“Decisão sobre frango e mel sai nas próximas semanas”, diz comissário da UE
- 01/10/2026 10:49
- Redação
A União Europeia sinaliza que as exportações brasileiras de frango e mel podem ser retomadas nas próximas semanas, depois de uma auditoria que considerou satisfatórios os controles adotados pelo Brasil, conforme adiantado pela CNN. Já a carne bovina deve enfrentar um processo mais longo, que pode levar cerca de dois anos, devido às exigências europeias de rastreabilidade e controle de antimicrobianos.
A avaliação foi feita nesta quinta-feira (1º) por Jean-Pierre Bou, chefe adjunto da missão da União Europeia no Brasil, durante o GAFFFF, em São Paulo. Segundo ele, o acordo de cooperação entre os dois blocos abre uma nova etapa na relação comercial, mas não elimina os desafios sanitários que continuam sendo discutidos entre Brasil e Europa.
“Depois de 25 anos de luta, firmamos um acordo de cooperação bilateral, com um grande horizonte para o agro brasileiro”, afirmou.
O acordo de parceria entre Mercosul e União Europeia foi assinado em janeiro de 2026 e passou a ser aplicado provisoriamente em maio. O tratado cria uma área comercial que reúne cerca de 700 milhões de pessoas. Para o Brasil, a União Europeia é um dos principais mercados para produtos agropecuários: as exportações agrícolas brasileiras para o bloco somaram US$ 21,8 bilhões em 2025, segundo o Ministério da Agricultura.
A questão sanitária, porém, surgiu justamente no início dessa nova fase. Desde setembro, a UE suspendeu a entrada de produtos de origem animal brasileiros, em meio à discussão sobre o cumprimento das regras europeias para o uso de antimicrobianos. A restrição atingiu, entre outros produtos, carnes bovina, de frango e suína e mel.
O cenário começou a mudar para algumas cadeias. Uma auditoria da Comissão Europeia realizada no Brasil avaliou positivamente os sistemas de produção de carne de aves e mel e concluiu que o arcabouço legal, os procedimentos e os controles oficiais brasileiros são capazes de oferecer as garantias exigidas pela legislação europeia.
Segundo Bou, a expectativa agora é de uma decisão europeia nas próximas semanas para a retomada desses dois produtos. “A decisão sobre frango e mel será tomada nas próximas semanas”, afirmou.
Para a carne bovina, o processo é mais complexo. Bou explicou que a exigência europeia envolve o acompanhamento dos animais ao longo de praticamente todo o ciclo de produção.
“Carne bovina depende do ciclo de vida dos animais, dois anos mais ou menos. Mas o diálogo continua, tem trabalho constante”, disse.
A avaliação está alinhada ao que autoridades sanitárias europeias vêm afirmando nos últimos dias. A UE estima que a retomada da carne bovina brasileira pode não ocorrer antes de dois anos justamente pela necessidade de comprovar o cumprimento das regras relacionadas a antimicrobianos e rastreabilidade durante o ciclo de vida dos animais.
Para Bou, a situação não deve ser interpretada como um rompimento da relação comercial. “Entendo a frustração dos brasileiros, mas tenho que dizer que o acordo abre oportunidades para muitos setores do agro”, afirmou.
O representante europeu também destacou que alguns produtos brasileiros já apresentam crescimento das vendas para o mercado europeu após o início da aplicação do acordo. Ele citou uvas e café.
O café, segundo ele, já é um dos principais produtos brasileiros no mercado europeu, mas ainda existe espaço para ampliar a participação brasileira.
Os dados oficiais mostram que a relação agrícola entre Brasil e UE vem crescendo: as exportações brasileiras de produtos agrícolas para o bloco passaram de US$ 12,4 bilhões em 2016 para US$ 21,8 bilhões em 2025.
Para além das grandes commodities, Bou destacou outro ponto do acordo que pode beneficiar produtores brasileiros: a proteção das Indicações Geográficas (IGs).
O tratado prevê o reconhecimento e a proteção de indicações geográficas dos dois lados. Pelo acordo, 37 indicações geográficas brasileiras passam a ter proteção na União Europeia, entre elas a cachaça, o queijo Canastra e os vinhos e espumantes do Vale dos Vinhedos.
Para o representante europeu, esse mecanismo pode ajudar a aumentar o valor agregado da produção e abrir espaço para produtos regionais brasileiros que ainda são pouco conhecidos pelos consumidores europeus.
“Temos produtos do Cerrado, da Amazônia, que não são conhecidos na Europa e têm grande potencial”, afirmou.
Outra frente destacada pelo representante europeu foi a bioeconomia. A ideia, segundo ele, é identificar produtos com potencial de exportação entre os dois mercados e desenvolver programas de cooperação no Brasil para fortalecer produtores que trabalham com bioeconomia e culturas alternativas.
A discussão também está relacionada à agenda de sustentabilidade do acordo. O tratado estabelece compromissos de cooperação em desenvolvimento sustentável e prevê mecanismos de integração de cadeias produtivas e descarbonização.
Bou afirmou que a cooperação não deve se limitar à abertura de mercados, mas também envolver tecnologia, produção e adaptação dos sistemas agrícolas.
O representante europeu colocou ainda a relação comercial entre Brasil e UE dentro de um problema mais amplo: o da segurança alimentar em um mundo marcado por mudanças climáticas e instabilidade geopolítica.
Segundo ele, novas pandemias, guerras e crises logísticas podem voltar a afetar a oferta de alimentos no mundo. Nesse cenário, o comércio internacional seria parte da estratégia de segurança alimentar europeia, e não um elemento contrário à produção local.
“Comércio é fator de segurança alimentar para a Europa. Não é antagonista”, afirmou.