Abrigo para quem está sem chão: voluntário em MT ajuda milhares de migrantes que fogem de crises humanitárias
- 20/01/2026 05:00
- Redação
Conheça o voluntário de MT ajuda milhares de migrantes que fogem de crises humanitárias Empurradas por conflitos políticos e por crises humanitárias que levaram à miséria em seus países de origem, milhares de pessoas chegam a Mato Grosso sem rumo definido.
Em Cuiabá, encontram abrigo no Centro Pastoral do Migrante, onde Mauro Verzeletti, sacerdote da igreja católica, coordena de forma voluntária o acolhimento de famílias que fogem da fome, da violência e da falta de perspectivas.
Logo na entrada do espaço, os sorrisos de quem acolhe quebram o peso da chegada.
Funcionários caminham apressados entre malas, sacolas improvisadas e crianças agarradas às pernas dos pais.
Alguns migrantes aguardam do lado de fora, sentados à sombra, com olhares cansados, mas esperançosos.
O abrigo tem portas largas e paredes simples.
Não há luxo, mas há aconchego e espaço.
E, para quem acaba de chegar, isso basta.
A nossa atenção não tem exclusividade, ela não olha cor, religião ou orientação sexual.
Olhamos a pessoa, pois o ser humano é o centro da nossa ação.
Todo ser humano tem seus direitos e o objetivo é garantir sua dignidade como tal Em 2025, o Centro viveu o maior volume de atendimentos de sua história.
Ao longo do ano, mais de 800 migrantes passaram pelo acolhimento, e atualmente mais de 100 pessoas estão abrigadas no local.
A maioria é de origem venezuelana, reflexo direto do fechamento de rotas migratórias rumo aos Estados Unidos e do endurecimento das políticas internacionais de fronteira.
Hoje existe um fenômeno inverso.
As portas se fecharam no norte, e as pessoas estão voltando para a América do Sul.
Com isso, o Brasil passou a ser o principal destino e, a Pastoral, a porta de acolhimento Entre brasileiros e estrangeiros, mais de 34% dos moradores de Mato Grosso são migrantes, segundo o Censo Demográfico de 2022 do IBGE.
Veja no gráfico abaixo: O Centro Pastoral atua em Mato Grosso desde 1980.
Ao longo de mais de quatro décadas, o espaço se adaptou aos diferentes fluxos migratórios que chegaram ao estado: brasileiros do Nordeste e do Sul, trabalhadores resgatados de condições análogas à escravidão, haitianos após o terremoto de 2010 e, mais recentemente, famílias venezuelanas que fogem da crise econômica e política no país vizinho.
Mauro Verzeletti é diretor voluntário do Centro Pastoral do Migrante, em Cuiabá Arquivo pessoal Mauro tem 65 anos e trabalha como voluntário há mais de 30 anos.
Ele já atuou fora do Brasil, acolhendo imigrantes na fronteira México e Estados Unidos e, hoje, se dedica à Pastoral em tempo integral. “O trabalho não para, é 24 horas por dia.
Cada momento histórico traz um tipo de dor diferente.
Mas quase sempre a chegada aqui [no abrigo] é marcada pela mesma coisa: vulnerabilidade e medo”, ressaltou Verzeletti em entrevista ao g1.
Enquanto a entrevista acontece, o espaço revela sua rotina.
Crianças correm, conversas em espanhol ecoam pelos corredores, voluntários organizam documentos.
Em um canto, uma equipe prepara as refeições.
Em outro, uma caminhonete deixa o pátio levando uma família que foi encaminhada para outro estado, onde tem uma rede de apoio.
Nos corredores, os recém-chegados Edgar Carrera, de 20 anos, e Yulies Lopez, de 21, conversavam baixinho.
Eles contaram à reportagem que atravessaram a fronteira entre Brasil e Venezuela com o pequeno Ahlan Garcia, de 4 anos, em busca de um futuro promissor para a família.
No abrigo, ganharam roupas, alimentos e ajuda para organizar os documentos.
O próximo passo agora é realizar cursos profissionalizantes oferecidos na Pastoral e, posteriormente, encontrar um emprego na cidade.
Edgar Carrera deixou a Venezuela com a esposa e o filho e se mudou para Mato Grosso Arquivo pessoal Perto deles estavam Yilda Sandoval, de 30 anos, e Luís Pereira, de 33, que tentavam organizar a rotina de uma família grande.
São cinco filhos — de 13, 10 e 9 anos, além dos gêmeos de 5 anos — todos venezuelanos.
Enquanto os adultos conversavam, as crianças corriam pelo pátio, misturadas a outras de diferentes nacionalidades, como se a infância não reconhecesse fronteiras.
Família reunida enquanto aguardam atendimento no Centro Pastoral Kessillen Lopes/g1 Cada pessoa chega carregando uma história.
Carlos* está na casa há cerca de 40 dias.
Ele fugiu do Equador há seis meses, após perder 10 familiares assassinados em conflitos políticos.
A voz falha quando tenta contar sua história e falar do futuro. “Já passei por muitos lugares até chegar aqui. [No Centro Pastoral] Encontrei comida, consegui tomar um banho, fui acolhido.
Tudo que eu precisava.
Isso me deu força para seguir viagem e continuar caminhando para salvar a minha própria vida, pois já chorei muito”, contou Carlos*. *Nome fictício para preservar a identidade Acolher vai além do teto No Centro Pastoral os migrantes encontram: ️alimentação encaminhamento para documentação migratória atendimento psicológico ⚖️orientação jurídica acesso ao mercado de trabalho apoio para matrícula de crianças em escolas e creches Segundo o sacerdote, somente no ano passado, foram servidas mais de 85 mil refeições, realizados atendimentos psicológicos a 151 pessoas em três meses e encaminhados centenas de migrantes para regularização junto à Polícia Federal.
Segundo o padre Mauro, o sofrimento emocional é uma das marcas mais profundas da migração e que, por isso, há quatro meses, decidiu contratar uma psicóloga para prestar apoio aos recém-chegados que não sabem nem por onde recomeçar.
Mauro Verzeletti fala sobre os desafios do acolhimento de migrantes Divulgação Segundo a psicóloga Rayna Rodrigues, que atua no atendimento aos migrantes, os primeiros contatos são marcados por um sofrimento emocional intenso e um nível bem elevado de ansiedade, medo e dúvidas em relação ao futuro. “Como uma família que não tem o que comer, não tem emprego e não consegue vaga para as crianças na escola pode ter saúde mental?
Sem acesso aos direitos básicos, não há saúde mental possível”, afirmou.
Rayna ressaltou que o acesso ao básico devolve às famílias a possibilidade de pensar no futuro e gera um efeito profundo e contínuo: quem é acolhido passa a querer acolher. “Quando a pessoa consegue documentação, trabalho e uma fonte de renda, surge a esperança de que ela pode reconstruir a própria vida.
E existe um ciclo de ajuda.
Temos migrantes que chegaram sem nada e hoje atuam como voluntários, movidos pela empatia e pela gratidão.
A doação muda o pensamento, fortalece a dignidade e cria redes de cuidado entre eles mesmos”, completou.
Um exemplo disso é a venezuelana Suanny Galvan, que passou uma temporada no abrigo e hoje contribui para o mercado de trabalho no estado e ajuda novos migrantes.
Ela chegou ao Brasil, em 2021, com o marido e os três filhos carregando apenas malas, medo e frustração.
Suanny Galvan em mudança com a família para o Brasil em 2021 Arquivo pessoal A dor da migração, segundo ela, não está apenas na distância, mas na ruptura brusca com a própria identidade, a família e os sonhos deixados para trás.
O acolhimento recebido na Pastoral do Migrante mudou esse olhar.
Ao g1, Suanny ressaltou que a doação devolveu a dignidade à família. “Eles não estavam obrigados a dar nada para nós.
E mesmo assim deram tudo: comida, cama, banho, segurança.
Eu comecei a agradecer a Deus por ter um lugar para dormir, por não estar na rua com meus filhos.
Aí comecei a ter outro olhar para a minha vida”, declarou.
Foi nesse processo que ela passou a ajudar nos serviços do dia a dia na Pastoral, da limpeza à cozinha, criando um vínculo afetivo com o espaço e com outras famílias acolhidas.
Com o tempo, Suanny deixou de ser apenas acolhida e passou a acolher.
Trabalhou em projetos sociais ligados à Pastoral, auxiliou outros migrantes com documentação, alimentação e orientação e, mesmo após o encerramento de um dos projetos, decidiu permanecer como voluntária.
Suanny Galvan trabalha como voluntária na Pastoral do Migrante, onde foi acolhida no Brasil Montagem g1 A conta da solidariedade Centro Pastoral para Migrantes (CPM), em Cuiabá, é a porta de entrada dos migrantes CPM/divulgação Se esse espaço não existir, essas pessoas vão para a rua.
E quem paga o preço são as crianças, as famílias e a própria cidade Embora Cuiabá e Mato Grosso contem com leis específicas para garantir direitos e inclusão de migrantes, a distância entre o que está no papel e o que funciona na prática ainda é grande.
A capital instituiu, em 2021, a Política Municipal para a População Imigrante e previu a criação do Conselho Municipal do Migrante, órgão responsável por formular, monitorar e fiscalizar essas ações.
Houve, inclusive, eleição dos conselheiros para o biênio 2024–2026, mas o conselho segue sem funcionamento efetivo.
Em nota, a prefeitura informou que a implantação está prevista no planejamento estratégico para 2026, com oferta de apoio administrativo no primeiro trimestre do ano.
Até lá, a política pública permanece, na prática, sem um órgão ativo de acompanhamento.
No âmbito estadual, Mato Grosso também regulamentou, em 2021, a Política Estadual para a População Migrante, que estabelece diretrizes para acesso a serviços públicos e integração social.
No entanto, o governo do estado não se posicionou sobre a execução concreta dessas medidas nem sobre a existência de programas permanentes de financiamento ou apoio estrutural aos espaços de acolhimento.
A ausência de respostas oficiais reforça a percepção de que, apesar do avanço legal, a política ainda não se traduz em ações contínuas, orçamento definido ou rede pública estruturada para atender a população migrante.
Essa lacuna institucional tem impacto direto no cotidiano da Pastoral do Migrante, que hoje é o único local de acolhimento dessas pessoas.
O Centro funciona com 23 funcionários contratados em regime CLT, e tem uma despesa mensal de cerca de R$ 300 mil, dependendo majoritariamente de doações e voluntariado.
O único repasse fixo informado é de R$ 120 mil mensais da Prefeitura de Cuiabá, valor que precisa ser renegociado todos os anos, sem garantia de continuidade ou reajuste.
Na prática, enquanto leis e conselhos seguem em fase de planejamento, o custo do acolhimento recai quase integralmente sobre a sociedade civil.
É nesse vácuo entre legislação e execução que a Pastoral sustenta uma política pública que ainda não saiu plenamente do papel. "Temos muitos gestos de solidariedade, mas precisamos melhorar e o poder público também precisa agir.
As políticas precisam ser acompanhadas de recursos e um olhar humano para esse espaço, que hoje é único.
Os migrantes precisam ser centro de debates políticos, sem discriminação, porque eles também trabalham e ajudam no desenvolvimento do estado que hoje está em expansão", ressaltou Verzetti.
Contribuição para sociedade Haitianos no comércio: Estrangeiros empreendem e superam desafios em Cuiabá Em 2025, Mato Grosso registrou a abertura de 759 empresas com participação de sócios estrangeiros, segundo dados da Junta Comercial de Mato Grosso (Jucemat).
O levantamento revela um crescimento significativo do empreendedorismo internacional no estado, impulsionado pelo fluxo migratório e pela busca por oportunidades econômicas.
A Venezuela lidera o ranking, com 340 registros, seguida por Haiti (110) e Bolívia (72).
Para a doutora em sociologia e professora da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Patrícia Marília Félix, esse movimento não pode ser dissociado das ações de acolhimento. “A acolhida inicial é imprescindível para a inserção social do migrante, incluindo não apenas moradia e alimentação, mas também capacitação profissional, regularização de documentos e entendimento do idioma”, explicou.
Segundo ela, quando esse apoio existe, o migrante deixa de ocupar uma posição de vulnerabilidade extrema e passa a contribuir efetivamente para o desenvolvimento econômico e social da região que o recebe.
A professora destacou ainda que o sentimento de gratidão relatado por muitos migrantes tem reflexo direto na disposição para o trabalho e na integração comunitária.
Para ela, iniciativas da sociedade civil, como a Pastoral do Migrante, cumprem um papel essencial ao garantir condições mínimas de recomeço.
Doutora em sociologia e professora da UFMT, Patrícia Félix, em entrevista ao g1 Arquivo pessoal/montagem g1