Mortes por suicídio entre homens são 233% maiores que entre mulheres em MT; entenda
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Mortes por suicídio entre homens são 233% maiores que entre mulheres em MT; entenda

  • 15/09/2026 18:04
  • Redação

O Centro de Valorização da Vida (CVV) oferece atendimento gratuito, voluntário e sob sigilo por telefone. shutterstock Mato Grosso registrou 234 mortes por suicídio entre janeiro e julho de 2026, segundo dados do Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (Sinesp).

Do total, 180 vítimas eram homens e 54 eram mulheres.

A média é de cerca de uma morte por dia no estado.

O número de homens mortos por suicídio é 233,3% maior que o de mulheres no período.

Em números absolutos, foram 126 mortes a mais entre homens.

Os dados mostram que, a cada mulher que morreu por suicídio, cerca de 3,3 homens foram vítimas.

Setembro amarelo é o mês de conscientização dedicada à prevenção ao suicídio e à valorização da vida, período em que campanhas ganham espaço em diferentes ambientes da sociedade.

Agora no g1 O psicólogo Rodrigo Brito, doutor em Estudos de Linguagem pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) e especialista em Gestão Pública pelo Instituto Federal de Mato Grosso (IFMT), explica que a diferença não significa necessariamente que homens sofram mais do que mulheres.

Por que os homens são maioria entre as vítimas?

Segundo o psicólogo, um dos fatores que ajudam a explicar a diferença está relacionado à forma como os homens são ensinados a lidar com o sofrimento.

Para Rodrigo, a ideia de que o homem precisa ser forte, independente e resolver os próprios problemas pode dificultar a busca por ajuda. "Existe uma construção social da masculinidade que, em muitos contextos, associa o homem à força, à autonomia e à ideia de que ele precisa resolver seus problemas sozinho.

Isso pode dificultar a expressão da vulnerabilidade e a busca por ajuda", explicou.

Para o psicólogo, o problema não está na masculinidade, mas quando ideias como força, coragem e autonomia se tornam rígidas e fazem com que demonstrar vulnerabilidade seja visto como fraqueza. "Existe uma masculinidade socialmente valorizada que frequentemente associa o homem à força, à coragem, ao controle e à capacidade de resolver seus problemas", afirmou o especialista.

Expressões como "homem não chora" e "seja forte", segundo o psicólogo, fazem parte desse processo de socialização e podem levar alguns homens a enxergar o pedido de ajuda como sinal de fracasso. "Isso tudo significa que não basta dizer 'os homens precisam procurar ajuda', pois também precisamos questionar as condições sociais e culturais que fazem com que pedir ajuda seja tão difícil para alguns deles", explicou o psicólogo.

Rodrigo ainda afirma que, por causa disso, alguns homens procuram menos os serviços de saúde mental ou chegam ao atendimento quando o sofrimento já está mais grave.

Quais os sinais de alerta?

Rodrigo explica que o sofrimento psicológico nem sempre aparece como tristeza.

Mudanças de comportamento também podem indicar que uma pessoa precisa de ajuda.

Entre os sinais estão: irritabilidade; isolamento; aumento do consumo de álcool; comportamentos de risco; afastamento de familiares e amigos; abandono de atividades que antes davam prazer; e mudanças perceptíveis na rotina.

O especialista ressalta também que o suicídio é um fenômeno multifatorial.

Problemas relacionados ao trabalho, desemprego, dificuldades financeiras, perdas, isolamento social, uso problemático de álcool e outras substâncias e diferentes formas de sofrimento psicológico podem aumentar a vulnerabilidade.

A aposentadoria também pode representar um período de maior vulnerabilidade para alguns homens, principalmente quando envolve redução da renda, perda de vínculos sociais ou mudanças em papéis que estavam ligados à identidade.

Entre os idosos, o avanço da idade também está associado ao aumento das taxas de suicídio, segundo o psicólogo.

Nessa fase, perdas, isolamento social, redução da autonomia e mudanças nos vínculos podem contribuir para o sofrimento.

Como prevenir?

Para Rodrigo, a prevenção deve começar antes de uma situação de crise.

Ele defende a ampliação do acesso aos serviços de saúde mental e a criação de espaços onde os homens possam falar sobre o que estão enfrentando.

Segundo ele, as ações precisam chegar aos locais onde os homens estão, como unidades de saúde, ambientes de trabalho, escolas, universidades e comunidades. "Precisamos criar espaços em que o homem possa falar sobre seu sofrimento antes que ele se transforme em uma situação de crise", orientou o psicólogo.

Segundo o psicólogo, familiares e profissionais também devem ser preparados para reconhecer mudanças de comportamento e sinais de sofrimento.

Ele complementa dizendo que também é necessário fortalecer o SUS e a Rede de Atenção Psicossocial, qualificar os profissionais, desenvolver ações de promoção da saúde mental e criar estratégias de cuidado que considerem também as particularidades da população masculina.

Dados de Mato Grosso A evolução dos números de casos de suicídio em Mato Grosso revela um cenário que alternou períodos de estabilidade e queda nos últimos anos, mas voltou a subir em 2026.

Entre 2022 e 2023, o estado registrou um aumento de 19,3% no total de mortes, subindo de 285 para 340 casos.

Nos anos seguintes, os índices apresentavam tendência de acomodação: 2024 fechou com 339 ocorrências (queda de 0,3%), enquanto 2025 registrou uma redução de 5%, com 322 mortes ao longo do ano.

O cenário, no entanto, sofreu uma mudança no comportamento em 2026.

No recorte de janeiro a julho, Mato Grosso acumula 234 mortes no ano, o que representa um aumento de 19,4% em relação aos mesmos sete meses de 2025, quando foram contabilizados 196 casos.

Na comparação com o mesmo período de 2022, que teve 158 mortes, o avanço chega a 48,1%.

O aumento registrado é impulsionado principalmente pelo mês de janeiro de 2026, que teve 53 mortes, o maior volume mensal já contabilizado neste mês nos últimos cinco anos.

Na prática, o salto nos números acende um alerta para a rede de saúde pública do estado.

A quebra do padrão histórico de sazonalidade, que costumava registrar altas apenas no último trimestre do ano, aponta para a necessidade de intensificar as ações de prevenção e apoio psicológico nos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) e nas Unidades Básicas de Saúde (UBS) desde o início do ano.

A distribuição dos casos pelo estado também chama a atenção.

Quatro municípios de Mato Grosso registraram mais de 10 mortes por suicídio entre janeiro e julho de 2026, segundo os dados do Sinesp.

Cuiabá aparece na liderança, com 39 casos registrados no período.

Rondonópolis, Várzea Grande e Sorriso ficam entre 12 e 19 casos por município.

Os dados municipais ajudam a mostrar como as mortes estão distribuídas pelo estado e podem ser usados para direcionar ações de prevenção e atendimento em saúde mental.

O g1 entrou em contato com as prefeituras dos municípios que demonstraram a maior quantidade de casos de suícidio para verificar como os dados são acompanhados e quais os canais disponíveis para ajuda da população.

A Prefeitura de Sorriso informou que oferece atendimento em saúde mental por meio da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), que acompanha os casos no município.

Entre os serviços estão o Centro de Atenção Psicossocial (CAPS II) Nova Vida | Maria Zélia da Silva Cosmos, com atendimento psicológico, psiquiátrico e oficinas terapêuticas; o CAPSi/Integrar, voltado a crianças e adolescentes; e ações da equipe E-Multi, como o projeto "Entre Fios e Memórias".

A Secretaria de Saúde também realiza rodas de conversa sobre saúde mental em unidades de saúde e instituições de ensino durante o Setembro Amarelo.

A Secretaria Municipal de Assistência Social de Várzea Grande informou que atua em conjunto com as Secretarias Municipais de Saúde e Educação em campanhas e ações voltadas à proteção social e à garantia de direitos.

As iniciativas buscam fortalecer vínculos familiares e comunitários, prevenir situações de vulnerabilidade e ampliar o acesso da população aos serviços e políticas públicas.

A Secretaria Municipal de Saúde informou que Rondonópolis registrou 15 óbitos por suicídio entre janeiro e julho de 2026, segundo dados da Vigilância Epidemiológica, ainda sujeitos a atualização.

O município afirma que vem fortalecendo a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), com integração entre unidades de saúde, CAPS, Atenção Primária, UPA e SAMU, além de capacitar equipes para identificar sinais de sofrimento psíquico e risco de suicídio.

Nesta segunda-feira (15), também será assinada a ordem de serviço para construção do CAPS III, que deve ampliar o atendimento a pessoas em sofrimento mental grave e em situações de crise.

A secretaria ressalta que o suicídio é um fenômeno multifatorial e que os dados são usados para orientar ações de prevenção e ampliar o acesso ao cuidado.

O g1 entrou em contato com a prefeitura de Cuiabá, mas não obteve retorno até a última atualização desta reportagem.

Como pedir ajuda?

O Centro de Valorização da Vida (CVV) oferece atendimento gratuito, voluntário e sob sigilo por telefone.

O serviço atende pessoas que buscam conversar e é realizado de segunda a sexta-feira, das 8h à 0h, aos sábados, das 13h à 0h, e aos domingos, das 15h à 0h.Canais de atendimento do CVV: Telefone: Ligue para o número 188 (a ligação é gratuita de qualquer telefone fixo ou celular no Brasil).

Chat online: O atendimento também pode ser feito pela internet, no site oficial do CVV.

E-mail: apoioemocional@cvv.org.br Além do apoio virtual e telefônico, a população pode procurar atendimento presencial na rede pública de saúde.

Os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) e as Unidades Básicas de Saúde (UBS) do município oferecem acompanhamento médico e psicológico especializado.

Em casos de emergência ou risco iminente, as chamadas podem ser feitas diretamente ao Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), pelo telefone 192.

  • Fonte: G1 Mato Grosso
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