Beleza preventiva: estamos começando a cuidar da pele cedo demais?
- 19/09/2026 19:00
- Redação
Séruns, ácidos, cremes anti-idade e até toxina botulínica prévia. A busca por uma pele impecável ultrapassou o avançar da idade e atraiu um público cada vez mais jovem. Impulsionados pelas redes sociais e por promessas de pele “perfeita”, adolescentes e jovens adultos têm adotado rotinas de skincare complexas e procedimentos estéticos bem antes das primeiras linhas de expressão aparecerem.
A tendência levanta um alerta entre dermatologistas: até que ponto a prevenção é saudável e quando ela se torna um exagero estimulado pelo mercado?
Para especialistas, cuidar da pele desde cedo faz sentido, mas isso não significa começar precocemente tratamentos voltados exclusivamente para rugas.
Não é necessário esperar o aparecimento das primeiras rugas para começar a cuidar da pele. O uso do protetor solar, por exemplo, deve fazer parte da rotina desde a infância e adolescência. A exposição acumulada à radiação ultravioleta é um dos principais fatores relacionados ao envelhecimento cutâneo e também está associada ao desenvolvimento do câncer de pele.
Na prática, isso significa que prevenção não precisa estar relacionada a produtos antienvelhecimento. Proteger a pele do sol, evitar queimaduras solares e manter hábitos adequados ao longo da vida são medidas muito mais importantes para preservar a saúde da pele.
A rotina também deve ser simples. Adolescentes e jovens adultos não necessariamente precisam reproduzir rotinas de cuidados com muitos passos vistas nas redes sociais. O excesso de produtos pode, inclusive, aumentar a chance de irritação, principalmente quando diferentes ativos são combinados sem orientação.
“Na adolescência, o foco deve ser principalmente a saúde da pele. Uma rotina básica, com limpeza suave, hidratante adequado ao tipo de pele e protetor solar diariamente, já é suficiente para a maioria das pessoas. Quando existe acne, dermatite ou alguma outra condição dermatológica, o tratamento deve ser direcionado especificamente para aquela necessidade. Não vejo benefício em uma adolescente usar uma rotina com vários ácidos, peptídeos, retinoides e produtos firmadores simplesmente para prevenir rugas”, diz Silvia Quaggio, dermatologista.
O colágeno é uma proteína importante para a estrutura, firmeza e elasticidade da pele. Sua produção diminui progressivamente com o envelhecimento, mas isso não significa que pessoas muito jovens precisem utilizar produtos específicos com o objetivo de “repor” ou estimular colágeno.
A necessidade de determinados ativos depende da condição da pele e do objetivo do tratamento. Retinoides, por exemplo, podem ser utilizados em diferentes situações dermatológicas, mas não devem ser incorporados à rotina simplesmente porque existe a preocupação de evitar futuras rugas.
“O que eu normalmente oriento é que tratamentos com retinoides podem ser utilizados a partir dos 25 anos ou 30 anos, quando a gente tem aí um consumo de colágeno superior à produção. Então, o nosso processo de envelhecimento acaba sendo progressivo a partir daí. Eu costumo indicar ativos que tanto estimulam colágeno, estimulam renovação celular, mas sempre focando que o mais importante de um cuidado com a pele é a fotoproteção, hidratação e higiene adequada”, acrescenta Patrícia Ang, dermatologista e cirurgiã dermatológica.
Outro ponto importante é que cosméticos e medicamentos têm funções diferentes. Um produto vendido como cosmético pode melhorar a hidratação e a aparência da pele, mas isso não significa que tenha o mesmo efeito de um tratamento dermatológico prescrito para uma indicação específica.
Quando o assunto é toxina botulínica, não existe uma idade universal a partir da qual todas as pessoas deveriam começar a aplicação. O procedimento tem indicações específicas e deve ser avaliado individualmente por um profissional habilitado.
A toxina botulínica reduz temporariamente a movimentação de determinados músculos e pode suavizar linhas de expressão. Por isso, a indicação não deveria partir apenas da idade ou de uma tentativa de “congelar” o envelhecimento antes que ele aconteça.
“A toxina botulínica possui excelentes indicações estéticas e médicas. Ela reduz temporariamente a atividade de determinados músculos e, consequentemente, algumas linhas de expressão. Porém, a ideia de que toda pessoa jovem deveria começar a aplicar toxina botulínica para impedir que um dia tenha rugas não é sustentada por evidências clínicas robustas”, diz Quaggio.
Ainda segundo a dermatologista, não existe uma idade universal em que alguém deva começar a aplicar botox. A decisão deve considerar a presença e a intensidade das linhas de expressão, o padrão de movimentação muscular, a anatomia individual, as expectativas da pessoa, os riscos e possíveis efeitos adversos e, principalmente, se existe realmente algo que incomoda aquele paciente.
“A toxina botulínica também não interrompe o processo de envelhecimento. Seu efeito é temporário e depende de reaplicações”, acrescenta.
A chamada abordagem preventiva ganhou espaço justamente com a ideia de intervir antes que sinais de envelhecimento se tornem mais evidentes. Mas prevenção e antecipação de procedimentos não são a mesma coisa.
Uma pessoa pode adotar medidas preventivas sem realizar procedimentos estéticos. Usar protetor solar, não fumar, manter uma alimentação equilibrada, dormir adequadamente e tratar doenças de pele são exemplos de cuidados que contribuem para a saúde cutânea ao longo do tempo.
Já procedimentos como toxina botulínica, preenchimentos e lasers têm indicações, benefícios e possíveis efeitos adversos. A decisão deve levar em conta a necessidade individual, e não uma regra de que determinado tratamento precisa começar em uma idade específica.
A prevenção do envelhecimento começa muito antes de uma clínica estética. Para pessoas jovens, o foco deve estar principalmente na saúde da pele e na construção de hábitos que possam ser mantidos ao longo da vida.
Protetor solar, limpeza adequada, hidratação quando indicada e acompanhamento dermatológico quando existem problemas específicos tendem a ser mais relevantes do que uma rotina extensa de produtos ou procedimentos.
O conceito de beleza preventiva, portanto, pode ser útil quando significa cuidar da pele antes que problemas apareçam. O limite está em transformar o envelhecimento natural em algo que precisa ser combatido desde cedo.
Uma preocupação, segundo os especialistas, está em diferenciar uma preocupação legítima com a saúde e a prevenção do envelhecimento da pressão estética criada pelas redes sociais e pela indústria da beleza.
“Isso é uma linha muito tênue dentro do consultório. Eu sou muito conservadora em relação a indicar procedimentos sem a pergunta do paciente ou sem o questionamento dele. Eu acho que a gente, como profissional de saúde, precisa, lógico, legitimar as queixas, mas também normalizar que o envelhecimento é algo natural, né? Que a gente pode melhor administrar com cuidados de skincare. E, se for uma coisa que incomoda muito a autoestima do paciente, avaliar se é necessário algum procedimento”, diz Ang.