Voo em jatinho e mensagens: o que se sabe sobre o caso Moraes e Vorcaro
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Voo em jatinho e mensagens: o que se sabe sobre o caso Moraes e Vorcaro

  • 20/09/2026 18:15
  • Redação

Relatórios divulgados pela PF (Polícia Federal) indicam proximidade entre Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, e o ministro Alexandre de Moraes, do STF (Supremo Tribunal Federal). A relação está no centro de uma crise sem precedentes que atinge a Corte nos últimos tempos.

A retirada de sigilo dos documentos, formulados a partir de dados obtidos do celular de Vorcaro, ocorreu por decisão do ministro André Mendonça.

Entre o conteúdo divulgado dos relatórios da PF, há mensagens do ex-banqueiro para um telefone atribuído ao ministro, além de contratos milionários do banco com o escritório de advocacia Barci de Moraes, que pertence à família do magistrado.

Veja tudo o que se sabe até o momento:

Mensagens do celular de Vorcaro

Mendonça retirou sigilo sobre a ação que apura a troca de mensagens entre Vorcaro e Moraes em 1° de fevereiro.

Um relatório produzido pela PF revela conversas nas quais o ex-banqueiro pedia ao ministro que atuasse junto ao diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, e ao procurador-geral da República, Paulo Gonet, para conter o avanço das investigações sobre o banco.

Diante das informações, Mendonça pediu à PGR (Procuradoria-Geral da República) esclarecimentos.

Com a quebra de sigilo, supostas conversas entre Vorcaro e Moraes foram a público. A PF reuniu ao menos 52 mensagens entre dezembro de 2023 e novembro de 2025.

O relatório reúne conteúdos enviados por Vorcaro a um número salvo como “Alexandre de Moraes BRASILIA”. As respostas do ministro não aparecem no material divulgado.

As investigações mostram que o ex-banqueiro usava a função de mensagem temporária e, em certas ocasiões, escrevia nas notas do celular, fazia capturas de tela e enviava como imagens pelo WhatsApp. A PF afirmou ter recuperado parte desse conteúdo a partir de arquivos e registros encontrados no aparelho.

Em uma das conversas de maior repercussão, Vorcaro teria questionado Moraes se deveria sair do país às vésperas de ser preso.

Em mensagem enviada em 15 de novembro de 2025, Vorcaro perguntou a Moraes: “Acha que segunda já tenho que estar fora?”. Na sequência, questionou sobre um juiz identificado como Ricardo, perguntou se o então presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, estava ciente da situação e se seria possível fazer alguma coisa.

No dia seguinte, um dia antes da prisão, Vorcaro voltou a procurar o ministro e perguntou: “Você acha que existe alguma chance disso acontecer amanhã de manhã?”.

Na noite de 17 de novembro daquele ano, minutos antes de ser preso, o ex-banqueiro mandou outra mensagem ao magistrado. “To indo assinar com os investidores de fora e estou online”, escreveu, ao informar que estava a caminho de uma viagem ao exterior.

O então do Banco Master foi preso preventivamente pouco depois. Na manhã seguinte, a PF deflagrou a primeira fase da Operação Compliance Zero e o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master.

Ao menos seis encontros

Além das trocas de mensagem, a investigação ainda mapeou ao menos seis encontros entre eles, que ocorreram entre fevereiro de 2024 e agosto de 2025. A CNN traçou uma linha do tempo dos acontecimentos com base no relatório da PF.

Segundo o material, o primeiro contato foi intermediado ainda em 2023 pelo ex-ministro das Comunicações no governo Bolsonaro, Fábio Faria, que encaminhou a Vorcaro o número de telefone de Moraes.

Em 2 de fevereiro de 2024, segundo as mensagens analisadas, ocorreu um jantar entre Moraes e Vorcaro, com a presença das respectivas esposas. Em novembro de 2024, ocorreram vários outros encontros.

Em março de 2025, Vorcaro informou à esposa que estava com Moraes e, posteriormente, repetiu a mesma informação a um diretor do Banco Central. Em abril de 2025, ele disse que estava indo encontrar Moraes “perto de casa”.

O último encontro registrado nas mensagens anexadas ao relatório da investigação ocorreu em 8 de agosto de 2025.

Vorcaro informou à então namorada que não poderia viajar por estar com Moraes e que, em seguida, teria uma reunião com alguém identificado apenas como “Ciro”.

PF identifica indícios de ao menos seis encontros entre Vorcaro e Moraes | CNN 360º

Contrato de R$ 130 milhões

Os relatórios da PF também mostram que o escritório Barci de Moraes, de Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro Alexandre de Moraes, firmou um contrato de mais de R$ 130 milhões com o Banco Master.

O contrato firmado, como a CNN mostrou, previa uma remuneração mensal de R$ 3,6 milhões durante três anos, de 2024 a 2027. Com a liquidação do Banco Master pelo Banco Central, em novembro do ano passado, os pagamentos foram interrompidos.

Após a divulgação do material, o escritório de Viviane confirmou que Moraes teve acesso ao contrato.

Veja contrato do Master que previa R$ 131 milhões à esposa de Moraes | CNN NOVO DIA

Em nota à CNN, o Barci de Moraes disse que seu setor de compliance, “como faz em outros casos semelhantes”, solicitou informações ao ministro “na condição de marido da sócia diretora do referido escritório, sobre a eventual existência de impedimentos legais para a contratação nos termos propostos na minuta contratual, tais como ações no STF sobre sua relatoria ou mesmo participação em julgamentos de interesse do possível cliente”.

Segundo relatório da PF, metadados do arquivo do documento, enviado a Vorcaro pelo WhatsApp, indicam que a peça foi editada por um usuário identificado como “Ministro Alexandre de Moraes”.

De acordo com o escritório, o magistrado verificou o documento e constatou que não havia nenhum empecilho para a assinatura.

“Diante da inexistência de previsão de atuação no STF ou de qualquer impedimento legal, uma vez que o Ministro Alexandre de Moraes jamais julgou qualquer causa envolvendo o Banco Master, o contrato foi assinado e os serviços advocatícios devidamente prestados”, diz o escritório.

Dados da Receita Federal enviados à CPI do Crime Organizado em abril mostram que o escritório recebeu R$ 80,2 milhões do Banco Master entre os anos de 2024 e 2025. Os pagamentos foram levantados pela comissão com base na declaração de IR (Imposto de Renda) da instituição comandada por Vorcaro. À época, o escritório não confirmou as informações e disse que elas eram “incorretas e vazadas ilicitamente”.

Anteriormente, em março, o escritório de advocacia disse ter produzido 36 pareceres jurídicos e opiniões legais ao banco. Conforme o texto, o trabalho envolveu a subcontratação de outros três escritórios e a realização de 79 reuniões na sede do Master, além de dois encontros por videoconferência.

Jatinho de Vorcaro

Vídeo divulgado pelo jornal O Globo neste domingo (20) mostra Moraes e a esposa, Viviane de Moraes, usando uma aeronave ligada a Vorcaro em 22 de agosto de 2025.

O desembarque, no Aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro, foi registrado em vídeo obtido pelo jornal.

À CNN, o escritório Barci de Moraes disse que contrata serviços de táxi aéreo e que a Prime Aviation está entre as empresas utilizadas.

“Em nenhum dos voos realizados em aeronaves da Prime Aviation com integrantes do escritório esteve presente Daniel Vorcaro ou qualquer outra pessoa alheia ao escritório”, afirma.

A aeronave, um Legacy 650, pertencia a uma empresa de Vorcaro, segundo a PF.

Escritório de Moraes nega presença de Vorcaro em voo realizado com a Prime Aviation | CNN AGORA

O voo foi realizado após negociações do escritório de Viviane para um segundo contrato com empresas de Vorcaro.

De acordo com a PF, o escritório de Viviane firmou um segundo contrato de prestação de serviços jurídicos no valor de até R$ 50 milhões com a Viking Participações, empresa representada por Vorcaro.

O contrato foi assinado em 12 de maio de 2025 e previa três anos de prestação de serviços. Entre as atividades estavam consultoria jurídica, atuação em procedimentos administrativos, acompanhamento de investigações e representação em processos judiciais.

Sete dias depois, em 19 de maio, a Viking e o escritório assinaram um acordo para definir como os R$ 50 milhões seriam quitados. Desse valor, R$ 40 milhões seriam pagos com participações em duas empresas ligadas a aeronaves.

Uma dessas empresas era dona de um avião Legacy 650. A outra estava em processo de compra de um helicóptero Airbus EC 155 B1.

Juntos, os dois contratos previam até R$ 158 milhões em honorários.

Como mostrou a CNN, o contrato com o escritório da esposa de Moraes era visto com prioridade por Vorcaro. Em uma das conversas reveladas pela PF, o ex-banqueiro afirma que o pagamento ao escritório não poderia “atrasar um dia” e era considerado “o mais importante”.

Moraes e o escritório negam a existência desse segundo contrato.

Crise no STF

A tensão que atinge a Suprema Corte se intensificou após a quebra de sigilo do relatório da PF que contém as mensagens de Vorcaro que seriam endereçadas a Moraes.

Após a divulgação do material, Moraes acusou Mendonça, por meio do inquérito das fake news, de improbidade administrativa e abuso de autoridade, e pediu abertura de investigação contra o magistrado. O presidente da Corte, Edson Fachin, declarou que a resposta à crise da Corte será “firme, proporcional e rigorosa”, e deu cinco dias para Moraes, Mendonça, Gonet e Andrei se manifestarem sobre a crise.

Na última terça-feira (15), os magistrados se reuniram em sessão para analisar o envolvimento do ministro Alexandre de Moraes com Daniel Vorcaro.

O julgamento se deu em meio a uma crise no Supremo, com trocas de ofícios entre ministros, disputa pelo acesso às provas e questionamentos sobre a condução das investigações feitas pelo ministro André Mendonça.

A sessão foi marcada por bate-bocas e trocas de acusações. Na ocasião, o ministro Flávio Dino pediu vista e suspendeu o julgamento, cujo placar parcial é de 4 a 3 para manter separada a análise dos casos de Moraes e Mendonça envolvendo as investigações do caso Master.

Na última quinta (17), Fachin decidiu adiar a análise do processo que avaliaria a conduta de André Mendonça. O julgamento estava previsto para a próxima quarta-feira (23), mas será remarcado “oportunamente”, segundo despacho do presidente do Tribunal.

A tensão ainda atinge o procurador-geral da República, Paulo Gonet, e o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, suspeitos de trabalhar para conter o avanço das investigações sobre o banco.

Uma foto divulgada pelo jornal O Globo e confirmada pela CNN neste sábado (19) mostra o PGR ao lado de Vorcaro durante festa em Londres.

Nela, Gonet aparece com um charuto nas mãos e sorrindo, ao lado de mais duas pessoas e rodeado por copos de bebidas alcoólicas. O material foi extraído do celular do ex-banqueiro pela PF (Polícia Federal).

  • Fonte: CNN Brasil
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