Presidente de universidade dos EUA quebra silêncio sobre caso de estupro
- 03/10/2026 19:25
- Redação
O presidente da Universidade Cornell quebrou o silêncio neste sábado (3), divulgando um comunicado, à medida que cresce a indignação em torno do caso envolvendo uma estudante da instituição, conhecida como Jane Doe, que teria sido vítima de estupro coletivo em uma casa de fraternidade em outubro de 2024.
Veja abaixo tudo o que sabemos sobre o caso até o momento:
As supostas experiências de Jane Doe levantam “questões dolorosas e preocupantes sobre agressão sexual, desumanização e aspectos da cultura das festas, do consumo de álcool e do uso de drogas”, disse Kotlikoff em um pronunciamento em vídeo.
O presidente da Cornell acrescentou que as acusações levantam questionamentos sobre a investigação inicial, afirmando que a universidade não tem “todas as respostas”, mas está comprometida em investigá-las e encontrá-las. Ele disse que, na próxima semana, o conselho de curadores da Cornell anunciará uma revisão independente, conduzida por um escritório de advocacia externo, sobre a forma como o caso de 2024 foi tratado.
Kotlikoff disse apoiar os esforços legislativos para alterar a legislação de Nova York sobre agressão sexual, bem como a decisão da governadora Kathy Hochul de nomear um promotor especial para a investigação — uma medida que a universidade já havia informado à CNN que apoiava.
Enquanto a investigação criminal e a revisão estiverem em andamento, a universidade trabalhará para fortalecer os programas relacionados à prevenção e à educação sobre agressão sexual, saúde mental e uso de substâncias, acrescentou.
Ao abordar as frustrações em torno da comunicação da Cornell sobre o caso, ele disse: “faremos um esforço maior para explicar o que pudermos, fornecer contexto sobre as medidas que a Cornell tomou e ser mais transparentes”, dentro dos limites legais e das políticas da universidade.
Perto do final de seu pronunciamento, Kotlikoff sinalizou apoio à revisão do papel das organizações estudantis de fraternidades e irmandades na vida do campus. “Voltaremos a envolver estudantes, ex-alunos e outros membros de nossa comunidade para analisar como preservar aquilo que é valioso na vida das fraternidades e irmandades, ao mesmo tempo em que fortalecemos a responsabilização individual, a transparência e uma cultura na qual cada membro compreenda sua responsabilidade de proteger a segurança e o bem-estar dos outros”, disse.
Mensagens do Snapchat, uma decisão de um painel disciplinar da Cornell, um conjunto de documentos da investigação formal da universidade sob o Título IX, obtidos pelo The New York Times, e gravações telefônicas feitas por Jane Doe e analisadas pela ABC News lançaram nova luz sobre o que pode ter acontecido na casa da fraternidade.
As fontes também ajudam a esclarecer o estado de espírito relatado de Doe em determinados momentos da noite que começou em 19 de outubro de 2024, e como sua compreensão dos acontecimentos mudou à medida que ela processava o trauma nas semanas seguintes.
Quando Doe foi pela primeira vez à polícia do campus, as autoridades registraram que ela relatou “ter sido recentemente estuprada por 8 a 10 homens na casa da fraternidade Chi Phi”, de acordo com documentos analisados pela ABC News. A CNN pediu à polícia do campus uma cópia do relatório.
A frase não aparece na declaração de seis páginas enviada aos promotores.
A Cornell vem sendo alvo de questionamentos porque a universidade inicialmente afirmou que a polícia do campus havia investigado as acusações em 2024 e “compartilhado todas as informações da investigação com o Ministério Público do Condado de Tompkins”. Posteriormente, porém, a universidade alterou sua declaração e passou a dizer que a polícia investigou as acusações em 2024 e “compartilhou a declaração juramentada da vítima e a captura de tela do Snapchat” com o Ministério Público.
Van Houten havia dito anteriormente que seu escritório não apresentou acusações criminais por causa da declaração de seis páginas de Doe. Mais tarde, ele afirmou que seu escritório teve acesso a algumas mensagens do Snapchat trocadas durante a suposta agressão em um grupo de conversa intitulado “Chi Phi Actives”. Imagens de uma dessas conversas, obtidas pela CNN, incluem uma foto de Doe em um cômodo da casa da fraternidade durante o período em que ela afirma ter sido agredida.
Doe também fez uma acusação explícita de estupro durante sua entrevista que não foi incluída na declaração de seis páginas, segundo a WCBS. Embora Doe tenha relatado na declaração que foi agredida fisicamente e que se sentiu emocionalmente coagida, o documento não incluía algumas das expressões ou acusações mais fortes que ela utilizou durante a entrevista, de acordo com o The New York Times, que citou documentos obtidos pelo jornal.
Entre os documentos obtidos pelo Times também estavam registros mostrando que o Ministério Público decidiu não analisar nenhuma evidência adicional coletada pela polícia do campus além da declaração de seis páginas assinada por Doe.
Um investigador da polícia da Cornell conversou com um membro da equipe do Ministério Público em 25 de novembro de 2024 sobre a possibilidade de analisar evidências adicionais, informou o Times. Naquele momento, a polícia da universidade já havia realizado mais entrevistas e analisado mensagens de conversas, segundo a reportagem do Times.
Mas os promotores não demonstraram interesse nas evidências adicionais porque haviam decidido que, com base na declaração de Doe, “não seriam apresentadas acusações criminais neste caso”, disse um investigador da polícia da Cornell em uma nota que documentou a ligação.
Quando procurado para comentar, o funcionário do Ministério Público encaminhou todas as perguntas ao promotor, informou o Times.
Van Houten disse ao Times, por e-mail, que quaisquer registros adicionais coletados pela polícia da Cornell “não eram pertinentes à nossa análise porque tínhamos o relato abrangente de Jane Doe sobre os acontecimentos”. A CNN procurou o escritório de Van Houten para obter comentários na sexta-feira.
A CNN obteve uma cópia de um documento de 99 páginas, com muitos trechos censurados, que resume as principais evidências incluídas na decisão de um painel disciplinar da Cornell. O documento corrobora as conclusões do Times sobre como Doe posteriormente passou a compreender os acontecimentos daquela noite como uma agressão.
A decisão do painel detalha mais de 50 entrevistas, incluindo entrevistas com seis dos sete homens acusados.
Além disso, três semanas após o incidente, Jane Doe perguntou ao integrante da fraternidade que a havia convidado para a casa naquela noite: “Você se lembra de como algum desses caras entrou?”, segundo indicam gravações telefônicas de seu celular analisadas pela ABC News.
Ele não mencionou o convite feito no grupo de conversa, informou a ABC News. Em vez disso, explicou a Doe: “A porta estava simplesmente destrancada. … A festa estava meio lotada. … Não havia outro lugar para ir.”
Doe disse a ele: “Se eu quisesse levar isso adiante, o que vocês fizeram seria classificado como estupro coletivo”, segundo a ABC News. A reportagem observou que as gravações das ligações de Doe com pelo menos três dos integrantes da fraternidade foram posteriormente entregues aos investigadores da universidade.
Um dos homens que Doe acusou de agressão sexual teria enviado a ela a seguinte mensagem de texto: “Eu só queria pedir desculpas pela forma como as coisas aconteceram naquela noite”, de acordo com registros obtidos pelo The New York Times e corroborados pelo advogado de Doe. O remetente disse que ele e outro homem supostamente envolvido se sentiam péssimos e que estavam sob efeito de drogas e álcool a ponto de não conseguirem “interromper a situação e expulsar as pessoas antes que ela saísse completamente do controle”.
“Sinto muito”, disse outra pessoa acusada de agressão a Doe, aproximadamente na mesma época, em uma mensagem analisada pela ABC News. “Eu me sinto muito mal por você, cara.”
A investigação inicial da universidade resultou em suspensões e expulsões dos estudantes acusados, segundo o advogado de Doe, além do banimento da unidade da fraternidade do campus e da criação de uma força-tarefa para lidar com casos de agressão sexual. Quatro integrantes da fraternidade Chi Phi admitiram ter tido contato sexual com Doe, mas afirmaram que as interações foram consensuais. Os demais negaram ter participado de encontros sexuais, informou o Times.
Em meio à retomada da investigação, documentos judiciais mostram que um integrante da fraternidade Chi Phi, identificado como réu no processo civil movido por Doe, vem recorrendo aos tribunais do estado de Nova York para tentar anular uma decisão disciplinar da universidade que o considerou responsável por tentativa de exploração sexual.