Cristiano Ronaldo já teve brigas com outros técnicos de Portugal; relembre
- 01/10/2026 04:00
- Redação
Pode ser apenas uma coincidência, mas não deixa de ser curioso: Cristiano Ronaldo trabalhou com seis técnicos à frente da seleção de Portugal ao longo da carreira, e a relação não terminou mal apenas com dois deles: Luiz Felipe Scolari e Roberto Martínez.
Com todos os outros, houve algum tipo de mal-estar ou conflito que marcou o fim da relação. Há, no entanto, diferenças importantes entre cada um dos casos.
Carlos Queiroz e Paulo Bento, por exemplo, tiveram uma Copa do Mundo ruim, mas permaneceram no cargo no início da fase seguinte de Eliminatórias para a Eurocopa.
Cristiano Ronaldo não participou dessas partidas. Nos dois casos, alegou problemas físicos. Os treinadores acabaram deixando o cargo após esses primeiros jogos, ainda em setembro, e Ronaldo voltou à seleção após a troca no comando.
Fernando Santos, por outro lado, deixou o cargo imediatamente após a Copa do Mundo e não foi demitido. Ele chegou a um acordo para rescindir o contrato e saiu em bons termos com a Federação Portuguesa de Futebol.
A saída ocorreu antes do início de uma nova fase de Eliminatórias. Já Jorge Jesus teve uma situação completamente diferente: o desentendimento não aconteceu durante uma Copa do Mundo, mas já no início de uma nova etapa da Seleção.
Nos três primeiros casos, a relação acabou rompida pelo lado dos treinadores, que deixaram a seleção. Com Jorge Jesus, foi Ronaldo quem deixou a concentração. Pelo menos até o momento, é isso que se sabe.
A boa relação com Cristiano Ronaldo, então o atual melhor jogador do mundo, foi um dos fatores que pesaram a favor de Carlos Queiroz na escolha do substituto de Luiz Felipe Scolari no comando da Seleção.
O então auxiliar de Alex Ferguson no Manchester United havia sido uma espécie de mentor do atacante durante vários anos. Queiroz o adotou como seu pupilo, ajudou em seu desenvolvimento e chegou a influenciar a percepção de Alex Ferguson sobre o jogador.
“Vamos fazer um acordo. Você nasceu para ser o melhor jogador do mundo. Se estiver disposto a trabalhar para ser o melhor do mundo, estou disposto a trabalhar com você. Há um preço a pagar na vida quando se quer ter sucesso. Vá para casa, pense e amanhã conversamos e começamos um novo dia de trabalho”, disse Queiroz a Ronaldo após um treino ruim em Manchester, segundo o próprio treinador revelou em entrevista ao El País.
Por isso, nada indicava que a relação terminaria como terminou. Durante a Copa do Mundo de 2010, na África do Sul, Queiroz defendeu Ronaldo, que atravessava uma fase de poucos gols. O atacante terminou a competição com apenas um gol.
No entanto, as escolhas do técnico nem sempre agradaram ao capitão, que demonstrou sinais de insatisfação com o futebol de Portugal. Até que, na eliminação para a Espanha, nas oitavas de final, após o adversário abrir o placar, Ronaldo não aceitou a substituição de Hugo Almeida por Danny.
“Assim não ganhamos, Carlos”, disparou o atacante.
Portugal realmente não venceu. Após a partida, na zona mista, Ronaldo foi questionado sobre as razões da eliminação. “Fale com o Carlos Queiroz”, respondeu.
No início das Eliminatórias para a Euro 2012, ainda com Queiroz no cargo, mas suspenso e fora do banco, Ronaldo foi inicialmente convocado. Porém, não participou do empate em casa com o Chipre nem da derrota para a Dinamarca.
O atacante havia sofrido uma lesão no último jogo antes da pausa para as seleções e foi substituído na convocação por Quaresma.
Depois dessas duas partidas, Carlos Queiroz foi demitido, Paulo Bento assumiu o comando e Ronaldo voltou à seleção. No entanto, os dois nunca mais trocaram uma palavra. Nem sequer se cumprimentaram quando se encontraram durante Portugal x Irã, na Copa do Mundo de 2018.
O início da relação entre Cristiano Ronaldo e Paulo Bento foi perfeito. O treinador encontrou uma maneira de aproveitar as características do atacante do Real Madrid, e Ronaldo respondeu com gols.
Ele marcou três vezes na Euro 2012, sendo fundamental para levar a Seleção até as semifinais da competição.
Nas Eliminatórias para a Copa do Mundo de 2014, Ronaldo voltou a ter grande desempenho. O principal momento foi a vitória sobre a Suécia, em Solna, nos playoffs, quando marcou os três gols do triunfo português fora de casa.
Ronaldo levou Portugal às costas até o Brasil. A Copa do Mundo de 2014, no entanto, foi muito ruim para a seleção.
Portugal foi eliminado ainda na fase de grupos, em uma chave com Alemanha, Estados Unidos e Gana. Cristiano Ronaldo deixou o Brasil novamente com apenas um gol marcado.
Assim como havia ocorrido em 2010, a relação do capitão com o treinador saiu bastante desgastada. As escolhas de Paulo Bento estavam sob forte pressão, especialmente pela cobrança por uma renovação que o técnico demorava a fazer.
Além disso, Ronaldo não aceitava atuar como centroavante. Ele queria jogar como no Real Madrid, partindo de uma das pontas e tendo liberdade para aparecer nas áreas de finalização.
“Nunca pensei em colocar Ronaldo como único centroavante desde o início. Não acho que seja o melhor para o rendimento dele ou da Seleção. Mas nem foi preciso ele me dizer isso.”
No primeiro jogo depois da Copa, já no início das Eliminatórias para a Euro 2016, Cristiano Ronaldo novamente não foi opção. Portugal perdeu em casa para a Albânia.
Ronaldo havia jogado pelo Real Madrid no fim de semana anterior à pausa para as seleções e começou a treinar com bola dois dias depois do jogo contra a Albânia.
Carlo Ancelotti garantiu que o português não tinha nenhuma lesão, apenas queixas físicas, o que aumentou as especulações sobre sua ausência.
Após a derrota para a Albânia, Paulo Bento foi demitido e respondeu a uma pergunta sobre se acreditava que Ronaldo havia influenciado a decisão da Federação.
“Se você me pergunta se houve alguma situação diretamente comigo, digo que não. Se ele confrontou os dirigentes, é uma situação em que não quero acreditar. Invertiam-se os papéis e, numa hierarquia, isso seria virá-la do avesso.”
“Não seria bom para mim, para o jogador ou para a direção. Não faz sentido que um jogador, qualquer um e por mais talentoso que seja, possa influenciar a decisão da direção de um clube ou de uma federação”, completou.
Bento ainda declarou: “Quando se perde é normalmente quando conheço melhor as pessoas. Quando se ganha, vamos embalados pela onda da euforia e da satisfação. Não esperava mais nem menos de Ronaldo.”
“Tive um prazer enorme em treinar a Seleção, e Ronaldo de tempos em tempos.”
Durante anos, a relação entre Cristiano Ronaldo e Fernando Santos foi marcada por elogios mútuos. O vínculo parecia ainda mais forte após a conquista da Euro 2016.
Ronaldo não se cansava de elogiar Santos e sua capacidade de acreditar no grupo. Um dos momentos mais marcantes foi a palestra no vestiário do Stade de France, logo após a conquista do título europeu.
No fim daquele ano, quando Ronaldo venceu o prêmio The Best, Fernando Santos também estava indicado ao prêmio de melhor técnico. “Gostava que tivesse ganhado, mas fica para a próxima, mister”, disse Ronaldo.
Fernando Santos repetia em praticamente toda coletiva e entrevista que Cristiano Ronaldo era o melhor jogador do mundo e o único com vaga garantida no time titular.
Até que chegou a Copa do Mundo de 2022 e a decisão de que Portugal também poderia jogar sem Ronaldo. O treinador o substituiu uma vez, depois outra e, na terceira, o capitão explodiu.
“Está com uma pressa do c… para me tirar, f…”, disse o jogador ainda no gramado, antes de demonstrar outras insatisfações já sentado no banco de reservas.
Fernando Santos não gostou do que viu posteriormente na televisão. A partir daquele momento, Ronaldo não voltou a ser titular.
O mal-estar ficou evidente, embora o atacante tentasse disfarçá-lo em nome do objetivo coletivo.
Após a eliminação para Marrocos, o capitão desabou em lágrimas. Passou por Fernando Santos, que lhe deu um tapinha nas costas, e seguiu diretamente para o vestiário.
As críticas, porém, foram verbalizadas por sua então companheira, Georgina Rodríguez.
“Hoje, seu amigo e treinador decidiu mal. Esse amigo para o qual você tem tantas palavras de admiração e respeito. O mesmo que, ao colocá-lo em campo, viu como tudo mudou, mas era tarde”, escreveu Georgina nas redes sociais.
“Não se pode subestimar o melhor jogador do mundo, sua arma mais poderosa. Muito menos se deve dar a cara por quem não o merece. A vida dá lições. Hoje não perdemos, aprendemos. Admiramos você, Cristiano”, completou.
Fernando Santos acabou chegando a um acordo para rescindir o contrato com a Federação. Roberto Martínez assumiu o cargo, e Cristiano Ronaldo nunca teve uma palavra pública com o novo treinador.
O jogador que havia elogiado tanto Santos após a Euro 2016 não publicou uma mensagem de despedida nem fez outro comentário sobre a saída do técnico.
A relação com Jorge Jesus, que Cristiano Ronaldo já conhecia do Al-Nassr, foi muito breve. Isso apesar de os dois terem vivido um ano de sucesso no futebol saudita e trocado elogios antes da estreia de Jesus pela Seleção.
Na ocasião, o treinador afirmou que Ronaldo era “um símbolo de Portugal e da Seleção”. O jogador, por sua vez, disse estar pronto para tudo: ser titular e jogar os 90 minutos, ser titular e não atuar os 90, ser reserva e entrar ou até ficar no banco sem entrar.
A primeira vez em que ficou no banco sem entrar, porém, marcou o início do fim.
Ronaldo não gostou de ter passado muito tempo aquecendo sem entrar em campo. Depois, não participou do primeiro treino no gramado e deixou o estádio para retornar ao hotel.
Nesta quarta-feira (30), Jorge Jesus afirmou que não havia nenhum conflito entre os dois.
“Isto parece que há aqui um caso entre mim e ele. Não há caso nenhum, pá. Já tive casos com muitos jogadores, mas não queiram fazer disto um caso que não existe.”
“Isto foi uma opção de treinador que tinha um plano. O estatuto é uma coisa, as regras são iguais para todos”, garantiu o técnico.
Jesus reforçou sua autoridade: “O estatuto não dá direito para que os jogadores sejam diferenciados. O estatuto é o respeito pela carreira deles. Mas quem decide sou eu.”
“No clube manda o presidente, na equipe mando eu. Com os jogadores é igual”, acrescentou, revelando que Gonçalo Ramos seria novamente titular, desta vez contra a Dinamarca.
As palavras não foram bem recebidas por Cristiano Ronaldo, que decidiu deixar imediatamente o estádio e a seleção nacional.
Jorge Jesus ficou surpreso ao saber do que havia acontecido ainda no gramado, mas não havia mais o que fazer. Mais tarde, o capitão confirmou que havia deixado a concentração.
“Após a conferência de imprensa do Selecionador Nacional, e no seguimento de uma conversa com o Presidente da Federação Portuguesa de Futebol, tomei a decisão de deixar o estágio da Seleção Nacional”, escreveu Ronaldo no Instagram.