Data centers não podem virar mais um encargo na conta de luz
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Data centers não podem virar mais um encargo na conta de luz

  • 29/09/2026 06:00
  • Redação

O Brasil encontra-se diante de uma oportunidade histórica com o avanço da demanda global por novos data centers, impulsionada sobretudo pelas soluções de inteligência artificial. A atração desses investimentos trará inovação, geração de empregos e desenvolvimento tecnológico para quem souber aproveitar essa janela. Nesse sentido, o Redata (Regime Especial de Incentivos para o Desenvolvimento de Infraestrutura de Data Centers) é uma oportunidade fundamental para garantir que não fiquemos para trás nessa corrida. 

No entanto, o debate atual sobre a regulamentação desses incentivos fiscais tem girado em torno das fontes de energia que irão abastecer as estruturas de processamento de dados, em especial na questão de incluir apenas fontes intermitentes para atender à grande demanda energética dos data centers. A consequência direta de preterir fontes seguras e de baixa emissão pode ter um impacto preocupante: o aumento da conta de luz do consumidor comum. 

Data centers são instalações que funcionam sem parar. Por isso exigem energia contínua, estável e segura, 24 horas por dia, sete dias por semana. Embora o Brasil tenha uma matriz elétrica invejável e predominantemente renovável, sabemos que as fontes eólica e solar são intermitentes. Quando o sol se põe e os ventos cessam, coincidindo com o horário de ponta de consumo, eles não são capazes de sustentar o fornecimento constante que esses centros de processamento exigem. 

Se o modelo não for bem estruturado, a expansão acelerada sobrecarregará o Sistema Interligado Nacional (SIN) na ponta, exigindo uma contratação massiva de reserva de capacidade. Esse encargo de potência tem um alto custo, que acaba sendo rateado e repassado para a conta de luz de todos os brasileiros. 

A Empresa de Pesquisa Energética (EPE) já realizou uma segunda revisão do plano de carga para o horizonte 2026-2030, saltando a previsão da carga de data centers de 2.157 MW para alarmantes 5.653 MW. É uma diferença repentina de 3.496 MW. Para garantir que essa demanda seja atendida com segurança dia a dia no horário de pico, o sistema terá um custo de capacidade adicional de R$ 7 bilhões ao ano. Isso equivale a 13,35% de todo o orçamento previsto para a Conta de Desenvolvimento Energético (CDE) em 2026 (orçada em R$ 52,7 bilhões) e a 17,95% do LRCAP.  

Em outras palavras, seria um encargo severo imposto à tarifa de cidadãos e indústrias, que não têm relação nenhuma com a operação desses centros de dados. 

A saída para evitar essa penalização social não é frear o desenvolvimento, mas adotar uma política pragmática. O ideal é condicionar a instalação de novos data centers à autoprodução de energia. Esse é um modelo internacional já testado, que vem sendo aplicado de maneira eficiente nos Estados Unidos. Na definição do conteúdo do decreto do Redata, o poder público deve focar em estabelecer as regras de atendimento e deixar que o próprio empreendedor decida como supri-las da forma mais competitiva e eficiente. 

A melhor equação para esses complexos é a combinação inteligente de matrizes: aliar a energia limpa das renováveis ao atributo da confiabilidade e firmeza do gás natural. Dessa forma, os data centers não demandam do grid na hora da ponta, o que evita a criação de custos adicionais para o restante dos consumidores. O gás natural, como combustível da transição energética, viabiliza uma solução de baixíssima emissão para suprir essa intermitência, garantindo a resiliência operacional do investidor sem onerar os demais usuários da rede. 

A transição energética e a digitalização não podem ser desenhadas de costas para a realidade sistêmica do país. Restringir o Redata exclusivamente à energia renovável forçará o sistema a prover uma reserva artificial bilionária paga pela sociedade. Precisamos criar um marco legal que incentive a autoprodução e reconheça a importância da flexibilidade do gás natural, assegurando que o Brasil avance rumo à liderança digital sem transferir o custo dessa modernização para o bolso do cidadão. 

* Lino Cançado é CEO da Eneva

Os artigos publicados pelo CNN Infra buscam estimular o debate, a reflexão e dar luz a visões sobre os principais desafios, problemas e soluções enfrentados pelo Brasil e por outros países do mundo. Os textos publicados neste espaço não refletem, necessariamente, a opinião da CNN Brasil.
  • Fonte: CNN Brasil
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