Lifting facial: quando rejuvenescer o rosto deixa de ser estética
- 28/09/2026 08:00
- Redação
Nos últimos anos, diferentes procedimentos para rejuvenescimento facial passaram a dividir o mesmo espaço nas redes sociais. Toxina botulínica, preenchimentos, bioestimuladores e cirurgias aparecem muitas vezes sob o grande guarda-chuva da estética facial. Essa aproximação pode criar uma percepção equivocada: a de que são apenas diferentes graus de uma mesma intervenção.
Não são. Um lifting facial, tecnicamente chamado de ritidoplastia, é uma cirurgia. Envolve incisões, anestesia, manipulação de tecidos, recuperação pós-operatória e riscos que precisam ser conhecidos antes da decisão. Por isso, quando a indicação deixa de ser uma aplicação ou um procedimento minimamente invasivo e passa a envolver uma operação, a conversa sobre rejuvenescimento também precisa mudar.
O envelhecimento modifica diferentes estruturas do rosto. Há perda e redistribuição de volume, alterações da pele, frouxidão dos tecidos profundos e mudanças no contorno da mandíbula e do pescoço. Preenchimentos e outros procedimentos podem atuar sobre algumas dessas alterações, mas não substituem o tratamento cirúrgico quando existe flacidez significativa e indicação de reposicionamento dos tecidos.
O lifting moderno também não consiste simplesmente em “puxar a pele”. Diferentes técnicas trabalham estruturas profundas da face, como o sistema músculo-aponeurótico superficial, conhecido pela sigla SMAS, e, quando necessário, estruturas do pescoço. O objetivo é reposicionar tecidos e tratar a flacidez evitando que toda a tensão necessária para produzir o resultado recaia sobre a pele.
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A evolução das técnicas permitiu buscar resultados mais naturais e adequados às características de cada rosto. Existem abordagens com diferentes extensões de descolamento e maneiras distintas de tratar os planos profundos. Isso não transforma, porém, uma ritidoplastia em um procedimento simples ou isento de risco.
Hematoma é uma das complicações mais conhecidas do lifting facial. Também podem ocorrer infecção, alterações de sensibilidade, problemas de cicatrização, sofrimento ou necrose da pele, lesões nervosas, assimetrias e necessidade de nova intervenção. Como em outras cirurgias, existem ainda riscos relacionados à anestesia e, embora menos frequentes, eventos como trombose e complicações cardiopulmonares.
Por isso, segurança começa antes de entrar no centro cirúrgico. A avaliação pré-operatória deve considerar idade, condições clínicas, pressão arterial, tabagismo, medicamentos utilizados, cirurgias
anteriores e outros fatores capazes de modificar o risco. O planejamento também precisa definir qual técnica é adequada para aquele paciente e se a expectativa de resultado é compatível com aquilo que a cirurgia pode oferecer.
A Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica orienta que o lifting seja realizado em centro cirúrgico autorizado pela Vigilância Sanitária, com equipamentos e equipe treinada para responder a eventuais intercorrências. Essa estrutura não é um detalhe burocrático. Faz parte do procedimento.
A expansão dos procedimentos estéticos da face trouxe benefícios, novas técnicas e possibilidades menos invasivas. Ao mesmo tempo, tornou mais difícil para o público perceber onde termina um procedimento relativamente simples e começa uma intervenção de maior complexidade.
O debate ganhou um novo capítulo em 2026 com decisões judiciais e mudanças nas normas envolvendo a atuação odontológica em procedimentos estéticos faciais. A discussão jurídica ainda está em curso e envolve diferentes resoluções e recursos. Para o paciente, porém, ela chama atenção para uma pergunta que deveria existir independentemente da profissão envolvida: qual é exatamente o procedimento que será realizado, qual sua complexidade e qual formação e estrutura são necessárias para fazê-lo com segurança?
Quanto mais sofisticadas ficam as possibilidades de rejuvenescimento, menos sentido faz tratar todas elas como se fossem equivalentes.
Termos como deep plane, SMAS, mini-lifting e outras denominações ganharam popularidade nas redes sociais. Conhecer as técnicas pode ajudar o paciente a compreender o procedimento, mas escolher uma cirurgia pela expressão que está em alta é inverter a ordem da decisão.
A indicação deve começar pela avaliação do rosto, do grau de flacidez, das estruturas que precisam ser tratadas, das condições clínicas e dos objetivos do paciente. A partir daí é que se define a estratégia cirúrgica.
Também é importante verificar a formação do profissional, perguntar onde a cirurgia será realizada, quem será responsável pela anestesia, como será o acompanhamento pós-operatório e qual estrutura existe caso ocorra uma emergência. No caso da cirurgia plástica, a qualificação do médico e o registro de especialidade podem ser consultados nos canais oficiais dos conselhos profissionais.
O resultado natural é uma preocupação legítima de quem procura um lifting. Mas naturalidade não pode ser o único critério para escolher onde e com quem operar. Antes de ser um procedimento estético, a ritidoplastia é um ato cirúrgico. E uma cirurgia segura começa muito antes da primeira incisão.
*Texto escrito por Raphael Alcalde (CRM: 117245 | RQE: 84289), Cirurgião Plástico, Especialista pela Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica e Membro Brazil