o Crime Organizado Transnacional (GI-TOC), organização que monitora o crime organizado.

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Essa realidade ficou evidente pelas cápsulas de bala espalhadas pelo chão após oito homens armados com fuzis AK-47 e pistolas abrirem fogo em um bar em Wedela — uma área a oeste de Joanesburgo conhecida pela mineração ilegal — na noite de sábado passado, matando 18 pessoas. Horas depois desse incidente, outras 10 pessoas foram mortas em Lwandle, perto da Cidade do Cabo.

“O tipo de arma faz diferença”, segundo Stanley Maphosa, diretor executivo da Gun Free South Africa, uma organização sem fins lucrativos dedicada a reduzir a violência armada. Ele explicou que a disponibilidade de armas de fogo pode transformar conflitos envolvendo crime organizado, extorsão, gangues, vingança, violência no setor de transporte (táxis) ou disputas pessoais em ataques que deixam muitas vítimas fatais.

O que está acontecendo com a taxa de homicídios na África do Sul?

Dados oficiais da polícia mostram que a taxa de homicídios na África do Sul caiu para 41 por 100 mil habitantes nos 12 meses encerrados em 31 de março de 2025, em comparação com 44,7 no ano anterior. A tendência de queda persistiu, com menos homicídios registrados nos períodos de janeiro a março e de abril a junho do que nos mesmos meses do ano anterior.

O ministro interino da Polícia, Firoz Cachalia, afirmou que esforços recentes — incluindo operações policiais direcionadas e uma cooperação mais estreita entre agências — podem estar contribuindo para essa melhora, embora tenha ressaltado a necessidade de mais estudos para compreender as razões da queda nos homicídios.

O que tem chamado a atenção é a frequência de assassinatos em massa, mesmo com a redução geral dos homicídios. Rademeyer observou que esses ataques não são novidade, mas parecem estar se tornando mais frequentes. Os ataques também deixaram algumas comunidades apreensivas quanto a novas ocorrências de violência.

Moradores das proximidades do bar a oeste de Joanesburgo disseram à Reuters que temiam mais ataques; alguns relataram não se sentir mais seguros para realizar tarefas cotidianas.

A GI-TOC registrou 45 casos de assassinatos em massa entre 1º de janeiro e 28 de setembro deste ano, resultando na morte de pelo menos 210 pessoas e deixando outras 79 feridas.

A organização classifica um incidente como assassinato em massa quando pelo menos três pessoas são mortas intencionalmente em um único ataque. Quatro dos cinco tiroteios ocorridos no mês passado enquadram-se nessa definição.

A iniciativa registrou um caso do tipo em janeiro e outro em fevereiro. Em junho, a contagem mensal havia chegado a oito, número também registrado em agosto e setembro. Somente os ataques de setembro vitimaram 57 pessoas.

Segundo Rademeyer, a GI-TOC não dispõe de dados comparativos confiáveis ​​em relação ao ano passado. Ele afirmou que o grupo contabilizou 17 assassinatos em massa em 2025, mas ressaltou que esse número provavelmente está subestimado, uma vez que o monitoramento separado desses casos só começou neste ano e a coleta de dados foi intensificada posteriormente.

Por que acontecem tantos assassinatos em massa?

Local de ataque a tiros em Wedela, nos arredores da Joanesburgo, África do Sul; domingo, 27 de setembro de 2026 • Xolani Nhlapo/Reuters

Não existe uma explicação única. Rademeyer afirmou que esses crimes ocorrem em diversos mercados ilícitos, incluindo mineração ilegal, extorsão, atividades de gangues e disputas por rotas de transporte de passageiros em vans (táxis-lotação). O crime organizado é responsável por uma minoria das mortes por arma de fogo, mas está associado a alguns dos ataques mais letais, disse ele.

Em fevereiro, o presidente do país, Cyril Ramaphosa, declarou que o crime organizado representava “a ameaça mais imediata à nossa democracia, à nossa sociedade e ao nosso desenvolvimento econômico” e anunciou o envio de militares para auxiliar a polícia no combate à violência de gangues.

Não há indícios de que os cinco tiroteios mais recentes — incluindo dois na região da Cidade do Cabo e um ao sul da cidade de Durban — estejam relacionados entre si. Os investigadores analisam diferentes motivações possíveis, como disputas entre grupos criminosos, retaliações e conflitos comerciais.

O mais letal dos cinco incidentes foi o tiroteio em um bar de Joanesburgo; a polícia investiga se o caso está ligado a uma disputa territorial envolvendo mineração ilegal ou se foi uma retaliação por um tiroteio anterior ocorrido no mesmo local.

A mineração ilegal tem alimentado a violência nos arredores de Joanesburgo há anos. Garimpeiros informais, conhecidos localmente como “zama zamas”, trabalham em minas de ouro abandonadas, enquanto grupos rivais disputam o controle da atividade. Segundo relatos da Reuters, quadrilhas criminosas comandam as operações na região de Wedela e utilizam homens armados para proteger seus territórios.

De onde vem as armas?

A GI-TOC documentou o fluxo de armas provenientes da vizinha Namíbia para a África do Sul, chegando a quadrilhas e assaltantes envolvidos em roubos a carros-fortes.

Maphosa afirmou que armas ilegais também podem vir de armamentos roubados ou perdidos por civis e pelo Estado, bem como de casos de corrupção e tráfico transfronteiriço.

“Um fuzil AK-47 não chega a um bar sozinho”, disse ele. “Existe uma cadeia de suprimentos por trás da arma de fogo e da munição.”

Cerca de 63.500 armas de fogo de civis com registro legal foram declaradas perdidas ou roubadas entre 2013 e 2023, segundo dados citados por Rademeyer.

Ele também mencionou dados policiais indicando que, desde abril de 2022, 2.346 armas da polícia foram roubadas e outras 177 perdidas, juntamente com 194.920 cartuchos de munição.

O ex-coronel da polícia Christiaan Prinsloo foi condenado em 2016 após roubar mais de 2.000 armas de depósitos policiais e revendê-las, inclusive para quadrilhas criminosas. Segundo a imprensa local, perícias ligaram posteriormente 888 dessas armas a 1.066 assassinatos na província de Cabo Ocidental.

Por que é tão difícil conter a violência?

A Operação Vala Umgodi, iniciativa do governo para combater a mineração ilegal, resultou em milhares de prisões e na apreensão de centenas de armas de fogo.

No entanto, Rademeyer afirmou que prender um grande número de participantes de baixo escalão terá impacto limitado se os responsáveis ​​pelo financiamento e abastecimento das redes permanecerem intocados.

A polícia também deveria mirar compradores e refinadores de ouro ilegal, financiadores e fornecedores de armas, disse ele.

Rademeyer defendeu que a polícia rastreie as armas recuperadas, elimine o acúmulo de exames balísticos pendentes e investigue casos de disparos que não resultaram em morte, os quais podem servir de alerta para uma violência maior.

Contudo, rastrear a origem das armas e verificar se foram usadas em outros crimes é um processo demorado. O chefe do setor de balística do Laboratório de Ciências Forenses da polícia declarou a uma Comissão de Inquérito, no ano passado, que a unidade acumulava 41.846 casos pendentes e mais de 29.000 armas ligadas a crimes armazenadas.

  • Fonte: CNN Brasil
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