Quando a violência doméstica vira feminicídio e como interromper o ciclo

Quando a violência doméstica vira feminicídio e como interromper o ciclo

  • 01/12/2025 09:58
  • Redação/Assessoria

O feminicídio não é um ato isolado, nem nasce de repente. Ele se constrói aos poucos, dentro de relações que começaram com afeto, mas foram se transformando em espaços de controle, medo e dor. O caminho que leva ao extremo é quase sempre silencioso, e é nesse silêncio que a prevenção precisa começar. Falar sobre feminicídio é falar sobre vida, sobre a possibilidade de interromper o ciclo antes que ele chegue ao ponto sem volta.

A violência doméstica raramente começa com empurrões ou gritos. Na maioria das vezes, começa nas palavras. Começa na crítica constante, nas cobranças disfarçadas de cuidado, nas pequenas restrições que vão diminuindo a liberdade do outro. Quando o controle se disfarça de amor, o terreno já está preparado para a escalada. Em Mato Grosso, o problema é urgente. Em 2024, quarenta e sete mulheres foram assassinadas em crimes de feminicídio. Dessas, quarenta e uma eram mães, deixando oitenta e nove crianças órfãs. A maior parte desses crimes aconteceu dentro da própria casa da vítima. Esses números mostram que o feminicídio é o último estágio de um processo que começa muito antes, naquilo que chamamos de violência psicológica. É ela, quase sempre invisível, o primeiro passo da espiral que pode terminar em tragédia.

No mesmo período, o canal Ligue 180 registrou aumento de mais de cento e treze por cento nas denúncias de violência doméstica em Mato Grosso. Também foram concedidas oito mil oitocentas e cinquenta e nove medidas protetivas de urgência, um aumento de dez por cento em relação ao ano anterior. Esses dados, divulgados pelo governo federal e pela Polícia Civil, mostram que a sociedade está mais atenta, mas também mais aflita. Conhecer os mecanismos de proteção é fundamental. Delegacias especializadas, Defensorias Públicas, redes de apoio e acompanhamento psicológico são recursos disponíveis para mulheres em situação de risco. Mas a prevenção começa antes da denúncia, começa no reconhecimento de que o medo não é parte do amor.

Um relacionamento saudável se constrói sobre respeito, autonomia e liberdade de ser quem se é. Respeitar não é concordar com tudo, é compreender que o outro tem direito de escolher, de discordar e de viver a própria vida. A violência nasce da tentativa de controlar, do ciúme que se confunde com cuidado, da posse travestida de amor, de frases como "você é minha" ou "sem mim você não é nada". Esses discursos, repetidos e normalizados, vão construindo lentamente a ideia de que o outro pode ser dominado. A prevenção está em desconstruir esse modelo, em aprender a se relacionar com empatia, comunicação e responsabilidade afetiva. Nenhum amor precisa sufocar. Amor saudável é aquele que não precisa ferir para existir.

É preciso também olhar para o homem e compreender que ele faz parte desse ciclo. Muitos homens que cometem violência não nasceram violentos, mas foram ensinados a acreditar que perder o controle é o mesmo que perder o poder. Quando não sabem lidar com a frustração, acabam reagindo com raiva, chantagem, perseguição ou ameaças. Esse colapso masculino, quando o controle se transforma em adoecimento, é um alerta de que algo precisa ser tratado. A psicologia tem papel essencial nesse processo. O homem precisa de espaço de escuta, precisa aprender a nomear o que sente e a lidar com o que perde. A terapia não é castigo, é prevenção. É nela que se aprende a transformar dor em consciência, e consciência em cuidado.

A mulher, por sua vez, precisa saber que a ajuda deve ser buscada antes que a situação se torne física. Quando há medo, vigilância, chantagem ou humilhação, já há violência. Procurar apoio psicológico, jurídico ou social é um gesto de coragem e de amor próprio. A rede de proteção existe e precisa ser acessada com rapidez e sem culpa. Romper o silêncio é uma forma de se preservar viva.

Essa é a maneira como nós, do Instituto Mentes Plurais, contribuímos para a diminuição do feminicídio em Mato Grosso, oferecendo conhecimento que ajuda homens e mulheres a construírem relações mais conscientes, seguras e respeitosas. Buscamos sensibilizar os homens a compreenderem as mulheres com quem convivem, suas parceiras, mães, irmãs e colegas, sem a necessidade de impor poder, medo ou controle. E queremos fortalecer as mulheres para que reconheçam sinais de abuso e não os naturalizem, compreendendo que o respeito começa no olhar que damos a nós mesmos. A psicologia, para nós, é uma ponte entre o individual e o social, e é por meio dela que acreditamos ser possível transformar vínculos, prevenir a violência e salvar vidas. O feminicídio não é destino. É uma construção que pode e deve ser interrompida a partir do momento em que a consciência desperta.

Envie fotos, vídeos, denúncias e reclamações para nossa equipe pelo E-mail contato@nortaonoticias.com.br.

Compartilhar: