Acidente de moto: o capacete pode decidir o futuro do cérebro
- 23/09/2026 03:45
- Redação
Os acidentes de trânsito fazem parte da rotina dos serviços de emergência brasileiros e, entre suas consequências mais graves, está o traumatismo cranioencefálico, conhecido pela sigla TCE. Para nós, neurocirurgiões, esse é um cenário particularmente preocupante porque uma colisão ou queda que acontece em poucos segundos pode deixar consequências para toda a vida. E quando falamos em motociclistas, a vulnerabilidade é ainda maior.
Os números ajudam a dimensionar o problema. Dados do Ministério da Saúde mostram que, entre 2011 e 2021, o número de internações de motociclistas por lesões no trânsito passou de 70.508 para 115.709. No mesmo período, a taxa de internação subiu de 3,9 para 6,1 casos por 10 mil habitantes, crescimento de aproximadamente 55%. Em 2021, os motociclistas já representavam 61% das internações por lesões de trânsito registradas no levantamento.
A Semana Nacional de Trânsito é uma oportunidade para falar sobre prevenção, mas também para lembrar que, em um acidente de moto, proteger a cabeça pode significar a diferença entre uma recuperação relativamente rápida e uma lesão neurológica grave, incapacidade permanente ou morte.
O traumatismo cranioencefálico ocorre quando uma força externa provoca uma lesão no cérebro. Nem sempre é necessário haver uma fratura no crânio ou um ferimento aparente. A desaceleração brusca provocada por uma colisão, por exemplo, pode fazer com que o cérebro se desloque dentro do crânio e sofra lesões.
A gravidade varia muito. Há casos leves, como algumas concussões, mas também podemos encontrar contusões cerebrais, hemorragias, hematomas intracranianos, edema cerebral e lesão axonal difusa, uma forma grave de trauma causada pelos movimentos rápidos de aceleração e desaceleração do cérebro.
O problema é que nem todas essas lesões apresentam sinais evidentes imediatamente após o acidente. Uma pessoa pode estar consciente, conversar normalmente e, horas depois, desenvolver sintomas decorrentes de um sangramento dentro do crânio. Por isso, perda de consciência, confusão mental, sonolência excessiva, vômitos repetidos, convulsões, fraqueza em um dos lados do corpo, alteração da fala, dor de cabeça intensa ou qualquer piora do estado neurológico depois de um trauma exigem avaliação médica imediata.
Não existe equipamento capaz de eliminar completamente o risco de uma lesão cerebral em um acidente de moto. Mas, entre as medidas de proteção individual disponíveis para o motociclista, o capacete é fundamental porque atua justamente sobre uma das regiões mais vulneráveis e determinantes para o prognóstico: a cabeça.
Sua função é absorver e distribuir parte da energia produzida pelo impacto, diminuindo a força transmitida ao crânio e ao cérebro. A Organização Mundial da Saúde afirma que capacetes seguros e de boa qualidade podem reduzir em até 74% o risco de lesão cerebral e em mais de seis vezes o risco de morte em acidentes. A própria OMS aponta o trauma de cabeça como a principal causa de morte entre motociclistas.
Mas não basta simplesmente colocar um capacete na cabeça. Ele precisa ter qualidade adequada, tamanho correto e estar devidamente afivelado. Estudos reunidos pela OMS mostram que capacetes que se soltam durante o acidente perdem parte importante de sua capacidade de proteção, e motociclistas que têm o equipamento ejetado apresentam risco muito maior de lesões na cabeça e na face.
Esse é um aspecto que muitas vezes é subestimado. Um capacete frouxo, inadequado ou não afivelado corretamente pode não permanecer na posição necessária justamente no momento em que sua proteção é mais importante.
Quando discutimos acidentes de trânsito, é natural que a mortalidade seja o indicador que mais chama atenção. Na neurocirurgia, entretanto, existe outra preocupação: as sequelas de quem sobrevive a um TCE grave.
Uma lesão cerebral pode comprometer memória, atenção, linguagem, capacidade de planejamento, equilíbrio e movimentos. Em alguns pacientes, também podem ocorrer alterações importantes de comportamento e personalidade. Dependendo da extensão do trauma, uma pessoa jovem, ativa e independente pode passar a necessitar de meses de reabilitação ou de auxílio permanente para atividades que antes realizava sem dificuldade.
É por isso que o impacto de um acidente grave não termina quando o paciente recebe alta do hospital. Ele pode atingir a vida profissional, as relações familiares, a autonomia e a capacidade de voltar à rotina anterior. Prevenir uma lesão cerebral grave significa também evitar muitas dessas consequências.
O capacete não impede que o acidente aconteça e não substitui outras medidas fundamentais de segurança no trânsito, como respeito aos limites de velocidade, condução responsável, manutenção adequada do veículo e ausência de álcool ao dirigir. Mas existe uma diferença essencial: quando a colisão ou a queda acontece, é o capacete que está diretamente entre a cabeça do motociclista e o impacto.
Como neurocirurgião, muitas vezes recebo o paciente quando o trauma já aconteceu e nosso trabalho passa a ser evitar que a lesão provoque danos ainda maiores. No trânsito, entretanto, uma parte importante dessa proteção começa antes. Usar um capacete seguro, adequado e corretamente afivelado é uma atitude simples diante da dimensão das consequências que um traumatismo cranioencefálico pode provocar.
*Artigo escrito pelo neurocirurgião e membro da Brazil Health Dr. Cesar Cimonari de Almeida – CRM/SP 150620 | RQE 66640