ICE: Agente atira em entregador venezuelano no Texas e gera protestos
- 21/09/2026 12:40
- Redação
Um agente do Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA (ICE) baleou e feriu um homem venezuelano que trabalhava como entregador do aplicativo DoorDash no domingo (20), na capital do Texas, confirmaram autoridades municipais. O caso desencadeou protestos contra a repressão à imigração promovida pelo governo Trump.
As autoridades federais não informaram o que motivou o disparo — o terceiro envolvendo agentes de imigração no Texas desde o início do segundo mandato de Trump. As críticas às táticas do ICE vêm crescendo recentemente, com as pesquisas indicando que a maioria dos americanos se opõe às políticas de imigração do presidente.
Há dois meses, agentes do ICE mataram a tiros um homem mexicano durante uma abordagem de trânsito em Houston. Dois adolescentes — cidadãos americanos — relataram ter sido agredidos por agentes do ICE no início deste mês em Alamo, Texas, após filmarem uma abordagem migratória; um vídeo mostra um deles recebendo repetidos socos na cabeça enquanto estava imobilizado no chão.
No mês passado, o agente do ICE Christian Castro foi acusado de mentir sobre o disparo que atingiu um homem venezuelano em Minnesota; ele responde ao processo em liberdade após se declarar inocente.
“Isso é um padrão — um padrão perturbador — e precisa acabar”, afirmou o deputado federal Greg Casar, democrata que representa parte de Austin.
O homem baleado no domingo em Austin foi identificado como Wilber Rafael Garces Perez, de 28 anos, por Kate Lincoln-Goldfinch, uma advogada de imigração que afirmou representar a família dele.
Autoridades informaram que Garces Perez foi baleado no tronco pouco antes das 13h de domingo, na região norte de Austin. A DoorDash disse à CNN que Garces Perez trabalhava como entregador da plataforma no momento do incidente.
Agentes do ICE realizavam operações direcionadas de fiscalização migratória no domingo, baseadas na verificação de placas de veículos, quando se depararam com um carro registrado em nome de Garces Perez — que era alvo de uma ordem de deportação —, segundo uma fonte.
Os agentes abordaram o veículo e questionaram Garces Perez. Houve uma breve interação antes de ele fugir do local em seu carro, relatou a fonte. O disparo ocorreu na sequência.
A CNN entrou em contato com o Departamento de Segurança Interna para obter comentários.
O disparo foi registrado em vídeo por Heidi Clark, que fazia uma transmissão ao vivo no Facebook enquanto dirigia pela Research Boulevard. Ao se aproximar do cruzamento com a Anderson Square, sua fala foi interrompida pelo som estridente de pneus cantando.
“Nossa!”, disse Clark ao virar a câmera do celular para a cena; ao fundo, era possível ver uma pessoa saindo correndo de um SUV em direção a um sedã azul. A surpresa rapidamente deu lugar ao choque quando os disparos começaram. “Meu Deus!”, disse Clark.
Mais tarde, Garces Perez aparece sentado no chão em um vídeo obtido pela ABC News, com as mãos algemadas nas costas e a camisa rasgada, revelando o que parece ser um ferimento aberto de bala nas costas.
Garces Perez é um imigrante irregular da Venezuela que tinha uma ordem definitiva de deportação, informou o Departamento de Segurança Interna em uma publicação no X. Ele estava em condição estável e “sob custódia federal aguardando a deportação”, disse a pasta.
A Homeland Security Investigations (HSI), divisão de investigações do Departamento de Segurança Interna, liderará a investigação com o apoio do FBI, segundo a publicação, que não forneceu mais detalhes.
A advogada Kate Lincoln-Goldfinch disse à CNN que não poderia confirmar o status migratório de Garces Perez.
O democrata Greg Casar afirmou, na noite de domingo, que o venezuelano Garces Perez havia recebido alta hospitalar e sido levado para a custódia do ICE, escrevendo no X: “Se o ICE o deportar, a testemunha-chave do disparo envolvendo o órgão desaparecerá. Ele não deve ser removido do país e precisa receber atendimento médico adequado.”
A esposa de Garces Perez disse não ter conhecimento de uma ordem de deportação, acreditando que ele estava passando por trâmites migratórios, relatou a advogada do casal.
“O que sabemos é que ele possuía anteriormente uma autorização de trabalho válida e que, com base nas informações disponíveis, entrou legalmente nos Estados Unidos”, disse Lincoln-Goldfinch em um comunicado. “Nossa preocupação imediata é garantir que sua família receba informações precisas e oportunas, e que sejam assegurados o acesso e a comunicação adequados enquanto o caso é tratado.”
A chefe de polícia de Austin, Lisa Davis, disse a repórteres que pode ter havido uma perseguição envolvendo o agente do ICE, mas ressaltou que a informação era preliminar e afirmou ainda não ter recebido um relatório detalhado dos parceiros federais.
O Departamento de Segurança Pública do Texas informou à CNN que policiais estaduais foram acionados para prestar apoio em uma perseguição veicular, mas o disparo envolvendo um policial ocorreu antes de chegarem ao local.
Ao chegarem, os policiais imediatamente iniciaram o atendimento médico ao motorista, juntamente com outros agentes da lei, segundo o órgão.
Horas após os disparos, dezenas de manifestantes se reuniram perto do local do ocorrido — um cruzamento movimentado ao lado de um viaduto — sob o calor intenso de domingo (cerca de 35°C).
Os manifestantes posicionaram-se de um lado da via; alguns carregavam cartazes contra o ICE e bandeiras do México, gritando enquanto o trânsito na região avançava lentamente e policiais uniformizados tentavam conter a multidão.
“Moro em Austin a vida toda, mas, pelo que vejo agora, nunca me senti tão traído”, disse à CNN Jaasiel Avilva, veterano do Exército de 22 anos e filho de imigrantes mexicanos, enquanto o protesto acontecia ao seu redor. “Isso é simplesmente terrorismo doméstico”, acrescentou ele.
Janney Olvera, de 13 anos, disse à KEYE, emissora afiliada à CNN, que ela e a mãe foram ao protesto logo após o treino de líderes de torcida. À beira da estrada, ela segurava uma bandeira do México para homenagear a herança mexicana e guatemalteca de sua família.
“Não estamos recebendo justiça”, disse Olvera. “Isso deveria proteger nossas ruas? Acho que não.”
Em resposta aos disparos de domingo, a Liga de Cidadãos Latino-Americanos Unidos (LULAC) — organização de direitos civis para latinos fundada no Texas — pediu ao Congresso que estabeleça uma supervisão independente sobre as questões de imigração e garanta que qualquer agente do Departamento de Segurança Interna ou do ICE que viole os direitos constitucionais de uma pessoa seja investigado e processado.
“Nenhuma agência deve ser a única juíza de sua própria conduta”, afirmou Roman Palomares, presidente nacional da LULAC, em um comunicado. “Quando o governo tira ou põe em risco uma vida, a Constituição exige o devido processo legal e a responsabilização; essas proteções pertencem a todas as pessoas neste país.”