A conta de luz da inteligência artificial
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A conta de luz da inteligência artificial

  • 29/09/2026 06:00
  • Redação

A inteligência artificial vai aumentar a conta de luz dos brasileiros? A pergunta é legítima, mas a resposta não pode ser automática. O Fórum Econômico Mundial registrou a expectativa de economistas de que a expansão dos data centers pressione os sistemas elétricos, eleve custos locais e provoque resistência das comunidades. O alerta merece atenção. Transformá-lo, porém, em condenação prévia à infraestrutura digital seria um erro.

A demanda por eletricidade cresce por razões muito mais amplas. As famílias usam mais ar-condicionado, equipamentos domésticos, serviços digitais e tecnologias que aumentam o conforto e a produtividade. O consumo energético per capita tende a crescer à medida que melhora o padrão de vida. Isso é desejável, desde que a expansão seja acompanhada de eficiência, inclusão e responsabilidade ambiental.

Também é preciso separar duas questões. Uma é o aumento do consumo total de energia. Outra é o aumento do preço de cada quilowatt-hora. A tarifa resulta de geração, transmissão, distribuição, encargos, tributos e decisões regulatórias. Se um data center exigir novas linhas ou subestações, é justo discutir quem deve pagar por elas. Não é correto, entretanto, atribuir automaticamente toda pressão tarifária a um único setor.

O Brasil pode escolher outro caminho. No Nordeste, há enorme expansão eólica e solar, mas também períodos de curtailment, quando a geração renovável é limitada por falta de transmissão, flexibilidade ou demanda. Data centers instalados em locais adequados podem transformar parte dessa energia hoje desperdiçada em processamento de dados, inteligência artificial, pesquisa e desenvolvimento regional.

Isso exige planejamento. Os projetos devem contratar energia renovável adicional, contribuir para a expansão da rede que utilizarem, incorporar armazenamento e flexibilidade, reduzir o consumo de água e divulgar indicadores auditáveis de eficiência. Também precisam oferecer formação profissional, parcerias com universidades, desenvolvimento de fornecedores e contrapartidas sociais e ambientais proporcionais aos impactos locais.

As comunidades não devem ser tratadas como obstáculos ao progresso. Têm o direito de conhecer os custos, participar das decisões e receber benefícios concretos. Quando isso acontece, o data center deixa de ser um galpão fechado que consome recursos e pode tornar-se parte de uma estratégia de desenvolvimento.

A inteligência artificial terá custos energéticos. A questão decisiva é quem os pagará, quem colherá os benefícios e quais regras garantirão que essa nova indústria seja compatível com a vida das pessoas e com os limites ambientais. Reprimir a tecnologia não resolve. Planejar, regular e repartir melhor seus resultados pode fazer dela uma oportunidade histórica.

* Jean Paul Prates é sócio da Altiva Inteligência Estratégica, ex-senador da República e ex-presidente da Petrobras

Os artigos publicados pelo CNN Infra buscam estimular o debate, a reflexão e dar luz a visões sobre os principais desafios, problemas e soluções enfrentados pelo Brasil e por outros países do mundo. Os textos publicados neste espaço não refletem, necessariamente, a opinião da CNN Brasil.
  • Fonte: CNN Brasil
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