O que transformou o Talibã afegão e o Paquistão de parceiros em inimigos?
- 03/10/2026 11:00
- Redação
A Força Aérea do Paquistão atacou 10 locais no Afeganistão na quarta-feira (30) — sua segunda rodada de ataques em quatro dias, após três meses de relativa calma ao longo da fronteira de 2.600 quilômetros entre os dois países.
Islamabad afirmou ter atacado esconderijos de militantes em retaliação a drones lançados a partir do Afeganistão. Cabul negou o envio dos drones e declarou que as sete vítimas fatais afegãs nos ataques desta semana eram todas civis.
Veja o que está impulsionando a mais recente escalada e por que as tentativas anteriores de contê-la fracassaram.
Inicialmente, Islamabad via o governo do Talibã como um possível aliado quando o grupo retornou ao poder no Afeganistão, em 2021. O então primeiro-ministro Imran Khan saudou o retorno do Talibã, afirmando que os afegãos haviam “quebrado as correntes da escravidão”.
No entanto, a frustração paquistanesa logo cresceu, à medida que militantes deflagravam insurgências cada vez mais amplas no sudoeste e no noroeste do Paquistão.
Desde então, o Paquistão acusa sua arquirrival, a Índia, e o governo do Talibã em Cabul de fornecerem fundos e armas aos militantes, além de oferecerem um refúgio seguro no Afeganistão. O Talibã afegão e o governo indiano negam essas acusações.
A frustração em Islamabad transbordou para confrontos transfronteiriços no ano passado, quando o Paquistão realizou um ataque aéreo contra a capital afegã, Cabul, em outubro, visando o líder do grupo militante Talibã Paquistanês, segundo autoridades de segurança do Paquistão na época.
O Talibã Paquistanês — grupo que opera de forma independente do Talibã afegão, que governa Cabul — informou posteriormente que seu líder havia sobrevivido ao ataque.
O Paquistão também acusou o Talibã afegão de abrigar insurgentes balúchis, um movimento armado secular que busca a independência da província de Baluchistão, no sudoeste do país.
Um primeiro cessar-fogo, assinado em Doha em outubro, logo fracassou. Os confrontos atingiram o auge de intensidade nesta primavera, quando centenas de pessoas morreram em bombardeios de artilharia e ataques aéreos.
Na ofensiva mais letal, mais de 400 pessoas morreram em um dos ataques aéreos paquistaneses contra Cabul — ataque que, segundo o Talibã afegão, atingiu um centro de reabilitação de dependentes químicos. Islamabad defendeu os ataques, afirmando que eles “visaram com precisão instalações militares e infraestrutura de apoio a terroristas”.
Negociações mediadas pela China resultaram em um cessar-fogo em março, que conteve os combates, mas novamente adiou uma solução para a disputa subjacente.
Quase três meses de relativa calma terminaram na semana passada com dois grandes ataques de militantes no noroeste do Paquistão, matando pelo menos 30 pessoas, incluindo 15 policiais e 6 soldados.
Pelo menos oito militantes, incluindo homens-bomba, mataram 24 pessoas — entre elas 15 policiais — em uma instalação policial no distrito de Kohat, no noroeste do país, na última sexta-feira. Um grupo militante islâmico — o Shura Ittehad-ul-Mujahideen, liderado pelo comandante Hafiz Gul Bahadur — reivindicou a autoria do ataque.
Dois dias depois, no domingo, uma troca de tiros com militantes resultou na morte de 4 soldados e 2 oficiais no distrito vizinho de Hangu.
As insurgências em expansão no Paquistão são conduzidas por grupos rivais com diferentes bases de apoio e ideologias, mas que compartilham um inimigo comum: o Estado paquistanês.
A maioria dos ataques recentes realizados por militantes no noroeste do Paquistão foi atribuída ao TTP (Tehreek-e-Taliban Pakistan), comumente conhecido como Talibã paquistanês.
O grupo foi formado em 2007 por uma coalizão de organizações islâmicas da etnia pashtun que atuavam no noroeste do Paquistão, região que faz fronteira com o Afeganistão.
O TTP foi moldado com base no Talibã afegão — movimento predominantemente pashtun que conquistou o Afeganistão na década de 1990 antes de ser deposto por uma invasão liderada pelos EUA em 2001.
Combatentes do TTP também lutaram ao lado do Talibã afegão no Afeganistão e deram abrigo a combatentes afegãos no Paquistão, estabelecendo laços estreitos ao longo dos 20 anos de insurgência do Talibã afegão.
O Paquistão realizou uma série de operações militares contra o TTP em seu próprio território, obtendo sucesso limitado.
Nos últimos anos, os ataques do grupo têm visado principalmente as forças de segurança paquistanesas, em vez de civis, o que lhe permitiu ganhar espaço nas comunidades locais.
Hafiz Gul Bahadur, líder do grupo Shura Ittehad-ul-Mujahideen — que reivindicou a autoria do ataque da semana passada em Kohat —, já abrigou a Al-Qaeda e combatentes islamistas árabes na região de fronteira, afirmou Abdul Basit, analista da Escola de Estudos Internacionais S. Rajaratnam, de Singapura.
Inicialmente, o grupo concentrava seus ataques nas forças dos EUA e da Otan no Afeganistão, mas voltou-se contra o Paquistão depois que os militares paquistaneses realizaram uma grande ofensiva, por volta de 2015, contra um reduto do grupo no distrito do Waziristão do Norte, disse Basit. Essa ação forçou os combatentes do grupo a se deslocarem para o Afeganistão.
As repercussões de longo prazo dessa mudança ainda se fazem sentir hoje, observou Basit, uma vez que o grupo de Bahadur se tornou “um guarda-chuva para diversos grupos militantes, no qual a Al-Qaeda é a mentora e Gul Bahadur é a face pública”.